02/12/2021 às 20h33min - Atualizada em 02/12/2021 às 19h59min

Como publicar um livro de forma independente: três autoras contam os detalhes dessa jornada

Em entrevista, autoras falam sobre todas as etapas de construção de um livro, desde a escrita até o lançamento

Lorraine Perillo - Editado por Larissa Bispo
Foto: Pinterest
Se você perguntar para qualquer autor independente qual foi a maior dificuldade que eles encontraram na carreira, tenho certeza que cada um deles irá abrir um caderninho e enumerar um sem número de itens. Isso só no início da conversa. Quanto mais você se aprofundar no assunto, mais eles vão falar.

Isso se deve ao fato de que, para lançar um livro, você precisa seguir uma lista de critérios exigidos e, muitas vezes, você fará isso sozinho. O mercado editorial no Brasil é extremamente fechado, apesar de ser uma das maiores fontes de receita do país. Para entrar nesse universo é preciso muito mais do que uma obra excelente. A lista de exigências é tão absurda que alguns autores decidem agir por conta própria e fazer sua própria tiragem, o que acaba afetando o preço final do livro.



É importante lembrar das muitas etapas na hora de lançar uma obra. Vou citar algumas delas abaixo:

1. Escrever a obra (claro!);
2. Preparar epígrafe, prólogo, epílogo e agradecimentos;
3. Enviar para a revisão (várias vezes!);
4. Diagramar;
5. Preparar a capa, seja com um desenho próprio, seja com a ajuda de um designer profissional;
6. Diagramar mais uma vez para incluir a capa e mais alguns detalhes;
7. Registrar o livro (ISBN, Ficha Catalográfica);
8. Enviar para a gráfica;
9. Fazer a divulgação própria nas redes sociais, seja por tráfego pago, seja por tráfego orgânico;
10. Enviar os livros autografados (ou não);

Essas dez etapas nem se comparam às tantas em que os autores independentes se submetem antes de lançarem suas obras. E se o autor não souber diagramar? Ou desenhar? Ou revisar? Então, é necessário contratar pessoas para fazer isso. O caixa acaba ficando apertado e o preço final do livro sobe.

Durante a pandemia, três autoras com quem tive o prazer de conversar lançaram seus livros de forma independente. As três utilizaram de métodos de divulgação próprios para conquistar leitores e fãs para seus universos fantásticos. Em entrevista exclusiva para o Lab Dicas, Liv Salgado, Natalia Ávila e Nathália S. Harri contaram sobre seus processos criativos, a divulgação e o lançamento de suas obras e deram dicas para escritores iniciantes.

Segundo Liv Salgado, autora de Duas Rainhas Bruxas, para os autores nacionais, não tem muita alternativa a não ser lançar livros de forma independente, mesmo tendo o sonho de publicar com uma grande editora.

“Eu comecei a escrever cedo, mas demorei muito a levar a escrita a sério. Por muitos anos foi só aquela fuga das emoções, principalmente na adolescência. Fiquei muito tempo escrevendo poesia, o que acho que influenciou bastante na minha escrita de ficção, que é lírica e intimista”, comenta.



“A pandemia para mim, enquanto escritora, foi a situação ideal. Eu estava muito inquieta com a quarentena, que era o oposto da vida que eu levava antes. Quando resolvi voltar a escrever de verdade foi como se um tivesse dado um clique na minha cabeça. Simplesmente fez sentido. Só dei conta de escrever porque pude me dedicar totalmente a isso, já que todo o processo de um autor independente também envolve a produção de conteúdo em redes sociais. E foi um momento ótimo no mercado, já que as pessoas começaram a consumir muito mais literatura desde 2020. Não sei por experiência própria como estava o mercado da Amazon nos anos anteriores, mas tudo indica que é um crescimento exponencial, sabe?”, comenta.

Em seu perfil no instagram, Liv dá dicas de escrita para novos escritores.

“Publiquei sozinha, mas com a qualidade de uma produção em larga escala. Contratei profissionais para tudo: capa, ilustração, revisão, diagramação. Acho importante falar sobre isso para quebrar a ideia que muita gente tem de que livros da Amazon são amadores. A gente passa muita dificuldade, mas consegue fazer bem feito quando quer. Acho que o que mais dificulta é a falta de suporte. A gente está sozinho nessa, não tem jeito. Os custos são altos, os riscos são grandes, mas fazer o quê se é o meu sonho? Fora isso, posso dizer que o mercado da Amazon ainda paga muito mal. Não sei qual é o prognóstico pros próximos anos, mas espero que a gente ganhe mais voz. Que as pessoas entendam o problema da pirataria, da falta de incentivo e dos estereótipos que colocam na gente”, finaliza.



Natália Ávila, que é formada em Publicidade, tem um perfil no Instagram voltado somente para o mundo literário. Nele, ela dá dicas de escrita criativa, divulga seus cursos e mantém uma legião de seguidores apaixonados por livros, magia e RPG.

“Eu comecei escrevendo contos e poemas, narrativas curtinhas, bem naquela vibe adolescente de escrever sentimentos, mas eu comecei a trabalhar mesmo com literatura na época em que eu escrevi o meu primeiro livro infantil, que foi um livro que meu pai contava várias histórias quando eu era criança. Eu quis transcrever essas histórias, então eu publiquei esse livro de forma independente. A partir daí, comecei a trabalhar com literatura infantil, fazia eventos e trabalhei em escolas, fazendo contação de histórias, atividades com as crianças e eu vendia meus livros nesses eventos”, comenta ela. “Depois de um tempo, eu comecei a querer voltar para a literatura para o público jovem-adulto. Comecei a ministrar algumas oficinas de Escrita Criativa, com um conteúdo que eu montei para o meu TCC da faculdade, que foi como o cérebro funciona com a criatividade. Ele era presencial, mas eu já estava com a ideia de transformá-lo em digital, então eu tive um alcance bem legal de pessoas querendo escrever”, finaliza.



Sobre lançar seus livros na pandemia, Naty responde:

“Não fez muita diferença o fato de estarmos em uma pandemia ou não. Eu escolhi lançar de forma independente porque assim eu consigo ter um controle da data de lançamento do projeto, eu tenho uma margem de lucro bem maior. Eu prefiro ter autonomia desse projeto e fazer a distribuição online, da forma como eu faço”, comenta.

Autora dos best-sellers Era de Sombras e Lembranças e A Falsificadora de Mapas e com uma novela a caminho, Naty fala que a maior dificuldade de uma autora independente está exatamente na logística de compra e entrega dos livros. Às vezes, são mais de 200 exemplares vendidos e é ela quem tem que autografar, embalar, carregar para os correios, enviar, separar os códigos de rastreio e informar para quem comprou. Além de todo o trabalho que ela teve, as críticas negativas também incomodaram.



“Eu lancei meu livro quando meu emocional estava bastante fragilizado, então eu estava em um momento muito vulnerável. Os feedbacks positivos do meu livro estavam me dando energia e força e eu acabei me apoiando emocionalmente nisso, mas quando eu vi a primeira crítica negativa, eu percebi que cometi um erro em me apoiar emocionalmente na opinião de outras pessoas”, explica ela.

Nathalia Harri, que não mora no Brasil, tem uma logística bem diferente. Impossibilitada de fazer eventos, ela foi obrigada a fazer toda a divulgação de seu livro de fantasia mais recente, A Guerreira de Monterúm, de forma online.

“Esse lançamento independente, tenho que admitir, foi mais prazeroso porque eu tive 100% de controle sobre ele. Com a editora eu também acompanhei e aprovei todas as etapas, mas trabalhando independente eu tive contato direto com quem estava fazendo os trabalhos (revisão, ilustração, diagramação), então eu me senti mais no controle, que as coisas saíram mais de acordo com o que eu gostaria, e para mim o resultado está realmente maravilhoso. Estou muito contente com esse novo lançamento”, conta.

“Eu acredito que a maior dificuldade é ser uma autora nacional. Vejo, e já vi demais, muitas pessoas dizendo que não gostam de ler livros nacionais, que só leem autores de fora. é algo que eu, sinceramente, nunca entendi. Tenho vários livros de autores nacionais, muitos comprei na minha adolescência, que eu nem sabia sobre esse preconceito contra autores brasileiros, e achava o máximo ler o livro de alguém da mesma nacionalidade que eu, era inspirador, e eu ficava orgulhosa disso. Hoje vejo que muita gente pensa completamente diferente, e apesar de não conseguir entender de onde veio esse preconceito, eu sigo tentando provar que autores nacionais são exatamente iguais autores internacionais. Cada um tem uma história diferente para contar, as pessoas somente precisam estar abertas para a leitura ao invés de começar com 1001 julgamentos. Se a gente espera que algo seja ruim, dificilmente conseguiremos ver qualidade ao testar. Começar sem julgamentos é um ponto importante”, finaliza.



Ela também é autora de Ottoiccact – O Livro do Poder, lançado quando ela tinha 15 anos e publicado pela famosa editora portuguesa, Chiado Books.

“Meu primeiro livro lançado, Ottoiccact - O Livro do Poder, foi o primeiro livro que eu terminei. Faz anos que ele está escrito, e considerando que eu tinha meus 15 anos quando comecei, muita coisa foi modificada quando decidi investir e publicar. Eu lembro de ter mandando para uma amiga e, depois de ler, ela me deu uma super força para publicar. Meu marido também estava no meu pé, dizia que eu devia tentar, eu já tinha escrito, então não perderia nada tentando”, comenta. “O Ottoiccact eu publiquei com a Chiado Books, uma editora portuguesa, e foi uma experiência muito boa, porque eu pude acompanhar cada etapa e aprender muito com elas. Foi uma escolha da qual eu não me arrependo pelo aprendizado que eu tive, me deu todo o necessário para eu embarcar na aventura que foi lançar A Guerreira de Monterúm independente”, explica.



A verdade é que para se lançar uma história você precisa de muito mais do que só suas palavras e ideias. É necessário todo um planejamento, tanto financeiro quanto logístico, e muita força de vontade para fazer acontecer. É algo que não dá para ser feito sozinho. Inclusive, é uma unanimidade entre os autores e autoras nacionais independentes a opinião de que todos precisam de uma rede de apoio para ajudar nas etapas de lançamento. Mas se você que está lendo quer se aprofundar mais sobre o assunto procure o autor do seu livro favorito e converse com ele. Valorize os profissionais independentes. Compre, compartilha, consuma seus conteúdos e suas histórias. E não desista! Jogue sua história para o mundo e deixe que os leitores se maravilhem com o universo que existe dentro da sua mente.
 
 
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