18/04/2022 às 10h56min - Atualizada em 18/04/2022 às 14h41min

Marginalização e racismo são marcas da história da moda

A presença negra foi marginalizada, mas não inexistente

Fernando Lopes - Editado por Larissa Barros
Reprodução/Instagram Divulgação: Maisonvalentino

Por diversas questões históricas, não só na moda, a presença negra foi marginalizada, mas não inexistente. Na verdade, em forma de resistência, também vimos no mundo fashion, designers e ícones pretos lutando por mais espaço, respeito e reconhecimento.

 

Primeiramente, é necessário se atentar para o fato de que por longos anos da história da indústria da moda, os meios de produção e poder se alocaram em mãos brancas, ao tempo em que, muitas vezes, sub-operados por corpos negros. Assim, o meio de estilistas e marcas de moda renomadas globalmente nasceu excludente, racista e irresponsável com atos hoje questionados em sua estrutura.

 

Ainda, a moda como linguagem sociocultural representa povos e épocas, naturalmente, fazendo parte da história de diferentes grupos. Assim, as referências culturais do continente africano que foram transmitidas e reinterpretadas, por conta da trágica escravização, caminham com o trabalho de estilistas negros nos últimos anos que tentam resgatar suas raízes. Isto é, as vestimentas e padrões de beleza não escaparam a colonização e profundas marcas ainda precisam ser superadas.
 

Um dos nomes de personalidades pretas mais remotas que podemos citar no encadeamento de uma carreira voltada para a moda é o de Elizabeth Keckley, uma ex-escravizada que se tornou costureira e produzia e os vestidos da primeira dama Mary Todd Lincoln no século XIX.


No século seguinte, outra afrodescendente revolucionou e ajudou a pavimentar o caminhos dos próximos designers negros. Zelda Wynn Valdes viveu durante o período da segregação racial estadunidense e trabalhou no almoxarifado de lojas de roupa. Em 1948, no ápice de sua atividade, ela abriu sua própria loja na BroadwayZelda desenvolveu o que veio a se tornar a icônica fantasia de "coelhinha" da playboy e produziu vestidos para figuras como Ella Fitzgerald e Maria Cole.

 

Contudo, o sucesso dessas criadoras de vestimentas não teve muita substância no sentido dos negócios, havendo, no caminho delas inúmeros obstáculos à estabilidade e ao reconhecimento. Tais dificuldades foram potencializadas pela falta de interesse, mentalidade racista e segregacionista predominante na indústria embranquecida, além da inexistência de condições reais e oportunidade para uma parcela da população que, não só nos Estados Unidos, mas na América e na Europa, no geral, não possuíam pleno exercício de direitos e estrutura para tal.

 

Designers negros e os desafios enfrentados no mundo da moda

 

Ann Lowe foi uma designer afro-americana que alcançou um patamar pioneiro de reconhecimento entre membros da elite durante os anos 20 e 60 nos EUA. Por essa fama e seu talento, ela desenhou roupas como o vestido de casamento de Jacqueline Kennedy, em 1953, e da atriz Olivia de Havilland para a cerimônia do Oscar de 1946. Entretanto, ao longo de sua carreira, mesmo tendo estabelecido seu trabalho como designer, Lowe trabalhou como comissária em lojas de departamento e, por muito tempo, não recebeu crédito por suas peças.

 

Não só isso, como o pequeno estabelecimento que ela montou em Nova Iorque, apesar de contar com uma clientela de alto poder aquisitivo, era insustentável; ela conseguia pagar os funcionários, mas fechou as portas por não conseguir arcar com o custo dos impostos. Tragicamente, a designer praticamente não conseguia lucrar com suas vendas mesmo no pico de sua carreira e declarou falência em 1963.

 

Após cinco anos, ela abriu uma nova loja, mas se aposentou em 1972. Durante os anos que se seguiram, outros designers pretos adentraram o ramo e conseguiram, mesmo tardiamente, se destacar. Nomes como Dapper Dan e Willi Smith que trouxeram a estética street e hip hop para a moda e, mais recentemente, estilistas como Christopher John Rogers emergiram em um novo cenário, mais aberto, porém ainda não ideal, possibilitado pela luta de seus antecedentes.


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