26/05/2022 às 21h05min - Atualizada em 26/05/2022 às 20h42min

No auge, Liverpool chega à final da Liga dos Campeões para a "revanche de Kiev"

Equipe enfrenta o Real Madrid neste sábado; veja a campanha do clube na competição

Felipe Sousa - Editado por: Alan Martins
Comemoração intensa após gol contra o Villarreal, em jogo de ida das semifinais (Divulgação/Liverpool)
Jürgen Klopp chegou ao Liverpool em 2015 com uma missão clara: reconduzir o clube ao topo do futebol inglês e europeu depois de anos no ostracismo. A missão não era fácil e a reconstrução dos Reds aconteceu de forma lenta e gradual. Três anos depois, em 2018, o Liverpool parecia estar pronto para reconquistar o velho continente. E nada melhor do que destronar o seu detentor à época, o então bicampeão Real Madrid. A final da Liga dos Campeões em Kiev foi traumática em vários sentidos: primeiro, a lesão de Mohamed Salah, destaque do time, após lance com Sergio Ramos. Depois, as falhas consecutivas do goleiro Loris Karius e a derrota por 3 a 1.

Quatro anos se passaram desde então, e todos os objetivos traçados depois que Klopp assumiu o comando do Liverpool foram conquistados. Na temporada seguinte, mais uma final de Liga dos Campeões e vitória contra o Tottenham para conquistar o sexto título. Depois, a conquista da Premier League após 30 anos. Destaques não faltaram: o impiedoso trio Salah-Mané-Firmino; a segurança de Alisson; a classe de Virgil van Dijk; a liderança de Jordan Henderson; a juventude, entrega e talento dos laterais Alexander-Arnold e Robertson. O Liverpool definitivamente tomou para si o protagonismo do futebol europeu.

Na temporada 2021/22, certamente, o futebol "heavy metal" de Klopp e seus comandados chegou ao auge. No cenário nacional, títulos da Copa da Inglaterra e da Copa da Liga Inglesa. A Premier League não veio no detalhe: os Reds chegaram a sentir a taça chegar perto de Anfield, mas o Manchester City se sobressaiu e conquistou o título por um ponto de diferença. A torcida do Liverpool reconheceu o esforço e a dedicação dos jogadores – afinal, a equipe teve campanha de campeão. Na Liga dos Campeões, 100% de aproveitamento na fase de grupos e um futebol sólido e resiliente no mata-mata contra equipes teoricamente inferiores, mas que venderam caro suas derrotas.

A fase de grupos
Na primeira fase, o Liverpool caiu no Grupo B, considerado um dos mais complicados: o Atlético de Madrid de Diego Simeone, algoz dos ingleses nas oitavas de final da temporada 2019/20; o Porto, uma equipe carrancuda especialmente dentro dos seus domínios; e o Milan, rival histórico e heptacampeão europeu que retornara à Liga dos Campeões após sete temporadas de ausência.

O grupo poderia até ser "da morte", mas o Liverpool fez com que isso se aplicasse apenas aos seus adversários: na estreia, um jogo duro contra o Milan em Anfield; abriu o placar graças a um gol contra de Tomori e desperdiçou um pênalti com Salah. Sofreu a virada dos rossoneri antes do intervalo, mas se recuperou e virou com gols de Salah e Henderson. Na sequência, goleou o Porto por 5 a 1 no Estádio do Dragão, em mais uma noite perfeita do trio de ataque histórico.

A sequência contra o Atletico era a mais aguardada: no estádio Wanda Metropolitano, o Liverpool foi avassalador nos primeiros minutos e abriu 2 a 0 com Salah e Keita. No entanto, Griezmann fez dois gols e empatou a partida ainda no primeiro tempo. Já na etapa final, o francês foi expulso após entrada dura no rosto de Roberto Firmino e os visitantes venceram com Salah, de pênalti.

Já em Anfield, a vitória por 2 a 0 foi definida em um intervalo de apenas 20 minutos, com gols de Diogo Jota e Sadio Mané – a classificação para as oitavas de final já estava garantida ali. Depois, Klopp ainda se deu ao luxo de poupar titulares nas vitórias contra o Porto e diante do Milan fora de casa. O Liverpool fechou a fase de grupos com 100% de aproveitamento, 18 pontos conquistados, 17 gols marcados e apenas seis sofridos.

Páreo duro em Milão

A mamata dos Reds acabou nas oitavas de final: pela frente, a então campeã italiana Internazionale. No jogo de ida, disputado em Milão, a Inter equilibrou o jogo com o Liverpool; no segundo tempo, criou seguidas chances de gol e poderia ter saído com a vitória. Roberto Firmino, egresso do banco de reservas, abriu o placar e Salah completou o 2 a 0, dando à equipe uma vitória importantíssima fora de casa, especialmente levando em consideração o desempenho geral abaixo do esperado.

A Inter não se deu por vencida na volta em Anfield. Manteve a pressão contra os mandantes e abriu o placar com Lautaro Martínez. Tudo indicava uma reação nerazzurri, mas ela acabou no minuto seguinte, quando Aléxis Sanchez foi expulso após entrada dura em Fabinho. Após o incidente, o Liverpool soube controlar bem a equipe italiana e confirmou a vaga para as quartas de final.

Sufoco encarnado

Para as quartas de final, o Liverpool teria pela frente a equipe considerada menos forte entre as postulantes, mas que tinha provado o seu valor e poderia muito bem aprontar uma das suas: o Benfica, ainda sob o comando de Jorge Jesus, aproveitou-se da fragilidade do Barcelona para eliminar os catalães e avançar em um grupo que ainda contava com Bayern de Munique e Dínamo de Kiev. Nas oitavas, com Nélson Veríssimo como técnico interino, os encarnados foram a grande surpresa ao eliminarem o Ajax – uma das sensações da fase de grupos – em plena Johan Cruyff Arena.

Na partida de ida em Lisboa, o Liverpool abriu 2 a 0 no primeiro tempo com Konaté e Mané. Parecia tudo bem encaminhado para uma vitória tranquila. No segundo tempo, porém, o Benfica sufocou os rivais desde o início e descontaram com Darwin Núñez, criando chances o bastante para empatarem o jogo. Sorte do Liverpool que o incansável Luís Diaz marcou o terceiro e garantiu a vitória dos ingleses por 3 a 1.

Em Anfield, o técnico Jürgen Klopp aproveitou o elenco abastado em mãos para dar oportunidade a novos jogadores. Konaté, ele de novo, abriu o placar o Liverpool em um jogo que se esperava agora ser tranquilo. Mas o Benfica ignorou o revés e empatou com Gonçalo Ramos. Firmino colocou os Reds de novo na frente e também marcou o terceiro gol. Os portugueses caíram de pé ao buscarem o empate com gols de Yaremchuk e Darwin Núñez.

Submarino torpedeado

O Villarreal foi o adversário do Liverpool nas semifinais. O então campeão da Liga Europa passou em segundo lugar em um grupo com Manchester United, Atalanta e Young Boys. Mas o estrago veio mesmo no mata-mata: nas oitavas de final, o submarino amarelo despachou a Juventus com direito a vitória por 3 a 0 em pleno Allianz Stadium. Na fase seguinte, os espanhóis não tomaram conhecimento do poderoso Bayern de Munique e avançaram às semifinais depois de vitória na Espanha por 1 a 0 e empate por 1 a 1 fora de casa.

Ao contrário das fases anteriores, o jogo de ida era em Anfield: o time de Unai Emery veio com uma retranca poderosa e impôs sérias dificuldades ao Liverpool que pressionou, mas não conseguiu criar chances claras. No segundo tempo, a retranca finalmente foi furada após um gol contra de Estupiñan. Salah ampliou o placar e deu números finais à partida, uma vez que o Villarreal não abdicou de sua estratégia defensiva.

A expectativa da equipe espanhola era reverter a vantagem no Estadio de La Ceramica, em Villarreal. O clima para a remontada estava instaurado e os jogadores acreditaram desde o pontapé inicial. O primeiro tempo foi de um time só, e o Liverpool pouco pôde fazer frente a um Villarreal avassalador, que abriu o placar com Dia em apenas dois minutos de jogo. Aos 40 minutos, a vantagem do Liverpool virara pó após Coquelin marcar o 2 a 0. O sonho estava vivo.

O Liverpool não havia entrado em campo e Klopp sabia que precisava de um fator que pudesse desequilibrar o jogo a seu favor. Esse fator atendia pelo nome de Luis Díaz. O colombiano de 25 anos foi contratado junto ao Porto no meio da temporada, mas parecia estar no clube há anos, dada a sua rápida adaptação. A entrada de Díaz no segundo tempo mudou o jogo: Fabinho diminuiu aos 16 minutos e pôs o Liverpool novamente no caminho da final. Luis Díaz, cinco minutos depois, restaurou a vantagem da ida. A esta altura, o psicológico dos jogadores do Villarreal era inexistente. Aos 28 minutos, Mané virou o jogo e garantiu a vitória e a décima participação do time em finais de Liga dos Campeões. A equipe inglesa foi a visitante mais indigesta da atual edição ao vencer todos os jogos disputados fora de casa.

A final contra o Real Madrid e as "contas a acertar"

Havia muita expectativa para uma eventual final entre Liverpool e Manchester City, o que tornaria a final da Liga dos Campeões em um grande tira-teima entre as consideradas melhores equipes do mundo. Após a classificação contra o Villarreal, Mohamed Salah foi perguntado pela equipe da BT Sport sobre qual time desejaria enfrentar no Stade de France, em Paris. O egípcio evitou qualquer resposta protocolar acerca do assunto: "Quero enfrentar o Real Madrid. Preciso ser honesto. Se você está me perguntando pessoalmente, quero jogar contra o Madrid. Eles nos venceram em uma final antes, então vamos enfrenta-los de novo".

A questão de Salah com o clube merengue é pessoal. O polêmico lance com Sergio Ramos aos 30 minutos do primeiro tempo da final de 2018 causou ao atacante uma lesão no ombro e custou sua substituição precoce. Salah foi levado ao hospital, teve que assistir o Real Madrid levantar a taça pela televisão e quase perdeu a oportunidade de disputar a Copa do Mundo de 2018 – ainda assim, jogou sem estar 100%.

Klopp rechaçou o sentimento de revanche em entrevista coletiva na última quarta-feira (25), mas o Real Madrid ainda está entalado na garganta do torcedor. Não será uma final fácil: especialmente no mata-mata, o clube espanhol provou ser uma equipe forjada para disputar a Liga dos Campeões. Saiu atrás nos três confrontos contra Paris Saint-Germain, Chelsea e Manchester City, e virou o placar em todos. A semifinal contra os Citizens foi ainda mais inacreditável, com o Real Madrid virando o jogo nos acréscimos do segundo tempo após estar atrás do placar até os 44 minutos. Benzema, principal candidato à Bola de Ouro, deu o golpe de misericórdia na prorrogação, de pênalti.

Para o torcedor do Liverpool, há as boas lembranças da final de 1981, quando os Reds levaram a melhor. A final de Kiev pode estar fresca na memória, mas Jürgen Klopp e seus comandados tem a chance de escrever um novo futuro. Não há oportunidade melhor para tal.

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