27/05/2022 às 17h45min - Atualizada em 27/05/2022 às 17h37min

Jadna Alana e a liberdade de ser inestimável

Banhada de carisma, talento e sensibilidade, a artista paraibana nos concede uma entrevista que mais parece uma roda de conversa entre amigos

Alice Vasconcelos, Diego Souto e Nathália Aguiar - Editado por Andrieli Torres
Foto: reprodução/redes sociais

Qual é a sua missão na Terra? Jadna, aos 24 anos, acha que veio ao mundo para escrever: não só histórias que entretêm um ou outro leitor interessado, mas também aquelas capazes de mudar o mundo. Com 6 livros publicados e mais de 31,1 mil seguidores no Instagram, ela não parece estar equivocada.

Natural de Campina Grande-PB e apaixonada pela arte, a paraibana nos envolve em mais uma de suas narrativas apaixonantes e divertidas. Nessa, porém, ela não pode se camuflar em um dos seus personagens! Agora, Jadna deixa de lado a escritora e entra como protagonista.

Na história da vida dela —  ou no pouco que ela nos deixou ter acesso —  há muitas reviravoltas, dores, alegrias e plot twists, como todo bom livro tem e por onde toda trajetória há de se passar. Além de escritora, compositora e cantora em ascensão, há também a Jadna irmã, amiga e filha, tão apaixonante quanto. Felizmente, podemos ter acesso às duas nesta entrevista. Não deixe de acompanhar:

1. Quando você começou a escrever? O que te motivou a isso? 

Quando nascemos artistas tudo nos puxa para aquilo, mesmo quando tentamos fugir. Comecei a escrever em 2014, mas não era algo que eu fazia porque percebia que gostava, e sim por incentivo da escola. Quando eu saí do ensino médio, passei para filosofia na UEPB, mas não consegui cursar. Daí  fiquei um ano sem fazer nada, foi quando comecei a ler mais do que o habitual. Foi nessa época que li a série “Os Instrumentos Mortais'', da Cassandra Clare, e percebi que opinava muito na história, pensando que se a autora tivesse feito de tal forma ou escolhido tal caminho, teria ficado melhor. Chegou a um ponto em que de tanto opinar no livro dos outros, decidi escrever o meu —  e realmente o fiz. Ainda assim, eu não pensava em ser escritora, só pensava que tinha colocado uma história “para fora” e ela era muito legal. Não vou dizer que foi por acaso, mas as coisas foram levando para se tornar o que é hoje. Nada disso foi planejado.

2. Ainda existe um olhar muito preconceituoso em relação aos livros nacionais? 
 

Com certeza. As pessoas pegam a literatura internacional e a endeusam como perfeita, mas é algo que já chega filtrado. Eles  — o mercado literário  — não vão publicar qualquer coisa que foi lançada no exterior e levar para outros lugares, são sempre livros já consagrados, best-sellers. Além disso, temos que levar em conta que é uma realidade totalmente diferente; aqui a gente não tem, por exemplo, a possibilidade de se formar em um curso superior totalmente voltado para escrita! Eu entrei em um curso de letras, tive que passar por uma licenciatura, dar aulas, apenas para saber mais da língua para poder aplicar na escrita. E nos Estados Unidos, não: eles têm a oportunidade de estudar apenas isso e de se preparar desde cedo para a arte. Então, é um contexto que não devia ser comparado em hipótese alguma.

3.
Como você lida com a baixa valorização do mercado editorial brasileiro e o grande número de livros nacionais pirateados?

 

Eu sempre brinquei com os meus leitores que se eu fosse famosa, de certa forma, não seria algo que me abalaria tanto. Não dizendo que sou a favor, mas a pirataria não atinge diretamente autores best-sellers. Quando chega no autor nacional chega a ser cruel, porque aquilo — a venda dos livros, físicos e em e-book — ajuda mesmo que minimamente. Muitas vezes eu cheguei no final do mês sem saber como ia pagar alguma conta e o dinheiro da Amazon me ajudou. E nós temos um contato com o leitor que os autores estrangeiros não têm! Temos o cuidado de mandar brindes, responder directs... Então, tem livro de qualidade no Brasil, disponibilizamos muitas vezes o e-book de graça, conversamos com os leitores e mesmo assim a galera não tem a noção, sabe? É triste quando coisas assim acontecem. Fico muito revoltada.

4. Em muitas publicações nas redes sociais você deixa claro que Para Onde Vão as Sombras é um livro pelo qual você tem muito carinho. Qual é o diferencial de POVS? Por que ele é tão especial?

Acredito que tudo o que escrevi antes de Para Onde Vão as Sombras era um experimento. Todos os meus livros antes dele eram escritos pela intuição, eu estava aprendendo a ser autora. O primeiro livro é algo que odeio, não suporto olhá-lo. Entendo que temos um processo de evolução, mas esse meu livro foi escrito por uma adolescente que estava se descobrindo. Depois dele vem O Retorno do Príncipe e logo após Riacho do Jerimum, que foi construído com Anacã, meu professor da faculdade; ele ia me guiando, falando o que precisava melhorar, ser repensado, enfim, ‘Riacho’ foi o auge: eu estava terminando o curso de letras, ele foi meu TCC, então, acho que foi a partir dele que fiquei pronta para fazer algo só. E então veio Para Onde Vão as Sombras, justamente para provar isso. É um livro que fala muito sobre o que eu acredito! Recentemente, também, tiveram vários momentos que vivi que deixam claro porque Para Onde Vão as Sombras é tão especial  — eu ia escrever a música do Axel e da Ananda com Arthur, um amigo meu que faleceu há alguns meses. Inclusive, quem lê POVS, percebe muito a perda, e eu nunca soube lidar com isso. Tem tudo de mim ali, todas as camadas da minha existência estão nesse livro.

5. Quais são suas influências como escritora? 

Eu era uma criança muito solitária, não tinha muitos amigos e foram os livros que me resgataram nesses momentos, então são várias pessoas que admiro na área. Eu acho que a Cassandra Clare me influencia muito, não só no ler, mas, caramba, eu comecei a escrever por causa dela! Outra escritora que me influenciou muito, mas que tenho até receio de falar em entrevistas é a J. K. Rowling. Eu comecei a acreditar que o meu sonho era possível a partir de Harry Potter, sabe? É muito doloroso hoje em dia dizer que ela não me representa mais, porque ela conseguiu nos deixar destroçados com tudo o que ela falou recentemente. Também sou apaixonada pela escrita da Sarah J. Mas, aprendi muito sobre construção de personagens com ela. E, por fim, uma das minhas autoras favoritas no momento, a V. E. Schwab. Nela, o que me toca mais é a parte sensível; ela não tem receio de mostrar a sensibilidade da vida e do quanto ela pode ser boa e ruim, uma das coisas que mais gosto de fazer. Na literatura nacional, Machado de Assis é minha maior influência.

6. Sua família sempre apoiou sua carreira?

No começo não, porque eles tinham muito medo. Quando fechei o contrato de 2 anos com a editora, eles ficaram “Caramba! E se eles pegarem seu livro e fizerem sacanagem?” Não era como se eles não quisessem que eu vivesse meus sonhos, mas sim nesse sentido de tomar cuidado. Tendo passado essa primeira parte do desconhecido e passarem a ver no que realmente eu estava entrando, foi só apoio. Minha mãe, por exemplo, não é uma leitora, mas leu todos os meus livros. Apesar disso, eles sempre quiseram que eu fosse para a carreira musical.

7. As Flores São Para os Mortos é uma música autoral sua que tem como plano de fundo o universo do seu livro. Como surgiu a ideia de juntar esses dois mundos?

Como eu já disse, a música sempre esteve lá, só abandonei no percurso porque a vida tem dessas. Quando pensei em lançar uma música autoral, decidi que tinha que ser relacionada aos livros, porque eu não tenho uma carreira fixa na música, então pensei que se eu lançasse algo relacionado aos livros podia puxar um pouco meu público literário, foi meio que estratégia para meus leitores serem também meus ouvintes. Também tentei escrever uma música para Para Onde Vão as Sombras, acho que fiz uns 8 rascunhos, mas quando escrevi As Flores São Para os Mortos eu só sentei e comecei a escrever — eu estava lavando o banheiro, cantarolando, e a letra toda veio na minha mente, foi natural, do coração. Quem leu o livro que inspirou a música sabe que ele ficou muito mais sensível e melancólico do que Para Onde Vão as Sombras. Os sentimentos que a protagonista teve durante o livro e as relações de perda que ele aborda estavam muito presentes em mim quando escrevi a música. No fim, a canção que fiz para as personagens também serviu para mim no futuro! Foi algo que me acolheu.

8. Sua música e seus livros, de certa forma, influenciam muitas pessoas. Como lida com a pressão não só de quem te acompanha, mas também com a que você coloca em si mesma?

Essa parte é bem complicada e talvez um compilado do que fez eu me afastar das redes sociais em 2021. Em 2020 eu tinha cerca de 12 mil seguidores, mas devido ao reels e memes literários as pessoas começaram a seguir demais e fiquei com quase 40 mil, daí  fiquei sem saber o que fazer. Antes não tinha essa preocupação, era só “Oi, bom dia! Tô aqui fazendo tal coisa”. Depois que começaram a chegar esses novos seguidores, fiquei muito preocupada com o que eu ia falar para toda essa gente e isso foi me deixando para baixo. Segundo minha psicóloga, eu estava segurando um cacto e ele estava me machucando e me enchendo de espinhos. E então conheci Arthur, e minha vida virou de ponta cabeça. Ele me mostrou que não tem que ser assim, e aos poucos comecei a melhorar; até que ele faleceu em outubro. Depois disso, só larguei o cacto e sumi, parei de postar, perdi seguidores. Mas eu precisava daquilo: a liberdade é algo inestimável e tudo aquilo que me prende, não me representa. Agora, se eu voltar a postar, vai ser o que eu realmente estou querendo dizer naquele dia, a foto que eu realmente vou querer postar naquele momento, seja ela uma foto da escritora, da cantora ou da pessoa.

9. Em algum momento você pensou em parar de escrever?

Em 2021. Foi a única vez na vida que pensei nisso e que cogitei essa possibilidade. Foi uma época que me tirou do eixo e que parei para me perguntar “até que ponto será que realmente devo continuar escrevendo, quando não é algo que me dá retorno?”, porque, sinceramente, o retorno é o feedback. Mas não penso mais em desistir. Mesmo que eu não ganhe com isso, sei que vai ficar uma história, assim como outros escritores que vieram antes de mim. Isso me dá força, me dá esperança para pensar “cara, eu vou continuar escrevendo, acho que essa é minha missão na Terra”.

10. Já vivenciou um bloqueio criativo? Como lida com eles?

Sempre tem. Apesar de estar agora em um processo mais lento, com o tempo aprendi que não adianta forçar! Escrever é técnica, mas 90% é estado de espírito. Quando tentamos fazer algo forçado ficamos loucos, mas quando relaxamos passamos a ver as coisas por outras perspectivas. A dica seria essa: faça o que gosta e no seu tempo.


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