19/08/2019 às 19h16min - Atualizada em 19/08/2019 às 19h16min

“Eu sou bonita! E vocês são feias! Pretas e feias, pretas retintas”

O Livro O Olho Mais Azul, de Toni Morrison, trata sobre a padronização da beleza em um Estados Unidos marcado pela segregação racial

Yorrana Maia - Editado por Socorro Moura

 

Chloe Anthony Wofford, imortalizada como Toni Morrison, publicou em 1970 o seu primeiro livro: O Olho Mais Azul. A trama é centralizada em Pecola Breedlove e em seu sonho de ter olhos azuis. O romance, ambientado no início dos anos 1940, é permeado pelos resquícios da Grande Depressão e a segregação racial nos Estados Unidos, e mostra como a padronização da beleza influencia socialmente na formação da identidade individual.

Pecola é uma menina introvertida e solitária, sofre maus tratos da mãe e abusos sexuais do pai, e é vista e tratada como feia por todos da cidade. Pensa que seus problemas só irão desaparecer com um par de olhos azuis, como os das meninas felizes e bonitas que aparecem nos filmes. A narradora, Claudia MacTeer, tenta entender essa fixação da menina pela nova cor dos olhos, mas é importante, antes de tudo, compreender o contexto histórico desse país.

A segregação racial surgiu logo após a Guerra Civil Americana (1861-1865) entre a União (Norte) e os Estados Confederados do Sul. Muitos cidadãos sulistas não concordavam com a ideia de possuir os mesmos direitos e frequentar os mesmos espaços que os negros recém libertos por Abraham Lincoln, após a vitória da União. Surge, então, as primeiras políticas segregacionistas e as primeiras seitas, como a Ku Klux Klan (1865). Contudo, essas leis só ganharam força em 1875 no Tennesse, com a promulgação da primeira Lei Jim Crow.

O termo “Jim Crow” refere-se a música popular de origem afro-americana que foi apropriada e popularizada pelo ator Thomas D. Rice, que a cantava e dançava em blackface (tipo de apresentação em que o ator branco pinta sua pele com carvão para caracterizar os negros de forma exagerada e preconceituosa). Devido ao sucesso da música e apresentação, “jim crow” passou a ser usado como forma pejorativa de se referir à afrodescendentes e, no final do século XIX, foi o termo utilizado para nomear as dezenas de leis que impediram que os negros desfrutassem de seus direitos até as décadas de 1950 e 1960.

Essas leis baseavam-se no princípio “separados, mas iguais”, estabelecendo o afastamento entre negros e brancos de restaurantes, transportes públicos, hotéis, escolas, entre outros lugares. O filme Histórias Cruzadas (The Help), de Tate Taylor, retrata essa segregação com donas de casas brancas e suas serviçais negras, que são obrigadas a usarem banheiros do lado de fora das casas, mesmo trabalhando há anos para a família.

Mas, o que isso tem a haver com Pecola? Simplesmente, tudo. Pecola é uma menina que não se vê nas telas de cinema, nas vitrines das lojas, nos anúncios. Ela não pode entrar em restaurantes, ou se sentar na frente do ônibus. A música mais popular que se refere a ela é uma sátira caricaturesca. E como ela não aparece, as pessoas não a veem, ou quando, por acaso, se deparam com ela andando na rua, se surpreendem com sua negritude e a acham diferente, feia.

Ao longo da narrativa, percebe-se que a própria Pecola, bem como seus pais (também negros), interioriza e concorda com essa feiura.

“A gente olhava para eles e ficava se perguntando por que eram tão feios; olhava com atenção e não conseguia encontrar a fonte. Depois percebia que ela vinha da convicção, da convicção deles” (trecho do livro O Olho Mais Azul).

Essa interiorização da feiura levou a uma segmentação entre os próprios negros: quanto mais clara a pele, mais bonito era. No romance, há um momento em que uma novata na escola, uma “mulata claríssima” com olhos verdes, discute com Pecola, Claudia e a sua irmã, Frieda, e se vira para elas e berra: “Eu sou bonita! E vocês são feias! Pretas e feias, pretas retintas. Eu sou bonita!”. Todas as meninas estudam na mesma escola (exclusiva para negros), mas a pele mais clara de uma a coloca em um status mais elevado do que as demais. A “mulata claríssima” pode acender socialmente e ser aceita, enquanto as demais permanecerão sendo vistas como criaturas grotescas.

Essa caracterização do negro como ser abaixo do padrão aceitável de beleza influencia o indivíduo negro, principalmente durante a infância. O que o leva a agir e a pensar conforme os moldes opressores que lhe são impostos.

“Era como se algum misterioso patrão onisciente tivesse dado a cada um deles uma capa de feiura para usar e eles a tivessem aceitado sem fazer perguntas. O patrão dissera: ‘Vocês são feios’. Eles tinham olhado ao redor e não viram nada para contradizer a afirmação; na verdade, viram sua confirmação em cada cartaz de rua, cada filme, cada olhar. ‘Sim’, disseram. ‘O senhor tem razão’” (trecho do livro O Olho Mais Azul).

Com o movimento negro ao longo da história, homens e mulheres romperam esse obsoleto padrão estético e começaram a cultuar a sua própria beleza. Contudo, obras como a de Toni Morrison são imprescindíveis para um melhor entendimento sobre como os padrões estéticos influenciam na sociedade, o que contribui para a compreensão do indivíduo de que a beleza não é algo ditado por uma minoria dominante, mas a aceitação da sua própria imagem.  

Yorrana Maia

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