14/09/2019 às 16h52min - Atualizada em 14/09/2019 às 16h52min

O romântico vilão

Yorrana Maia - Millena Brito
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Imagem reprodução: Pixebay

O protagonista escalou uma roda gigante, se pendurou em frente de onde Allie e seu acompanhante estavam e ameaçou se soltar caso ela se recusasse a sair com ele. Essa cena do filme Diário de Uma Paixão marcou o imaginário da pequena Ana, que a viu pela primeira vez durante a pré-adolescência, como a representação do homem “ideal”. Forte, valente, bonito e perseverante, o típico príncipe encantado.


Cena do filme Diário De Uma Paixão (2004) em que Noah (Ryan Gosling) se pendura na roda gigante e ameça se soltar se Allie (Rachel McAdams) não aceitar sair com ele.

Era costume na casa da Ana alugar vários filmes na locadora (quando ainda existia) e ficar o final de semana todo vendo comédias românticas ou romances. Sua mãe estourava a pipoca e as três- Ana, sua irmã mais nova e sua mãe- se amontoavam no sofá e suspiravam de desejo ao ver como o galã era perdidamente apaixonado pela protagonista. Suspiravam por uma história de amor semelhante.

Ana- uma representação de várias meninas e mulheres- cresceu sobre essa influência dos filmes hollywoodianos. Na adolescência sonhava que um dia um cavaleiro viria cavalgando para lhe resgatar da sua vida sem graça e nada romântica. Talvez, não literalmente cavalgando, mas sonhar com um Christian Grey nunca era demais, pelo menos não para a jovem. Na sua cabeça o relacionamento afetivo ideal era aquele retratado nos filmes que cresceu assistindo.

A relação entre Noah e Allie (Diário de Uma Paixão) e entre Christian e Anastasia (Cinquenta Tons de Cinza) são exemplos para Ana do que um relacionamento deve ser. A virginal mulher conhece um bonito homem valente e os dois ficam perdidos de amor. Claro, essa explicação do relacionamento afetivo representado no cinema é superficial, mas é o suficiente para esboçar os estereótipos presentes. A mulher é sempre jovem, bonita, inocente e quase sempre virgem. O homem, por sua vez, um pouco mais experiente, forte, decidido, capaz de se arriscar para provar o seu amor. Com isso chega-se a um ponto crucial.


Cena do filme Cinquenta Tons de Cinza (2015) em que Christian Grey (Jamie Dornan) demostra seu controle e superioridade sobre Anastasia (Dakota Johnson)

Nota-se, que o romantismo do cinema e da literatura (Diário De Uma Paixão e Cinquenta Tons de Cinza são obras literárias adaptadas para o cinema, além deles temos os clássicos Lolita, Dom Casmurro, dentre outros) esconde sobre beijos, carícias e frases bem feitas um perigo que assola a sociedade há décadas: o relacionamento abusivo. Esse relacionamento é caracterizado pelo excesso de poder de uma pessoa sobre a outra dentro de uma relação de afeto, onde um parceiro enciumado tenta controlar e dominar o outro, isolando-o do mundo.

Os estereótipos da mulher virgem e inocente ajudam a reafirmar a posição submissa do sexo feminino na sociedade patriarcal. Assim, nas “histórias de amor ideal” cabe ao homem o papel dominante, muitas vezes retratado como possessivo e ciumento, porém de forma sútil. A possessão e o ciúmes dos protagonistas são retratadas de forma tão romântica que passam a ser desejadas pelo público feminino. Eles se tornam características do amor. Veja o caso de Christian Grey que consegue afastar Anastasia de seus amigos ou de Noah que persegue Allie em todos os lugares até que ela aceite sair com ele, tudo demostrado de uma forma tão desejável que fez os dois filmes um sucesso.

Romantizar relacionamentos abusivos coloca em risco a vida de centenas de mulheres. Mulheres que, por influência do imaginário que construíram com base em filmes e livros, ignoram ou não sabem reconhecer os sinais de um abusador. São mulheres que cresceram sonhando com uma história de amor e acabam morrendo pelas suas próprias expectativas.
Em um país como o Brasil, que possui a quinta maior taxa de feminicídio do mundo- segundo dados de 2015 da Organização Mundial da Saúde- a linha entre amor e abuso deve ser bem explícita. Somente neste ano ocorreram 344 feminicídios no país, 207 consumados e 137 tentativas e todos cometidos pelos companheiro ou ex-companheiro das vítimas. A média nacional é de 5,31 casos por dia, um a cada 4 horas e 31 minutos. Associar a possessão e o ciúmes ao amor é mortal no Brasil.

De volta a Ana, percebe-se agora que a sua admiração pela coragem de Noah ao escalar a roda gigante é um tanto quanto preocupante. A perseguição de Noah fez com que Ana associasse a insistência de um rapaz em querer sair com ela como uma demonstração de amor. E o ciúmes foi muitas vezes entendido por ela da mesma forma.

Ela, desse modo, não percebeu o perigo quando seu namorado começou a estar 24 horas por dia ao seu lado, ou quando pediu que não fosse em certos lugares ou usasse certas roupas. Ana também ignorou quando ele a afastou da sua família e amigos. Ao receber o primeiro soco, ela o perdoou, pois ele caiu de joelhos se desculpando aos prantos, dizendo que a amava e que ficava louco ao pensar que poderia perdê-la. Os socos e pontapés seguintes a fizeram reconhecer a posição em que estava e quando pensou em fugir... Era tarde demais.


Referências:

ROMANTIZAÇÃO DO RELACIONAMENTO ABUSIVO, UMA VIOLÊNCIA SILENCIOSA: a Inficácia da Lei Maria da Penha. MOANA, Francisca et al. 2016. Disponível em:
https://flucianofeijao.com.br/novo/wp-content/uploads/2019/03/ROMANTIZACAO_DO_RELACIONAMENTO_ABUSIVO_UMA_VIOLENCIA_SILENCIOSA_A_INEFICACIA_DA_LEI_MARIA_DA_PENHA.pdf

O GLOBO. Mais de 200 feminicídios ocorreram no país em 2019, segundo pesquisador. Disponível em:
<https://oglobo.globo.com/sociedade/mais-de-200-feminicidios-ocorreram-no-pais-em-2019-segundo-pesquisador-23505351>
 
 
 


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