14/10/2019 às 12h59min - Atualizada em 14/10/2019 às 12h59min

O dia em que Maria aprendeu a dizer "não"

Juliana Barbosa - Editado por: Leonardo Benedito
Pixabay
Ainda deitada em sua cama, Maria sente os raios de sol sob o seu rosto. Aos poucos sua mente vai tomando consciência de que já é de manhã.

Segunda-feira. A semana está apenas começando, o que significa que há muita coisa para ser feita. Apesar disso, Maria não se anima nem um pouco para sair da cama.

Está intrigada consigo mesma, pois há vários dias vem sentindo uma sensação estranha em seu peito. Uma inquietação que a incomoda, porém ainda não descobriu de onde vem.

Começa a refletir sobre sua vida para tentar entender o conflito de sensações dentro de si. Pensa em si mesma e nos caminhos que sua vida tem seguido.

Com vinte e dois anos, um metro e sessenta e cinco de altura, cabelos castanhos e cacheados, beleza não era o problema. Não que isso importe, já que considera os cuidados excessivos com a aparência uma futilidade. Mora com os pais, trabalha em uma livraria localizada na avenida principal de Palmas – TO.

Embora sempre tenha estudado bastante, ainda não decidiu qual carreira seguir, que é motivo suficiente para sua mãe não sair do seu pé. Seus pais são advogados bem conceituados na cidade. Maria nunca passou necessidades ou apertos financeiros, mas sempre foi independente, tendo começado a trabalhar aos dezesseis anos de idade, e desde então, busca se manter com o que ganha do seu trabalho.  

Não tem namorado e também não faz muita questão no momento. Embora pareça uma ideia ultrapassada em pleno século XXI, quer construir uma família e por isso não se envolve em relacionamentos relâmpagos. Tem amigos próximos e alguns que estão mais para meros conhecidos.

Enquanto divaga na sua mente, tenta entender o que a faz se sentir tão frustrada. Ao fundo, escuta a voz de sua mãe: “Maria você pode pagar uns boletos para mim? Por causa do jantar do final de semana, eu não tive tempo”.

Maria responde que sim. Já não questiona e nem nega mais favores para sua mãe. Afinal, já está acostumada a fazer favores para todos que conhece. Pelo menos sua mãe lembrou de pedir cedo.

Favores. Não há nada de errado em fazer favores, pensa consigo mesma. É um ato de generosidade se pensar bem. De repente, algo pulsa dentro de si. Ainda divagando em sua mente, se lembra da semana passada quando seu amigo Carlos lhe pediu para que levasse o seu carro até a oficina, enquanto ele passaria o final de semana em um acampamento.  

Nada demais. Quer dizer, isso se sua amiga Michele não tivesse lhe pedido para Maria cuidar de sua irmãzinha para que ela fosse a um festival de arte, pois seus pais estavam viajando. Ainda teve sua mãe que lhe pediu para fazer faxina em casa no sábado, para que ela recebesse alguns amigos do trabalho para um jantar.

No final das contas, tinha ficado satisfeita em ajudar seus amigos a se divertirem um pouco. Apesar de sua amiga ter buscado sua irmãzinha apenas no domingo, Maria não ficou chateada por não conseguir terminar a sua série de livros já atrasada por falta de tempo.  

Já estava acostumada a fazer favores. Raramente dizia não. Na verdade, não conseguia se lembrar de ter dito não alguma vez.

E foi neste momento que o coração pulsou mais forte. Acabará de entender o porquê de estar tão incomodada. Não era o fato de estar fazendo favores para os outros, e sim de não estar cuidando de si mesma.

Teria gostado se ir assistir festival de arte ou passar o final de semana em um acampamento. Quem sabe assistir a um bom filme é comer pizza com os amigos.

Porquê não fazia essas coisas?  

Não era por falta de convite, pois na quinta-feira, sua amiga Júlia havia lhe convidado para assistir ao show de uma banda no sábado. Infelizmente, Maria disse não, pois estaria de babá nesse dia.

Os pensamentos tumultuavam sua mente. Não sabia como mudar isso. Mas sabia que deveria começar a fazer as coisas diferentes a partir de agora. Não deixaria de ajudar seus amigos, mas teria que aprender a se colocar em primeiro lugar de vez em quando.

Decidida a mudar, pega o celular e manda uma mensagem para sua amiga Júlia lhe convidando para sair no final de semana. Não demora muito e sua amiga responde que sim.

Um sentimento então desconhecido toma conta de si. Estava feliz. Seu celular apita. Recebeu uma mensagem. Era Michele querendo saber se poderia cuidar de sua irmãzinha no final de semana.

Maria não consegue responder de imediato. Percebe que dizer não é mais difícil do que pensava. Respira fundo e então responde a Michele que já tem planos para o final de semana. Espera ansiosa pela resposta de sua amiga. Ela visualizou, mas não respondeu.

Maria sente uma aflição, um aperto no peito. Não vai ser fácil mudar velhos hábitos, e não vai ser fácil sentir que está decepcionando as pessoas que ama.

Apesar de tudo, se sente animada. Pode até parecer algo pequeno, mas o fato de ter tido a coragem para tomar uma decisão, fez muita diferença para si mesma.

Começa a pensar o que mais pode mudar em si mesma. Talvez mudar de emprego ou escolher uma profissão, estudar ou viajar. São muitas as possibilidades.

Porém, isso vai ter que esperar porque se dá conta de que vai se atrasar para o trabalho. Sua mente está cheia de ideias que quer colocar em prática. Para isso não  sente culpa em dizer sim.

Então diz para si mesma: “Relaxa. Hoje é segunda. Amanhã você pensa mais sobre isso”. Se sentindo plena, se levanta com a sensação de que as coisas serão diferentes a partir de agora.

Dizer não para algo que lhe incomoda, não quer dizer que seja uma atitude, e sim que isso pode não fazer bem a si mesmo. Isso vale para todas as áreas de nossa vida. Podemos sim ajudar o próximo, desde que não esqueçamos de nós mesmos.


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