14/10/2019 às 15h22min - Atualizada em 14/10/2019 às 15h22min

Dom Casmurro, de Machado de Assis

Publicado em 1899, o livro é debatido até hoje

Alessandra Araújo - Editado por: Leonardo Benedito
Alessandra Araújo
Um impetuoso vazio é o que sentimos ao terminar a leitura de Dom Casmurro. Mas não se espante. O vazio não advém da dúvida insatisfatória que se perpetua há tantos anos, se Capitu teria ou não traído seu amado Bentinho. O vazio está em reconhecer que a história acabou ali, que nada mais poderá ser lido sobre aqueles encantadores personagens, sem que sejam puramente ideias de pessoas que não as do próprio Machado de Assis.

Não é que ninguém tenha mais nada a dizer sobre a obra que possa ter o mínimo de criatividade. Mas o sentimento é de que naquela história tudo o que havia de ser contado, já foi dito. E apenas ela é suficiente.

No enredo, Bento Santiago, homem de idade, possui o projeto de contar sua história escrevendo um livro a fim de unir, como ele mesmo conta, as duas pontas da sua vida: da mocidade quando o chamavam Bentinho; até a atualidade, enquanto Dom Casmurro, pessoa que cochila ao ouvir um amigo contanto seus poemas mais íntimos; ora solitário, ora amargo.

Quando moço, Bento morou com sua mãe e alguns poucos parentes na rua de Matacavalos. Garoto amável e educado, cuidava sempre em obedecer a mãe a quem tanto amava e a escutar com cuidado os conselhos que seus parentes lhe davam. Mas eis que um dia, ao ouvir de soslaio uma conversa de sua mãe, escutou o inesperado plano de Dona Glória em mandá-lo para um seminário para que virasse padre. Promessa de sua mãe a Deus, por ter atendido suas preces concedendo o nascimento de um filho
saudável.

Esse fato seria o começo do desenrolar dos problemas de Bento, que possuía o coração apaixonado cegamente pela vizinha, Capitu. E tendo com ela confidenciado tamanho drama, cuidaram os dois em imediatamente elaborar planos para que Bento pudesse se livrar do destino indesejado a fim de poderem ficar juntos. Mas seus planos fracassaram. Bento foi para o seminário, conseguindo levar consigo somente a doce promessa de que se casaria um dia com Capitu.

Se trata da história de almas apaixonadas que se encontraram e se perderam. Se trata sobretudo das escolhas que fazemos e dos caminhos aos quais elas nos fazem percorrer. Sobre o que fazemos e o que fazem de nós. Existe na trama uma conveniente intimidade com quem lê, posto que o narrador, o Bento, conta a história de sua vida como quem conversa diretamente com o leitor.

Não tão somente, a obra de Machado de Assis revela mais do que uma história regada a ciúmes e paixão. Ela estreita o que se entende por certo e errado, nos infiltrando uma certa dúvida quanto a perspectiva de Bento, ao mesmo tempo que nos comovendo também com ela. A maneira como este descreve Capitu foi sempre tocante demais, porque ela, com seus ditos "olhos de ressaca", provocou nele as mais distintas sensações; fosse admiração por sua esperteza, amor por seu coração ou os ciúmes por seus traços cheios e formosos.

Ler Dom Casmurro é pensar o tempo inteiro em como as palavras foram tão maravilhosamente pensadas uma após a outra, gerando essa construção tão significativa e prazerosa de se conhecer; que mesmo tendo sido escrita há 120 anos, se mantém em sua forma atemporal. 

 
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