22/10/2019 às 17h04min - Atualizada em 22/10/2019 às 17h04min

GATILHOS MENTAIS: Psicólogas explicam como as redes sociais impactam na saúde mental

Profissionais alertam como falar do suicídio sem promovê-lo

Thais Dias
Google, Ministério da Saúde
Thais Dias

O tema é delicado e apresenta-se como uma onda devastadora. Mas, é necessário falar sobre ele: segundo dados do Ministério da Saúde cerca de 800 mil pessoas comentem suicídio a cada ano no Brasil.

Apesar de tabu, o assunto é cada vez mais atual e não é mais possível - nem razoável - escondê-lo sob o tapete. De acordo com o Google, as buscas relacionadas à palavra suicídio aumentaram 100% em comparação com o mesmo período de 2018.

A imprensa precisa fazer o  "mea culpa" - há uma regra não escrita que diz que os veículos de comunicação não devem divulgar casos de suicídio, justamente para evitar que se incentive imitações, o chamado "efeito Werther" - referência a um livro do século 18 que desencadeou uma onda de suicídios na Europa.

Dessa forma, a psicóloga clínica, Janaína Catolino, alerta sobre os riscos de abordar o tema de forma equivocada: "falar sobre casos de suicídio de maneira inadequada pode ter um efeito tão devastador quanto não falar", disse ela.

Mas como tratar o tema sem incentivá-lo?

"A maioria das pessoas, cerca de 70% delas, dá algum tipo de sinal de que pensa em tirar a própria vida, mas muitas vezes os sinais são banalizados. Frases como 'a vida não vale mais a pena'; 'melhor morrer'; 'queria desaparecer' são sinais de alerta. É um pedido de ajuda comum, pois todo suicida tem uma ambivalência: ele quer morrer porque quer fugir dos problemas, mas também quer ajuda", explicou a psicóloga.

Segundo Janaína falar sobre doenças mentais ainda é tabu, mas ao contrário do que se pensa, é necessário falar, é necessário se informar sobre os sintomas, sobre as maneiras de prevenção, enfrentar a situação ao invés de fingir que está tudo bem. Os números aumentam a cada dia e isso é uma prova que a falta de orientação e conscientização não são tão efetivos quanto se pensa. O suicídio necessita ser visto como uma doença e um problema de saúde pública.

GATILHOS

Impactos negativos em quem lê, ouve ou assiste a reproduções de violência, sexo ou morte, desencadeando fortes processos emocionais complexos, são chamados de "gatilhos" ou "Trigger warning" (aviso de gatilho, em português). Para a psicóloga relatar casos de suicídio acaba que trazendo uma confusão entre falar ou não. Isso acontece por conta da irresponsabilidade que alguns veículos de comunicação tratam o assunto. "É comum vermos o suicídio sendo noticiado com o objetivo de angariar audiência, com sensacionalismo, ao invés de ser noticiado com objetivo de promover conscientização e prevenção. A notícia não deve conter informações sobre a vítima, o método escolhido e os motivos", alertou Janaina.

 

Redes Sociais

Para a psicóloga Caroline Souza Ferraz, usar as redes sociais como "mural" para desabafo não é uma boa ideia, seja para quem relata ou lê. "Muitas vezes, na falta de conversar com um amigo ou procurar tratamento psicológico, o usuário faz seu desabafo no espaço que tem: seu perfil nas redes sociais", afirma.

Caroline avalia que os padrões da mídia ao relatar casos de suicídio também não contribuem para resolver esse problema social. "Só falamos em suicídio quando um famoso se mata. Não se pode glamorizar um suicídio, transformar o suicida em herói. Um suicídio é um ato de desespero", diz ela.

Uma cena de suicídio pode causar muitos impactos na vida de um jovem por meio do gatilho, especialmente quando esses jovens estão fragilizados, angustiados e perdidos nas questões cotidianas, sem apoio e orientação, desconectados com a vida, frisa a psicóloga.

Para Caroline, como o suicídio normalmente está associado a múltiplos fatores, físicos, sociais e de personalidade, uma cena só será um fator desencadeante caso a pessoa apresente um quadro de alteração de comportamento, principalmente a depressão. "A atenção básica de saúde deveria estar preparada para identificar sinais de alerta, ter familiaridade com o assunto e encaminhar o paciente para o serviço especializado" disse ela.

Quem convive com essas pessoas, como colegas de trabalho, parentes e amigos, são os que mais podem perceber os sinais de que alguém pensa em desistir da própria vida. "A pessoa mudou o comportamento, ficou mais triste, mais desanimado. São vários os indícios de reações depressivas ou quadros depressivos de maior severidade, que podem levar ao suicídio", disse a psicóloga.

Ela aconselha que quem perceber esses sinais dê atenção, se disponha a ouvir e sugerir acompanhamento especializado, caso necessário.

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