21/12/2021 às 00h00min - Atualizada em 21/12/2021 às 00h01min

Por que você (ainda) assiste Pornô? (2°)

Entenda o que homens pensam sobre o assunto

Bruna Villela - Editado por Júlio Sousa
Banco de Imagens/Unsplash: @charlesdeluvio

Percepções

O microempresário Lucas* teve seu primeiro contato com pornografia descobrindo sua sexualidade, ainda pré-adolescente, “pesquisando ‘homens nus’ no computador com internet discada do meu avô. Me lembro até hoje do site que descobri, se chamava ‘TemaGay’ e existe até hoje, claro que super desatualizado. Na época eram só imagens que carregavam de cima para baixo em eternos 20 segundos”. Ao longo de sua vida, se reconhecendo como um homem gay percebeu que dificilmente encontraria “o manual de uso do meu corpo” em espaços tradicionais.

“Foi trocando figurinha com outros amigos gays e parceiros sexuais que pude entender mais sobre meu sexo e como a pornografia nada mais é que uma ilusão erótica”

Vindo de uma criação bastante religiosa o diálogo envolvendo sexo, gênero, e sexualidade não partiu da família ou da escola, mas da igreja: “o termo era ‘prazeres da carne’ e como nós tinhamos que lutar contra eles”, conta Lucas. Em sua opinião, a ideia de culpa e pecado é o que mais prejudica a relação com o sexo e pode resultar até na intenção oposta: “Jovens questionavam o fato de começarem a ficar excitados e sentirem desejos; os conselhos eram para que, com hormônios à flor da pele, ignorassem seus impulsos naturais e negassem a carne. A igreja sabe bem criar tarados sexuais”, brinca. 

Pensando nas dificuldades que a pornografia traz, ele diz que gastava muito de seu tempo procurando os materiais para aliviar a tensão do estresse do dia a dia: “abria 15 abas de vídeos e incansavelmente buscava o vídeo perfeito pra me satisfazer”. Após o ápice da masturbação, as sensações mudavam, pois sentia-se cansado e desanimado: “como se minha energia vital tivesse acabado”. O prejuízo se dava principalmente na rotina do trabalho, em que precisava estar disposto. 

Me causava muito sono e fadiga, me deixando perigosamente vulnerável para dirigir e manter a atenção nas tarefas”

Lucas diz que conseguiu parar de consumir ponô principalmete pela falta de tempo, e hoje percebe que mesmo usando o estímulo visual da pornografia “acabava por me realizar com lembranças das minhas próprias relações sexuais”. Atualmente ele não tem o hábito de falar sobre o tema com pessoas próximas, nem mesmo com seu namorado, uma vez que não é mais um problema pessoal, mas declara que é aberto para tratar do assunto em trocas de conversa, principalmente por acreditar que “troca de experiências que nos ajudam a entender o que é vício e o que é saudável”.

Já o estudante Rafael* conta que sua relação com a pornografia é para estimular visualmente em “alguns processos de prazer e satisfação próprios” em momentos que está só e sem criatividade. O estudante relata nunca ter recebido orientação familiar ou escolar sobre o tema, tendo seu primeiro contato no começo da puberdade através de colegas, mesmo não tendo interesse inicialmente. 

 

Apesar da falta de diálogo com responsáveis, Rafael conversa abertamente sobre o assunto, sem tabus “para falar sobre qualquer coisa no âmbito sexual”. Ele também acredita que a prática não o prejudica em "absolutamente nada”, pois não tem necessidade de consumir e acrescenta que não costuma assistir filmes adultos de produtoras “que mostram todo aquele cenário que não é realista”, preferindo conteúdos amadores. 

 

*Nomes fictícios para preservar a identidade da fonte

 

Para além da Superação

 

A motivação de Gregory Azevedo em produzir conteúdo nas mídias sociais surgiu de uma frase que sempre ouvia e que o incomoda até hoje: “homem não presta”. E compartilha que ele mesmo não se sentia incluído na classificação: "A primeira reação é ‘nem todos os homens'". Após diálogos em sua vida privada, entendeu questões cruciais do tema, e sendo pesquisador (alguém que tenta entender o porquê dos porquês), passou a buscar informações sobre a masculinidade. Outros tópicos também chamam sua atenção, como os homens sentirem a necessidade de provar sua sexualidade ou ainda: “O medo que o homem tem de ver a parte íntima de outro homem”. 

"A gente emburreceu: a frase 'Tudo é para comer mulher' revela um comportamento animalesco por parte dos homens até hoje. Acabamos vivendo em prol do instinto de caça culturalmente aceito". 

      Atualmente, com sua conta na plataforma do Instagram, conta que uma das melhores sensações é acompanhar as histórias de mudanças dos seguidores. Também menciona a intenção de criar uma comunidade de escuta aos homens, com a presença de profissionais psicólogos para ampará-los, em uma proposta mais acessível financeiramente. Sobre os planos futuros, o produtor de conteúdo diz que: “Tudo foi planejado, mas não esperava acontecer nessa altura do campeonato”, e junto ao crescimento perante um grande público, surgem fragilidades. 

 

 

Arquivo Pessoal/Divulgação: Gregory Azevedo

 “Se você (homem cis hétero) só pensa em sexo, você vê a mulher como objeto sexual somente. Se não, vê como a que cuida da casa, a que marca médico, etc. Ou seja, todas as mulheres são objetificadas”.

Não é comum reconhecermos um homem negro enquanto autoridade e frente à esta conjuntura, Gregory procura compartilhar seus erros e reforçar que é "um cara normal, não um príncipe encantado ou homão da porra". E salienta que essa é a forma que encontrou para se proteger: "Meu grande medo é errar e tudo que já falei ser reduzido a nada". Se tratando do diálogo a respeito da masculinidade fora das redes online, o entrevistado aponta que "É sempre complicado entrar nesses assuntos com pessoas próximas", pois ao mesmo tempo que sabem de seu passado, acabam chamando-o para conversar quando passam por alguma situação complicada envolvendo a temática da masculinidade. 

"Tudo que eu falo não foi algo que aconteceu ontem, teve toda uma evolução. Então, coexistem resistência e confiança em alguém que expõe já ter passado por todos esses problemas"

 

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