04/12/2019 às 17h03min - Atualizada em 04/12/2019 às 17h03min

Você já ouviu falar de Oscar Wilde?

Autor de "O Príncipe Feliz" e "O Gigante Egoísta" sofreu com o preconceito de sua época

Juliana Barbosa - Editado por Socorro Moura
Revoly
Se você nunca ouviu uma história quando criança que começasse com "era uma vez" ou "há muito tempo atrás", então com certeza algo deu errado no decorrer de sua infância. As gerações que vieram até meados de 2005 puderam experimentar sentar-se em rodas de conversa para ouvir histórias dos contos clássicos ou de contos de fadas, seja nas escolas ou em casa por meio dos livros infantis.  

Os mais populares autores desses contos foram Hans Christian Anderson - com histórias como da “Pequena Sereia” - os Irmãos Grim - com os clássicos dos contos de fadas como “A Bela Adormecida” e “A Branca de Neve” - e Charles Perralt - com o conto do “Gato de Botas” e o “Barba Azul” - dentre outros. Esses autores escreveram diversas histórias que até hoje fazem parte da cultura popular. Contudo, existem outros autores que escreveram diversos contos que merecem a devida atenção. Esse é o caso de Oscar Wilde.  

Oscar Wilde (1854-1900) foi um importante escritor irlandês, que escreveu novelas, poesias, contos infantis e dramas e era um mestre em criar frases irônicas e sarcásticas. Além de suas obras incríveis, como o romance “O Retrato de Dorian Gray”, foi alvo de diversas polêmicas. Em 1895, Wilde foi acusado pelo Marquês de Queenberry de ter um caso amoroso com seu filho Lord Alfred Douglas. Apesar de tentar se defender das difamações, Wilde foi julgado e condenado a dois anos de prisão por atentado ao pudor. 

O escritor foi a falência por realizar diversas petições de clemência junto ao tribunal que não obtiveram resultados. Wilde foi obrigado a ver seus livros serem retirados das bancas e suas peças saírem de cartaz.  Infelizmente, existem diversas situações como a de Oscar Wilde em diversos contextos e diversas épocas. Os conceitos morais de sua época acabaram por destruí-lo. A incompreensão das pessoas e os tabus de seu tempo não levaram em conta seu talento de escritor: só conseguiam enxergar uma ameaça aos bons costumes. 

Lembro-me de sentar nas almofadas de minha escola do ensino fundamental para ler o livro “Histórias de Fadas” que reunia histórias como “O Príncipe Feliz”, “O Gigante Egoísta” (modéstia à parte, minhas preferidas), “O Rouxinol e a Rosa”, “O Aniversário da Infanta” e “O Amigo Dedicado”. Perdia - me em minha imaginação enquanto lia esses contos e confesso que meu coração se apertava todas as vezes que relia o Gigante Egoísta e o Príncipe Feliz que abordavam temas como solidão, generosidade e complacência. 

Neste trecho da história do Gigante Egoísta, Oscar Wilde busca demonstrar que é possível se arrepender de erros passados e dar-se uma nova chance de recomeçar:  

 
“Segurando uma lágrima, o Gigante decidiu reparar seu erro. Ele acreditava que errar era algo normal e que consertar o erro era um dever dos Gigantes. Seu plano era simples, sair da casa, atravessar o jardim, colocar o garoto em cima da árvore e depois derrubar o muro. Ele tinha sido egoísta com as crianças e a primavera tinha-lhe dado uma lição sobre o egoísmo. Estava na hora de fazer tudo voltar ao normal.” 

Já neste trecho de O Príncipe Feliz Wilde procure mostrar quão inútil é uma vida regalada de coisas materiais, mas sem sentimento verdadeiro de empatia pelas outras pessoas. 
 
“Quando eu era vivo e meu coração era humano, nunca derramei uma só lágrima. Na verdade, nem sabia o que era isso. Eu morava no Palácio de SansSouci, e lá não era permitida a entrada da Tristeza. Eu brincava o dia inteiro no jardim junto com meus amigos e, à noite, participava dos bailes dentro do salão principal. Está entendendo? — perguntou a estátua. 
— Mais ou menos. E por que chora agora? — perguntou a Andorinha. 
— Vou explicar. Em volta do jardim do Palácio tinha um muro bem alto, mas eu nunca me preocupei em saber o que havia do lado de fora. Tudo à minha volta era tão belo, tão maravilhoso... Eu tinha CORTESÃOS para me servir. Eles me chamavam de Príncipe Feliz, e acho que eu era mesmo feliz, se a Felicidade pode ser SINÔNIMO de prazer. Vivi e morri dessa maneira, mas, depois de morto, criaram esta estátua para mim, e a colocaram bem no topo desta colina. Daqui posso enxergar o quanto minha cidade é feia e MISERÁVEL. Muita gente sofre e passa necessidade.” 

Oscar Wilde foi capaz de mostrar através de suas histórias que as amizades são bens preciosos. Lamentavelmente, seu talento foi subjugado pelos ideais de sua época

Existe uma pergunta que não me sai da cabeça: será que o fato das histórias de Oscar Wilde serem tão pouco conhecidas pelo público infantojuvenil se dá em razão das polêmicas que envolveram seu nome? Se essa for a razão, então é terrivelmente desanimador saber que histórias com grandes ensinamentos estão sendo deixadas no canto de prateleiras em razão de conceitos tão ultrapassados

É importante instigar a imaginação e também inspirar o gosto pela escrita e leitura nas crianças e jovens. Porém, isso não será possível se o público em questão nem ao menos faz ideia de qual rica a literatura pode ser. Deixo para vossa reflexão algumas das frases icônicas deste autor: 

“A cada bela impressão que causamos, conquistamos um inimigo. Para ser popular é indispensável ser medíocre.”  

“A vida é muito importante para ser levada a sério.”  

“O descontentamento é o primeiro passo na evolução de um homem ou de uma nação.” 
 
 
 
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