04/08/2020 às 09h01min - Atualizada em 04/08/2020 às 08h54min

''Acho que a Seleção poderia ter outro técnico'', afirma jornalista Thiago Uberreich

Âncora da Rádio Jovem Pan concedeu entrevista ao Lab Dicas de Jornalismo

Matheus Aquino - labdicasjornalismo.com
Na imagem, Thiago Uberreich, entrevistado pelo Lab Dicas de Jornalismo. Foto: Reprodução/RadioAmantes
Lab Dicas de Jornalismo entrevistou, nesta segunda-feira (3), o jornalista Thiago Uberreich, âncora do Jornal da Manhã, da Rádio Jovem Pan, e escritor do livro ‘Biografia das Copas’. Na conversa, o comunicador opinou sobre o momento do jornalismo diante da pandemia, o livro que ele escreveu e será lançado em setembro, e sobre a Seleção Brasileira.

Como tem sido pra você, nesse momento de pandemia, o trabalho no jornalismo e na Jovem Pan? Tem encontrado dificuldades ou se adaptado bem?

Com o atual momento da pandemia do novo coronavírus, o jornalismo tem utilizado novos métodos de trabalho, entre eles, o home office, citado por Thiago Uberreich. Dessa forma, equipes têm usado menos profissionais em estúdios, seja de televisão ou rádio. Por conseguinte, existem dificuldades e limitações para exercer o trabalho, além-claro das preocupações e precauções. Ainda assim, o papel fundamental do jornalismo tem sido desempenhado com excelência e competência.

''Claro que é um desafio para todo mundo, porque isso envolve todos nós, é a nossa moderna, como costumo dizer. Antes de sermos profissionais, nos preocupamos com nós mesmos sobre ficar doente, com parentes, amigos, tudo mais. É um período muito difícil, de muito estresse que estamos passando. No meu caso na Jovem Pan, eu sempre cheguei muito cedo à rádio, por volta de 5h25 da manhã e faço o Jornal da Manhã que começa às 6h e vai até às 10h da manhã. Normalmente, em períodos normais, eu ficaria na redação até umas 15h30... 16h, mas, para evitar circulação na redação, eu tenho ido embora às 10h para casa e de casa mesmo eu continuo trabalhando. Então eu faço um pouco de Home Office e claro estão no estúdio do Jornal da Manhã porque aí não tem jeito de fazer de casa. O comentarista até consegue fazer remotamente, mas no caso da apresentação do jornal é muito difícil. Então, é um momento de muita adaptação, que vamos nos adequando ao novo normal que todo mundo tá falando, e torcendo para que a vacina saia o mais rápido possível à nossas rotinas e a normalidade'', disse.

Como é o livro '1970, o Brasil é Tri', que você escreveu e será lançado em setembro?

Autor do livro ‘Biografia das Copas’, Thiago Uberreich lançará, em setembro, o livro ‘1970, o Brasil é Tri’.  O jornalista contou um pouco como é a obra escrita:


Na imagem, divulgação do lançamento do livro '1970, O Brasil é Tri'.                                                              Foto: Divulgação/Twitter

''O livro sobre a Copa de 70 é um resultado de muitos anos de muito trabalho. Faz pelo menos 30 anos que eu coleciono material sobre futebol e principalmente Copa do Mundo. E é um livro específico, que fala sobre a maior conquista da história da Seleção Brasileira, pelo menos no ponto de vista nos números. Porque podemos discutir aqui, qual era a melhor seleção? A de 70; a de 58; a técnica a gente fala que é a de 82, talvez, mesmo não ganhando a Copa, era melhor do que outras seleções que conquistaram os mundiais para o Brasil. Mas, é um livro que traz todo o processo, desde a derrota da Seleção na Copa de 66, na Inglaterra. Porque você não tem como começar a contar a história da Copa de 70 sem lembrar da derrota lá em 66. E passa por todo o processo: a escolha do Saldanha como técnico; depois a queda do Saldanha, antes das eliminatórias; a classificação do Brasil; depois a escolha do Zagallo; toda a preparação da seleção no México; até a estreia contra a Tchecoslováquia e a descrição jogo a jogo que eu faço do Brasil. E quando você fala também sobre Copa do Mundo, sobre futebol, não tem como tirar o futebol do contexto em que o Brasil no caso vivia. O Brasil vivia uma ditadura, uma ditadura que se aproveitou daquela conquista. Inclusive pessoas contrárias a ditadura, pessoas que tinham consciência do momento político que o Brasil tava passando, essas pessoas diziam, inicialmente, que iam torcer contra a Seleção Brasileira. Mas, quando a Seleção começou a jogar e praticar um futebol jamais visto, um futebol mágico, de muita técnica, a partir daí, as pessoas que começaram a dizer que iam torcer contra, começaram a torcer a favor. E eu destaco muito no livro também, essa militarização da Seleção de 70. Até que ponto os militares interferiam naquela seleção?! A gente tem que lembrar também, isso faz parte da história, que aquela é a primeira Copa transmitida ao vivo, via satélite, para todo o mundo. Mais de 70 países receberam o sinal diretamente do México, e o Brasil não foi diferente. É um livro que reúne tudo. Reúne futebol, claro, 80% é futebol; um pouco de política, que é o momento que o Brasil vivia e a questão das comunicações: como que as transmissões foram feitas para o Brasil, com a televisão, com todas as emissoras se juntando para transmitir. Não só as de televisão, mas também as emissoras de rádio. Era um livro que eu sempre sonhei em fazer e tá virando realidade'', relatou.

Como foi escrever sobre essa época da amarelinha, que teve em seu plantel jogadores lendários, entre eles: Pelé, Rivelino, Tostão, Carlos Alberto Torres etc.

Assim como o Thiago Uberreich relatou, a Seleção de 70 teve grandes craques em campo, além dos já citados, outros grandes nomes fizeram parte, como: Gerson Canhota de Ouro, Jairzinho, que marcou gol em todas as fases, Clodoaldo etc. Nomes históricos no Tri da Amarelinha.

''Olha escrever sobre a Seleção de 70 é um prazer muito grande. Porque ocê escreve pensando nos jogos, relembrando as partidas, relembrando os jogadores, relembrando as grande jogadas que resultaram em gol e as grandes jogadas, principalmente do Pelé que não resultaram em gol. Então é escrever sobre uma seleção de lendas mesmo. Sobre jogadores que poucas vezes nós vamos ver outros iguais, ou nunca mais, como no caso do Pelé. Acho que nunca mais vamos ver alguém como o Pelé em campo. Então é um livro que traz o retrato de jogadores que marcaram época, que faziam de tudo, todo o sacrífico pela seleção, como Tostão, a partir do momento dele na retina, ainda no ano de 69. O Tostão fez um grande esforço para chegar à Copa do Mundo. O Carlos Alberto marcando o quarto gol da final, que para mim é o gol mais fantástico de todos os tempos. E mostra que aquela 70 era solidária, com todo mundo participando praticamente daquele lance. É um prazer muito grande escrever sobre aquela seleção e lembrar daquela conquista, que para todos os jornalistas, ou uma boa parcela de todo o mundo, no começo da década de 2000... 2010... Houve uma enquete e eles apontaram aquela seleção como a melhor de todas e aquela Copa como a melhor de todas. Então é um momento muito emblemático. Não só para o Brasil, mas também para todo o futebol Mundial'', disse.

Quais acontecimentos da Copa do México mais te marcaram ao escrever o livro?

''Eu acho que os acontecimentos me marcaram muito foi escrever, por exemplo, sobre o jogo Brasil x Inglaterra, segunda partida da seleção na Copa. Aquele jogo é muito emblemático, porque marca o momento em que o futebol mundial estava vivendo. Porque naquela partida, do dia 7 de junho de 70, estavam as duas seleções campeãs das três copas anteriores. E era um momento emblemático, porque a imprensa discutia muito o que iria acontecer na Copa de 70. O futebol brasileiro, que era o futebol arte, campeão das copas de 58 e 62. Ou a Inglaterra, que até tinha uma seleção boa também, tinha bons jogadores. Mas, de qualquer forma, representava o futebol de força da Europa, o futebol meio que de violência. Não que os ingleses fossem violentos, na Copa de 66 não foi. Mas talvez os de Portugal, os da Bulgária, que caçavam os brasileiros. Mas, aquele jogo é muito emblemático, porque quem ganhasse aquela partida, certamente estaria na final da Copa do Mundo. E a vitória do Brasil naquele jogo mostrou que o futebol arte poderia prevalecer sobre o futebol força. Então essa é uma das passagens mais legais do livro. Outra passagem interessante foi a pesquisa que fiz sobre o João Saldanha. Por que o João Saldanha foi escolhido pra comandar a seleção, já que ele era aquele comunista convicto. Porque ele foi escolhido pra comandar a seleção e depois porque ele caiu. É uma polêmica fora Copa do Mundo, que é muito interessante de analisar e de estudar. E por fim, na parte final do livro, sobre as curiosidades, não tem jeito de não concluir esse livro sem contar um pouco sobre a história do roubo da Taça Jules Rimet, em 1983. E a Taça foi roubada, ao que tudo indica o ouro foi derretido, ninguém sabe o paradeiro daquele ouro, deve ter sido vendido. E o que mais nos deixa triste quanto a isso, é que aquela taça é o símbolo da conquista maioral da seleção. A seleção ganha àquela taça três vezes (58,62 e 70), e fica com o troféu em definitivo. E esse troféu estava exposto na CBF, e a cópia estava num cofre, e a taça foi roubada. São coisas de Brasil’’, comentou.


Na imagem, Carlos Alberto Torres, o Capita, ergue a Taça Julius Rimet.                                                        Foto: Reprodução/Yahoo

Como você vê o atual momento da seleção brasileira? Nas últimas Copas acumulou eliminações em quartas de final e goleada histórica para a Alemanha.

Desde o último título de Copa do Mundo, em 2002, o Brasil tem enfileirado eliminações precoces e vexames nos jogos. No Mundial de 2006, na Alemanha, eliminado para a França, com gol de Thierry Henry, nas quartas de final. Em 2010, mais uma eliminação em quartas, dessa vez, para a Holanda. No torneio que teve o país como sede, em 2014, a Amarelinha emplacou o maior vexame de sua história: Brasil 1x7 Alemanha, nas semifinais. Além disso, na disputa pelo 3º lugar, derrota por 3 x 0 para a Holanda. Por fim, em 2018, eliminação para a Bélgica, também em quartas de final.

''O atual momento da seleção é muito ruim e não é de hoje. O último título foi em 2002, e de 2006 para cá, nós temos uma hegemonia europeia que jamais foi vista na história das Copas do Mundo. A única vez que um país europeu conquistou a Copa duas vezes consecutiva foi à Itália, em 34 e 38. E, desde 2006, os europeus predominam. 2006 Itália; 2010 Espanha; 2014 Alemanha e 2018 a França. Então, os europeus crescem, aparecem cada vez mais nas histórias das Copas do Mundo. E consequentemente, a seleção brasileira vai caindo. O que eu acho é que a Copa de 2006, que nós tivemos o tal do quadrado mágico, que não deu certo, mas que tínhamos o Ronaldo, Ronaldinho, Kaká e Adriano. Mas, foi à última Copa em que o Brasil contou com muitos craques. A partir daí, o Brasil sofre para ter bons jogadores e há duas Copas o Brasil só depende do Neymar. A seleção brasileira vai muito mal, infelizmente. A goleada para a Alemanha foi o símbolo do futebol brasileiro naquela Copa do Mundo, infelizmente. Foi a maior decepção e mancha esportiva da história da seleção brasileira, sem dúvidas, essa derrota por 7 x 1. É um momento que continuamos vendo os europeus subirem e nós decaindo. Por vários fatores, como: econômicos, políticos, de politicagem de clubes e a própria politicagem do Brasil. Eu acho muito difícil o Brasil se reerguer, falta jogadores. Antes tinham craques, e por mais que estivessem na bagunça, eles davam conta. Agora acho que nem isso está acontecendo'', afirmou.

Qual à sua perspectiva para a próxima Copa do Mundo? Acredita que Tite é o técnico ideal?

A Copa do Mundo FIFA de 2022 ocorrerá no Catar, e será disputada entre 21 de novembro e 18 de dezembro. Contudo, os últimos resultados da seleção, como contou o Thiago, não deixam boas perspectivas para a possível conquista do hepta pelo Brasil.


Tite e Neymar foram citados por Thiago Uberreich.                                                                Foto: Reprodução/Lucas Figueiredo/CBF

''Eu acredito que para a próxima Copa do Mundo o Brasil tem condições melhores desde 2010. A Seleção Brasileira de 2010 foi razoável, o Dunga fez um trabalho razoável e a seleção acabou perdendo para a Holanda, em um jogo comum, mas com falhas em dois gols de cabeça. A derrota de 2014 é incomum. E a derrota para a Bélgica é uma derrota que o Brasil perdeu porque poderia ter tido melhores jogadores, eu acho. O Brasil faz muito tempo que não tem grandes craques. O próprio Neymar não deu conta nesse jogo e contra a Alemanha ele não enfrentou por conta do problema contra a Colômbia no jogo anterior. E eu acho que agora a gente teve recentemente o Flamengo, que foi um ponto fora da curva, alguns jogadores que começam a aparecer. Então eu fico na expectativa de uma Copa um pouco melhor. Eu acho que o Tite já teve a chance dele em 2018. Acho que a seleção poderia ter um outro técnico, favorável a um estrangeiro. Não tenho nomes e nem palpites. A seleção precisa de uma reciclagem. Os europeus estão muito diferentes, em relação ao Brasil. Mas acho que tenha melhores condições. Meu palpite é que não ganha agora, mas talvez daqui a duas Copas, possa vencer'', finalizou.
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