18/09/2020 às 11h45min - Atualizada em 18/09/2020 às 11h07min

​Literatura regional sob a ótica do pampa

“— Mas por que será que o tempo custa tanto a passar quando há guerra?" (O Continente, v. 01)

Letícia Franck - Editado por Bruna Araújo
Letícia Franck
São quase 11h e estou mateando. Aliás, você sabe o que é chimarrão? Aqui no Sul, quando falamos isso, logo identificam. Mas é exatamente sobre esse conhecimento breve dos pampas o tema que abordo hoje aqui no Lab. Vivemos - de 13 a 20 de setembro - para ser específica, a Semana Farroupilha. Promoção máxima do tradicionalismo gaúcho, regulada por uma Lei Estadual e Regulamentada por um Decreto.
 
Durante esse período de sete dias são relembrados os feitos no Decênio Heróico (1835-1845), a mais longa revolução brasileira de que se tem conhecimento. Não pedi para nascer no Sul. Mas não existe outro lugar que eu deseje mais ter crescido e vivido que o pampa. Me fiz gaúcha por amor à toda essa atmosfera verde e aconchegante. Se eu sigo religiosamente os costumes e tradições já é pano para uma manga que eu não quero costurar agora. Quem sabe noutro momento.
 
O caso é que aqui nesse pedacinho de chão cheirando a churrasco e carreteiro de charque, existe muita história rica em detalhes a ser contada. Temos autores que muito bem descrevem nossos campos e legados, como Erico Veríssimo em sua saga “O tempo e o vento”, um clássico já adaptado pela Sétima Arte, conhecidíssimo dos leitores mais assíduos e transmitido pela TV aberta, dada sua qualidade.
 
Desse mesmo autor, temos em obras avulsas “Um certo capitão Rodrigo”, muito bem interpretado por Thiago Lacerda e “Ana Terra”, vivida por Cleo Pires, ambos completando a história inicialmente apresentada em três tomos. Inclusive, fique registrado, as gravações foram feitas em todo um cenário produzido especialmente para o filme aqui em Bagé, hoje um dos pontos turísticos da Rainha da Fronteira.
 
Dito isto, vocês podem estar se perguntando se para além de Veríssimo existem outros autores que retratam essa paisagem sulina recontando sua história por diversos pontos de vista que não sujam em nada nossos feitos. “A casa das sete mulheres”, de Letícia Wierzchowski, por exemplo, originou a minissérie da Rede Globo lá em 2003, com 51 capítulos, apresentados entre 7 de janeiro e 8 de abril.
 
Para além de obras mais “tradicionais”, por assim dizer, temos àquelas que já ocupam seu espaço em meio ao crescente número de literatura regional aqui do Sul. Autores mais contemporâneos, outros nem tanto, mas que têm ganhado espaço e reconhecimento dignos de suas produções. Selecionei algumas, como de praxe dessa que vos escreve, para que você tenha alguma alternativa, opção e/ou direcionamento sobre o quê ler, caso o interesse pelos contos do pago tenham chamado sua atenção.
 
Te achega.
 
Eu vou ficando por aqui, mas antes, um último recado: toda literatura importa. Toda história vale à pena ser contada. Você já leu hoje?
 
Começando com o leve e tendo mais abertura às diversas histórias sulrriograndenses, temos o “Contos gauchescos e lendas do Sul”, de Simões Lopes Neto: um dos grandes nomes da literatura rio-grandense. O elemento marcante de sua obra é a exploração dos conflitos vivenciados pelo gaúcho que, afinal, são situações paradigmáticas experimentadas por todos os homens, independente de sua nacionalidade e classe social. Nesse sentido, Simões torna-se universal.
 
Farrapo: memórias de um cavalo, de Félix Contreiras Rodrigues: Uma das obras básicas para entender o gaúcho, em sua essência. O livro abrange desde os costumes até a psicologia do povo dessas terras. Escrito sob o pseudônimo Piá-do-Sul e lançado em 1958, o romance é um deleite.
 
Xarqueada, de Pedro Wayne: a história ficcional retrata o dia a dia de uma das atividades econômicas que já esteve dentre as mais importantes do Rio Grande do Sul. O título com “X” acata uma sugestão de Oswald de Andrade e Jorge Amado.
 
Andarilhos, de Rodrigo Tavares: já citei esse livro, já falei desse autor e vou seguir batendo na tecla porque um: ele é fantástico e dois: o mundo precisa conhecer a escrita de Tavares. Um vasto e inesgotável, rico e melancólico mundo pampiano que transitam os personagens Pedro Guarany, João Fôia e o francês Alphonse Saint Dominguet. Não vou contar mais porque como disse, vocês deveriam ler.
 
O duque da senzala, de Valdomiro Martins: um ex-escravo vendido pela mãe que busca espaço no meio social e político no Rio Grande do Sul da segunda metade do século XIX. Uma jornada pelos confins do pampa numa caçada aos limites da razão.
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