03/12/2020 às 19h20min - Atualizada em 03/12/2020 às 19h16min

Processo de não tombamento do Complexo Esportivo do Ibirapuera gera revolta em atletas e entidades esportivas

Após o estudo de tombamento ser rejeitado, privatização e destruição de locais de práticas esportivas são encaminhadas pelo governo estadual

Lucas de Almeida Andrade - editado por Thamyres Pontes
Vista área do Complexo Esportivo do Ibirapuera. Fonte: Gabriel Cabral/Folhapress
A não abertura do processo de estudo pelo tombamento do Complexo Esportivo Constâncio Vaz Guimarães, do Ibirapuera, gerou revolta principalmente entre atletas, ex-atletas e entidades que administram o esporte. Na última segunda-feira (30) o Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico (Condephaat) rejeitou, em reunião online, a proposta de transformar o complexo esportivo em patrimônio da cidade de São Paulo. A decisão abre caminho para que o governo do estado de São Paulo avance com um projeto de privatização do local. Caso o estudo de tombamento fosse aberto, nenhuma obra estrutural poderia ser feita no local, o que inviabilizaria o plano do governador João Doria (PSDB) de ceder o lugar à iniciativa privada.

O principal ponto de discórdia é em relação a possível privatização do local. O complexo é composto por dois ginásios, centro aquático com piscina olímpica, estádio de atletismo e judô, quadras de tênis, além de estruturas administrativas. Segundo um estudo encomendado pelo governo paulista, toda área poderá ser modificada para a construção de novos empreendimentos. O Ginásio do Ibirapuera seria transformado em shopping center, enquanto as demais estruturas esportivas seriam demolidas para a construção de torres comerciais, hotel, uma arena multiuso com capacidade para 20 mil pessoas, pista de skate e algumas quadras poliesportivas.

A campeã olímpica de vôlei, Fabiana, se pronunciou em suas redes sociais demonstrando insatisfação com a decisão do governo de São Paulo, a respeito do não tombamento do Complexo Esportivo do Ibirapuera.

 
"Quando penso que depois de tantas conquistas do esporte brasileiro mundo afora, depois de tanto o esporte salvar vidas e resgatar pessoas, vejo a notícia de que o governo de SP quer derrubar o Ginásio do Ibirapuera. É INACREDITÁVEL o descaso com a história do esporte brasileiro e com o futuro das modalidades esportivas. A tentativa é de enterrar conquistas, histórias, lembranças e projetos futuros, pra dar lugar a um shopping center! Pelo visto, um complexo de lojas chiques vale muito mais do que proporcionar a população diversão, saúde e lazer!”, declarou a atleta.

Além disso, demais representantes do vôlei, ex-atletas, endossaram as críticas feitas por Fabiana, opinando que sentem muita dor no coração com possibilidade do Ginásio do Ibirapuera se tornar um shopping. A Confederação Brasileira de Desportos Aquáticos (CBDA) e a Federação Aquática Paulista (FAP) enviaram ao governador de São Paulo um ofício pedindo que o estado assegure a preservação do conjunto aquático, ou que no mínimo, construa um novo e moderno aquático

O jornalista Demétrio Vecchioli, do Blog Olhar Olímpico, do UOL, se posicionou mostrando insatisfação com a situação em que os patrimônios do esporte brasileiro se encontram. Ainda, o jornalista disse não ser contra a construção da arena multiuso e a privatização. Em contrapartida, se opõe a forma como foi realizada.
 
"Pelo projeto referencial, São Paulo vai perder uma piscina olímpica, um tanque de salto, um estádio com pista de atletismo, diversas quadras abertas de tênis, galpões com quadra coberta, o "Palácio do Judô", etc. E nada disso será substituído. O esporte perde equipamentos públicos escassos e os cofres públicos ganham as "luvas" pagas pelo concessionário sem que haja nenhuma garantia, sequer promessa, de que esse dinheiro vai voltar para o esporte, como não voltou no caso do Pacaembu. É como vender a geladeira velha, comprar uma televisão nova, e ficar para sempre sem geladeira”, opinou o jornalista.



 
O pedido de tombamento do complexo foi feito por um morador da região no ano de 2017, mas só foi analisado esta semana. A decisão de não levar adiante o estudo só foi possível graças a uma manobra do governador do estado. Em 2019, Doria, modificou a composição dos membros do Condephaat, dando a maioria das cadeiras disponíveis a pessoas indicadas pelo governo. Antes da decisão, haviam 30 conselheiros no órgão, sendo 14 representantes das universidades USP, Unesp, Unicamp e Unifesp e os demais apontados pelo governo.

Na época, Doria diminuiu de 30 para 24 o número de conselheiros, e reduziu as vagas aos indicados das universidades para o valor de cinco. Atualmente há 13 indicados pela atual gestão no órgão. Na reunião da última segunda-feira (30), apenas os cinco representantes das universidades foram favoráveis ao tombamento do Ibirapuera, todos os demais votaram conforme os planos do governo estadual.
 
 

 
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