05/02/2021 às 14h34min - Atualizada em 05/02/2021 às 14h21min

BBB 21: a cultura do cancelamento dentro e fora do reality

O papel do cancelador e as consequências na vida do cancelado

Brenda Freire - Editado por Andrieli Torres
Fonte/Reprodução: Twitter
Cancelamento. Termo comumente utilizado para "deixar para lá", parar, inutilizar, anular ou eliminar. Estes, entre tantos outros, são os significados atribuídos a essa palavra em situações cotidianas. É o mesmo que dizer que um evento não deve mais acontecer ou que o plano de internet não vale mais a pena.

Situações cotidianas as quais adota-se uma postura de cancelador diante de algo que não parece bom para quem está vivenciando um momento incômodo. É a postura de quem não quer ouvir nada além de si mesmo. De quem não aceita e diz seus motivos. Da pessoa que silencia a outra e sente-se superior. Na psicologia, o psicoterapeuta Francisco Guimarães (@franciscoguimaraes.psicologo) explica que “cancelamento é um tipo de punição sobre a fala ou comportamento da pessoa que apresentou uma conduta errada, porém não há espaço para que esta pessoa possa tentar se redimir dos seus erros”, afirma o psicólogo.

Mas sabendo que vivemos em um mundo cibernético com os mais variados usuários de redes sociais, entende-se que a palavra "cancelamento" transcende o significado. Ele povoa e ganha mais espaço, mais interações para quem fala, e mais consequências para quem se cala. É nessa bola de neve de interação que encontramos o entretenimento; a mistura entre quem produz conteúdo na internet e fora dela. Com pessoas públicas e anônimas que ao mesmo tempo veem, se posicionam ou simplesmente se silenciam ou são silenciadas. Encontramos o público. O que assiste ou é da TV e o que acompanha influenciadores. Além do ciberespaço, entre milhões de brasileiros, onde estão 19 pessoas de cada parte do país, hoje? No Big Brother Brasil 21 (BBB).

O que interessa aqui, é a abordagem sobre o cancelamento dentro do reality e como ganhou muita força na visão de um público que julga e joga. De telespectadores que cancelam os participantes do programa, mas que ao assistirem algumas cenas opressivas, estão ‘cancelando o cancelamento’. De acordo com Francisco, cancelar tomou proporções negativas, consideradas como atitudes feias, ruins e desumanas, tornando-se então um motivo de validação social. Assim, quando as pessoas que acompanham o programa souberam as consequências desse ato, houve uma mobilização para anular o que anula.

“Cancelador é aquela pessoa, que o céu se abre, e ela desce pra ensinar como um Deus, apontando o dedo pra pessoa que está errada e se julga superior aos outros, ele é perfeito”, este foi o discurso do apresentador Tiago Leifert no Jogo da discórdia no programa. Em outras palavras, é quem reprime as ações de quem errou. Geralmente essa pessoa tem certeza de suas opiniões e aponta o outro. Seria essa a tomada de decisão correta por parte de quem discorda de uma opinião ou atitude de alguém? Tirar também o espaço de fala e, talvez, a remissão para que o erro não seja repetido, isso é saudável? Não e não, mas vamos buscar entender isso. Segundo Francisco, compreender que todos são diferentes e lidar com a diversidade nas relações humanas é complexo.

Quando uma pessoa presencia ou vê alguma situação que diverge de seus ideais sociais, éticos e morais, a tendência é castigar, punir e repreender a permanência dessas ações. A exemplo de uma pessoa firme em seus posicionamentos, tem a participante Lumena Aleluia. Ela é militante da causa preta e LGBTQIA+, mas também é psicóloga. Dentro da casa tem protagonizado diversos conflitos e, apesar de ser uma canceladora de atitudes que destoam com suas convicções, Lumena gerou questionamentos para o público aqui fora. As pessoas estão cancelando uma canceladora. O psicoterapeuta explica que “muitos participantes não estavam acostumados a se relacionar diretamente com pessoas que militam dentro de uma causa que traz grandes repercussões sociais, reivindicações de direitos, apontamento de injustiças, opressão, sofrimentos psíquicos e sociais, e que de forma direta ou indireta, aponta neles possíveis comportamentos preconceituosos, racistas, homofóbicos que podem ser cancelados não somente na casa do reality, mas também perante a sociedade.”

São nessas situações que encontramos semelhanças entre quem cancela no reality e quem cancela o cancelador (aqui fora). Vira um incessante ciclo de tentativas de reparação de erros na casa, que incomodam o público, pois as pessoas que assistem, percebem como tudo depende da abordagem, da maneira que é dito. Ainda assim, essa mesma percepção não é aplicada no cotidiano, ela é reforçada e a ideia de excluir o que exclui se torna fraca. Por que? Porque as pessoas cancelam quem cancela. Buscam erros e justificativas para eliminar o outro. Isso se aplica a Lumena. O fato de ela ter formação em psicologia, também motiva os questionamentos do público. De acordo com Francisco, ser psicóloga faz parte da identidade da jogadora, sobretudo, ela é um ser humano que assim como nós, tem sua personalidade e escolheu não se posicionar como profissional da área. Cancelados e as consequências. Segundo a digital influencer e gastróloga Bruna Freire (@brunafreirecozi), o medo e a hesitação em falar ou publicar algo nas redes sociais rodeia quem trabalha na internet. Perda de contratos, parcerias e seguidores são reflexos da falta de credibilidade que um criador de conteúdo digital pode passar.

A imagem é tudo. Dentro do reality há influenciadores digitais e eles reconhecem o que é um linchamento virtual. Não só eles, como os outros jogadores sabem, a diferença é que está ocorrendo um linchamento real. Dois participantes estão sendo excluídos, tratados com diferença por terem errado ou simplesmente por não se encaixarem no que agrada coletivamente. Eles são: Juliette Freire e Lucas Penteado. Ela, nordestina e advogada, gosta de falar e sempre busca aproximação, mas acredita que não entendem sua linguagem. Ele, paulista e poeta que exagerou em suas palavras. Ambos foram cancelados e considerados canceladores em tentativas diárias de remissão. Segundo Francisco, o que tem acontecido com os dois é um reflexo da sociedade que carece de valores, respeito, compaixão e sensibilidade. Que despreza e banaliza o sofrimento do outro, deixando clara a falta de importância com a saúde mental alheia. Assim, as pessoas que tomam papel de influência, mesmo não sendo a digital, evidenciam uma mobilização contra ou a favor de alguém.

Onde há um líder instruindo como o grupo pode se posicionar, quais são os caminhos aparentemente mais corretos, e isso chama mais atenção, pois mais pessoas escutarão ele. Esse conceito está envolvido no que o psicólogo afirma ser o "Efeito Manada", onde quem tem espaço notável de influência social, consegue evidenciar suas técnicas persuasivas, reforçando a crença de que o grupo deve acreditar e seguir as suas necessidades individuais. Em contrapartida, a gastróloga explica que “nessa edição, a última coisa que eles (os integrantes do camarote) estejam tendo, é medo do cancelamento! [...] Nós vemos claramente isso no BBB, em como tem sido sofrida a estádia pra Juliette e pro Lucas Penteado.” E esse sofrimento gera consequências. Ser cancelado real ou virtualmente interfere na vida do alvo. Corta relações e prejudica a saúde mental. Traz consequências como “o abandono, o desprezo, a desconsideração, a perda de prestígio, a indiferença e podem refletir diretamente na autoestima, imagem e dignidade”, afirma o psicoterapeuta.

Esses fatores podem ser norteadores na vida de pessoas canceladas na internet. Hoje, as diferenças entre o real e virtual estão cada vez mais estreitas, mas as problemáticas são as mesmas, afinal, vivemos em sociedade. Entendendo que essa forma de repreensão e exclusão não são a melhor escolha, o que podemos fazer para evitar esse abuso pode ser simples ou mais voltado para o autoconhecimento. Na internet, não se identificar com um conteúdo ou um digital influencer é normal, mas para filtrar essas situações, Bruna explica que “um unfollow vale mais que mil palavras! Me policio bastante a respeito disso, se eu não concordo, se não me faz bem, eu simplesmente me afasto”.

Ademais, na visão de Francisco Guimarães, compreender que as redes sociais geralmente mostram um retalho de algum acontecimento ou de quem é tal persona, é de tamanha relevância. As situações podem ser vistas de forma superficial e fragmentada sem questionar se determinado acontecimento ocorreu realmente de tal maneira ou se houveram distorções. Devemos saber da existência de nossa liberdade de expressão. Dar espaço aos assuntos relevantes e que às vezes podem estar sendo trabalhados de maneira bruta e confusa. O direito de expressar nossas opiniões e valores, é nosso, mas ele deve ser usado sem abusos.

Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »