12/02/2021 às 12h01min - Atualizada em 12/02/2021 às 11h52min

A mulher e o papel de não entendedora sobre futebol

A luta das mulheres pelo direito de viver o esporte mais popular do mundo

Larissa Bispo - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto: Reprodução/Pixabay
Se você é uma mulher que gosta e entende de futebol, certamente ouve clássicas perguntas como “então o que é impedimento?” ou “me diz a escalação dos anos 1980 do seu time”. Não é preciso ir longe para ver as mulheres sendo bombardeadas com perguntas cujo objetivo é apenas invalidar a opinião feminina.

A insistente busca por deslegitimar essas falas, comentários e a própria paixão pelo futebol confirma como tudo isso é sempre colocado à prova quando a voz é feminina. Camila Gonçalves, 31 anos, é torcedora do flamengo e ressalta como a mulher se depara com a frequente necessidade imposta de provar o que entende: "Mulheres precisam se provar muito mais, seja como jogadora, torcedora ou uma comentarista”. No entanto, esse é apenas um pedaço de todo o problemático contexto histórico-cultural da mulher no futebol ao longo das décadas.

Desde a ascendência do futebol no Brasil, não havia como existir uma representação feminina consolidada na modalidade, como no masculino, diante do decreto do então presidente, Getúlio Vargas, que proibia mulheres de praticar esportes considerados violentos e não apropriados para o “frágil” corpo feminino. Dessa forma, entre a mulher e o futebol sempre existiram barreiras para impedir a presença delas em campo, fortalecendo a ideia de que o futebol não era um lugar feito para a mulher.

“Eu penso que toda a questão do machismo é uma coisa muito arraigada, muito antiga [...] A gente vai conseguir aos poucos, mas vamos chegar lá, vamos conseguir conquistar esse espaço”, diz a são paulina Léia Souza, 40 anos, em uma participação no episódio #113 do podcast SPFCast.

Hoje, temos a consciência de que esse também é um lugar que nos pertence. Entretanto, mesmo anos após a queda do decreto e as portas para a representatividade feminina no futebol sendo abertas no país, os vestígios da nossa escassa representação na modalidade ainda sofrem consequências dos anos jogadas para escanteio. A ideia cultural da mulher e o futebol como combinação incabível se enraizou na sociedade e ainda reflete a maneira como nossa imagem nesse ambiente é recebida atualmente.

“Ainda existe (e acho que ainda vai existir por bastante tempo) uma visão machista com relação ao esporte, então a torcedora só vai ao estádio por causa do namorado ou do marido, a comentarista é fraca ou é burra ou é cota para agradar o público...”, destaca Camila sobre a visão da mulher dentro do esporte.

O futebol passado por geração, durante anos, limitou-se aos filhos homens, assim como a ideia de “bater uma bola” em um campinho. O estádio, em especial, tornou-se um ambiente exclusivamente masculino. De fato, as transformações estão acontecendo e podemos ver mais mulheres e meninas nas arquibancadas, na internet e em programas esportivos expressando sua paixão e falando de futebol, desconstruindo a narrativa de que esse cenário é feito por e para homens.

“No futebol ainda há um ambiente bastante masculino e, com isso, muitas vezes parece que nós, mulheres, temos que abrir mão da nossa própria feminilidade pra fazer parte desse universo. Mas eu acho que temos que conquistar esse espaço sendo mulher”, destaca Léia, ainda no episódio #113.

Mas essa constante busca por espaço é um caminho tão longo quanto a busca pelo respeito. Os casos de assédio nos estádios corroboram com a recorrente visão do corpo feminino erotizado e objetificado – tanto de atletas quanto de torcedoras. Esse retrógrado pensamento sobre a finalidade do corpo feminino nos esportes é continuar alimentando um pensamento que não cabe mais em uma sociedade que vem compreendendo a importância e o direito da nossa presença nesses lugares.

No futebol, também não há regras nem coordenadas para quem admira e aprecia. “Não assisto apenas jogos do meu time... vejo tudo que é tipo de jogo, desde série B do Campeonato Paulista até os jogos mais importantes dos principais campeonatos nacionais e internacionais”, diz Camila. Afinal, como haver regras para um esporte que atrai os olhos do mundo?
 
O futebol é, sobretudo, um esporte que transcende as quatro linhas; ele move pessoas, ações, sentimentos e histórias. Hoje, ele atravessa não apenas as gerações masculinas, porque estamos nos permitindo, depois de muito tempo, entender que o futebol provoca paixões que nunca enxergaram gênero.

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