26/02/2021 às 23h36min - Atualizada em 26/02/2021 às 22h49min

Resgate das raízes na moda por uma nova geração de designers

Manter tradições e suas origens faz com que designers se destaquem no mercado de moda

Danielle Barros - Editado por Yuri Anderson
Reprodução
Na moda tudo está em constante transformação e as tendências surgem a cada segundo: os processos produtivos são acelerados e as passarelas internacionais comandam, em temporadas, o que será comercializado a nível global. A contemporaneidade tem suas vantagens, mas afasta antigas tradições também. No entanto, uma nova geração de designers “flerta” com suas raízes, seja na estética ou no método de fazer, e tenta resgatar o passado através de seus projetos e marcas.

Com a pandemia, debates sobre o futuro da moda cresceram e foram além de qual cor seria a próxima protagonista entre as marcas. A necessidade de falar sobre uma moda mais limpa, coerente e que não cria padrões foi surgindo em meio a lives, workshops e postagens em redes sociais. Tudo ali, no meio digital, com uma velocidade difícil de desacelerar. Aparentemente, o desejo de boa parte dos consumidores foi mudando durante esse período e abriu espaço para uma moda mais casual, com mais conforto e mais qualidade.

Essa situação trouxe para alguns profissionais da moda um olhar voltado para o resgate de suas ancestralidades e raízes durante o processo criativo. Uma parte, na verdade, já produzia uma moda com foco nas tradições de seus antepassados, para que técnicas desenvolvidas em suas origens -sejam familiares ou geográficas- não sejam esquecidas.

Rebeca Sampaio, designer de moda e proprietária de uma marca autoral, traz em suas criações um ar regional e que remete a sua história, pensando em suas raízes. “Eu sou cearense, do interior do Ceará. Só moro no Rio há quatro anos e estudei moda fora, em Londres, e essa vontade de trabalhar com as minhas raízes, com as coisas da minha terra, veio acho que exatamente nessa época, em que eu morava fora”, conta a designer. Inicialmente, Sampaio desfilou uma coleção no Dragão Fashion Brasil e só depois- em 2019- abriu sua loja de prêt-à-porter no Rio de Janeiro.

O processo criativo na moda envolve diversos fatores, e a inspiração pode surgir a partir de sentimentos, vivências, experiências e estudos. Para Ana Varela, designer de moda, a ideia de resgatar suas raízes veio com a junção de duas situações “Acredito que foi no meu terceiro ano na faculdade, tive uma matéria sobre Moda e Sustentabilidade. Peguei o tema da Amazônia por acaso, mas meu professor e eu gostamos bastante do resultado e ele até comentou em ser o tema para meu TCC, mas confesso que deixei essa ideia em ‘banho maria’!” diz Ana, que nasceu em São Paulo, mas que pertence a uma família amazonense por parte materna e acabou desenvolvendo em seu TCC uma coleção inspirada nas origens e na região de sua família: “Queria trazer algo fora do comum, que as pessoas não estavam acostumadas ou ainda não tinham visto. Não queria trazer a Amazônia como algo que todos lembram...e sim da forma de uma visão de uma paulista de raízes caboclas.”


É preciso conversar sobre o futuro da moda
O interessante desse resgate que novos designers têm buscado é que, até então, muitos acabam vivenciando experiências pertencentes as suas ancestralidades que desconheciam. Há um aprofundamento naquilo que eles gostariam de fazer parte, mas que antes não era algo comum. Ou o contrário também acontece: o total conhecimento de sua raiz, mas sem o ensinamento do caminho para trazer isso para um projeto ou marca.
Ana acredita que é preciso que o designer busque autoconhecimento antes de tudo “E principalmente tendo a curiosidade sobre descobrir quem é você, de onde vem o nome da sua família, tentar desvendar aquelas famosas histórias ou cuidados que passam de geração em geração. No meu caso foi isso: sabia que tinha descendência cabocla, mas até que ponto eu sabia? Foi então que eu decidi pesquisar sobre a descendência da minha avó e descobri que era Índia de uma tribo chamada ‘Munduruku’.”
Também é importante que haja um debate sobre como levar daqui para frente esse assunto, e como as futuras gerações de designers caminharão para essa compreensão sobre identidade cultural. “Eu acho que isso é um processo natural. É lógico que pode ser debatido e deve, principalmente nas faculdades, nas redes sociais: falar da importância de falar do nosso lugar, da nossa terra.”, diz Rebeca sobre como é possível trabalhar o tema futuramente.

É possível que a moda do futuro tenha mais referências humanizadas, mesmo que, em muitos aspectos, converse com a tecnologia. O designer de moda que estiver preparado para isso pode manter viva a memória de suas famílias, cidades e tribos, transformando coleções e produtos em símbolos afetivos.
 

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