12/03/2021 às 09h04min - Atualizada em 12/03/2021 às 08h42min

Jogar no lixo ou consertar?

O consumo desenfreado agrava o problema do excesso de lixo no meio ambiente

Ianna Oliveira Ardisson - Editado por Roanna Nunes
Fonte/Reprodução: Google
Qual a sua atitude quando um eletrodoméstico ou um aparelho eletrônico param de funcionar? Procura uma assistência para consertar ou logo decide descartar e comprar algo novo? Existe um apelo muito grande para consumirmos mais e mais, diante disso, muitas pessoas nem cogitam a ideia de buscar uma assistência técnica ou uma oficina de reparo. Além disso, a vida útil dos eletrônicos e de diversos outros itens têm sido cada vez mais curta. Com a vida útil encurtada estimula-se o consumismo. Quando algo estraga, as pessoas “aproveitam” para comprar um item mais moderno, tendo em vista que as propagandas não param de nos assediar para despertar esse “desejo” pelo novo em nós.

Em Paris existem oficinas de consertos em que voluntários auxiliam as pessoas na possível reparação de seus utensílios domésticos e aparelhos eletrônicos. Iniciativas como essa, em vários lugares da Europa, buscam evitar o desperdício e o consumo excessivo. Os europeus possuem uma “cultura de conserto”, muitos preferem consertar a comprar novos itens. Essa iniciativa para buscar o conserto não é muito presente em nosso país, com frequência ouvimos que consertar é mais caro que comprar algo novo, e assim, nem nos damos ao trabalho de pesquisar, e constatar, se realmente isso é verdadeiro.

Na sociedade do consumo em que estamos inseridos, o consumidor é estimulado o tempo todo pelo desejo e impulso de compra. A opção de consertar aquilo que estraga, muitas vezes, nem é cogitada diante dos apelos para se obter algo novo. Termos como novo, mais moderno, atual, transformaram-se “naturalmente”, em sinônimo de melhor, melhor que o antigo. Sendo assim, opta-se facilmente por comprar algo novo com a sensação de que essa é a opção mais correta.


Na França, em 2020, a Assembleia Nacional votou para instituir um índice de classificação de "reparabilidade" para eletrodomésticos. Com isso, o governo francês tem a pretensão de aumentar a taxa de conserto de dispositivos eletrônicos. Quando as regras entrarem em vigor será exigido que os fabricantes coloquem classificações em seus produtos. As classificações serão calculadas com base em alguns critérios como facilidade de conserto e disponibilidade de peças de reposição. Com essa decisão a possibilidade de conserto será maior e o descarte, que gera tanto lixo eletrônico, diminuirá.

O Doutor em Geografia Eric Pereira aponta alguns prejuízos trazidos pelo lixo eletrônico ao meio ambiente:
“O lixo eletrônico, para além do seu volume que já é um problema por si só, traz prejuízos ainda mais graves para o meio ambiente. Isso se deve ao fato de grande parte dos componentes utilizados em sua fabricação não se decomporem naturalmente. Ademais, estes equipamentos possuem os chamados metais pesados, como é o caso do chumbo, que são altamente contaminantes e podem atingir água, solo, flora e fauna.”

Infelizmente, a própria indústria possui suas maneiras de nos “obrigar” a consumir, uma das artimanhas utilizadas é a prática de obsolescência programada.  Obsolescência programada é uma tática para diminuir a vida útil dos produtos para que o consumidor compre cada vez mais, com o objetivo de aumentar as vendas e o lucro da indústria. É um planejamento para que o produto se torne obsoleto, velho, em curto espaço de tempo. Historicamente, a obsolescência programada começou a ser praticada pela indústria no início dos anos de 1920.

Dr. Eric Pereira considera como positiva a iniciativa francesa que procurou legislar sobre o "direito de consertar" e destaca que ações como essa seriam uma forma de enfraquecer a prática de obsolescência programada:
“Este tipo de medida é extremamente benéfica para o consumidor e também para o meio ambiente. Sabe-se, que diversas empresas trabalham com a chamada obsolescência programada, que nada mais é que uma vida útil pré-estabelecida pela fabricante, sem que o consumidor saiba. Depois de um determinado tempo, o equipamento perde sua eficiência ou, até mesmo, para de funcionar por completo. Um "direito de consertar" passaria por esta questão, que é economicamente interessante para o consumidor e evita a produção de lixo eletrônico”.

A publicidade procura instigar no consumidor o desejo de possuir algo mais novo. Muitas vezes o dispositivo eletrônico que a pessoa possui ainda lhe serve bem, entretanto fomenta-se o desejo pelo novo, pela versão mais moderna. Observa-se esse outro fenômeno, o de obsolescência acelerada, cada vez mais rápido deseja-se descartar o que se tem para adquirir algo novo. Versões mais modernas, produtos com design diferente e várias formas de atrativos para seduzir são criadas constantemente. Tudo isso para que cada vez mais rápido se descarte o que se tem e compre um item novo.

Com o consumo desenfreado e a obsolescência programada a produção de lixo eletrônico aumenta de forma gigantesca. É lamentável observar que países africanos como Gana têm recebido, há anos, contêineres com lixo eletrônico proveniente de outros países.  Não há uma destinação adequada para esse tipo de resíduo e os países mais pobres vêm sofrendo com esse descarte inadequado no território deles. O lixo eletrônico é um problema sério para o planeta e precisamos estar atentos a isso. O consumismo exagerado produz uma quantidade de lixo que o planeta não irá suportar. Descartá-lo nos países menos desenvolvidos não é uma solução.


O Dr. Eric Pereira explica como se dá o descarte do lixo eletrônico no Brasil:
“Muitas empresas são obrigadas a receber os eletrônicos por elas produzidos, responsabilizam-se pelo retorno. Outras empresas recebem o equipamento eletrônico, como seu celular usado, quando você adquiri um novo produto, além de dar um desconto na sua aquisição. Além disso, existem empresas especializadas na coleta do lixo eletrônico para reaproveitamento e reciclagem. A maioria destas empresas não cobram pelo serviço e fazem a coleta através de agendamento.”

O consumismo está atrelado a ideia de felicidade. Busca-se felicidade ao adquirir bens. Essa ideia de consumir para ser feliz nos importuna na sociedade em que vivemos. Em contraposição a tudo isso surge o movimento minimalista. Este movimento incentiva a diminuição do consumo. Um estilo de vida minimalista busca diminuir os excessos, esses excessos não somente materiais, mas também relacionado a ideias, relacionamentos e atividades. Busca-se o mínimo necessário para viver e um sentido, um porquê, para suas escolhas. Com isso o consumo por impulso é freado já que somos convidados a refletir sobre as escolhas, sobre a verdadeira necessidade de possuir algo. Ser minimalista é entender que não é a abundância de coisas que trará felicidade, é perceber o que lhe faz bem e ir atrás disso.  Não significa desfazer de tudo o que possui e viver com nada ou quase nada, mas sim entender o sentido das coisas para si e viver em equilíbrio. O minimalismo nos ajuda a perceber melhor que essa ideia de consumir para ser feliz não é necessariamente verdadeira.

Jogar no lixo ou consertar? Qual a sua escolha? Pensar em desenvolvimento sustentável e na relação com o meio ambiente nos leva a analisar melhor sobre a necessidade de se optar pelo consertar e frear o consumo. Torna-se cada vez mais importante ponderar que o planeta não suporta tamanha quantidade de lixo que tem recebido. Além disso, é saudável parar e raciocinar antes de comprar algo novo para que sua ação não seja por impulso e acabe, desnecessariamente, contribuindo para o aumento do consumismo.






Referências:

“Direito de consertar: o país que tenta mudar a cultura de jogar no lixo as coisas velhas.”
Disponível em: https://www.bbc.com/portuguese/vert-fut-56172381#:~:text=De%20acordo%20com%20Schweitzer%2C%20v%C3%A1rios,de%20lavar%2C%20ilumina%C3%A7%C3%A3o%20e%20telas

SANTOS, Helena Roza dos e DOMINIQUINI, Eliete Doretto. A Insustentabilidade da Obsolescência Programada: Uma Violação ao Meio Ambiente e aos Direitos do Consumidor. Disponível em: http://www.publicadireito.com.br/artigos/?cod=ea2af5ea4aabdca1 Acesso em: 08/03/2021

 

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