12/03/2021 às 11h53min - Atualizada em 12/03/2021 às 11h50min

Laudelina: de técnica de enfermagem à trabalhadora informal na pandemia

"A corda só arrebenta mais pro lado mais fraco"

Brenda Freire - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto: Arquivo Pessoal de Laudelina Brito
Técnica de enfermagem, patologia clínica e biomédica. Estressada em casa, sem poder sair pra trabalhar por fazer parte do grupo de risco, Laudelina Maria Brito Conceição, conhecida carinhosamente como Ladi, começou a vender frango assado há alguns meses, durante a pandemia.

A ideia partiu da filha. Ela sabia como a mãe queria se distrair fazendo algo interessante, foi aí que encontraram um meio de saborear a vida dos consumidores e de "escapar" da pressão exercida neste tempo de tantos anseios.

Diferente de outras pessoas, Laudelina se tornou provisoriamente uma trabalhadora informal, mas tem um olhar crítico e humanizado diante das medidas restritivas instituídas pelo toque de recolher, em Salvador. O Governo da Bahia decretou que o lockdown seria implantado inicialmente das 22h às 5h no interior e região metropolitana do Estado, visando diminuir a contaminação do novo coronavírus. No entanto, com o aumento da ocupação de leitos por Covid-19, o prazo foi alterado. A partir do dia 22 de fevereiro, o toque de recolher aconteceria das 20h às 5h.

A adoção dessa medida não restringe apenas o período de tempo que o cidadão passa nas ruas, mas também o trabalho tido como "não essencial". "[...] Ele deveria ter tido essa atitude com todos, não com alguns, porque, quem está vendendo algum produto tido como não essencial, fecha sua banca, sua barraca, sua loja pra não aumentar a contaminação. Mas as pessoas saem para trabalhar, pegam ônibus cheios. Vai um contaminando o outro, eu acharia que ele deveria parar mesmo, parar pra resolver. [...]", afirma a biomédica.

O trabalhador informal depende dessa "não essencialidade", pois é através dela que famílias são sustentadas, contas são pagas e estômagos são cheios.

Segundo a Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílio (Pnad), no Brasil, 38,3 milhões de pessoas sobrevivem com um emprego informal. Essas, que já sofriam com o desemprego (formal), travaram lutas diárias nas ruas: sendo expostas às jornadas exaustivas de trabalho, violência policial e agora, com a Covid-19.

Seria então a única alternativa coerente excluir esses trabalhadores e trabalhadoras que apesar de não terem direitos, movimentam a economia do país? O que seria ideal dentro de uma realidade pandêmica? De acordo com Ladi, o ideal seria dar um auxílio financeiro aos que realmente precisam de um dinheiro proveniente de iniciativas governamentais. Para ela, quem não está em situação de extrema pobreza e fome, deve ter a noção de que "a corda só arrebenta mais pro lado mais fraco". Em outras palavras, quem tem menos oportunidades, tende a perder para quem não carece delas.

Pensando na alternativa que alguns prestadores de serviços podem aderir, existe o e-commerce, mais conhecido como venda online. Ao questionar a técnica de enfermagem sobre a possibilidade de "navegar pelo comércio da internet", ela não descarta, mas poderia tentar, mesmo reconhecendo que a produção de frango assado é passageira. Afinal, ela não vê a hora de trabalhar como antes: "Tô doida para voltar a atuar na minha profissão que eu amo, que eu adoro. Eu não vou [trabalhar na área da saúde] porque eu não sou heroína, não quero ser heroína de nada aqui. Tenho que cuidar da minha saúde, pra depois cuidar da saúde dos outros. Eu não vou me jogar nisso, porque eu sei que o retorno é terrível."

Apesar de toda tribulação que estamos vivendo, foi questionado, de mulher para mulher, qual presente ela gostaria de ganhar neste 8 de março. Ladi afirmou que queria acabar a situação que estamos vivendo, pois nos deixa apreensivos e preocupados. Ela reconhece em uma de suas falas "[...] eu sei que vírus não morre, mas sei que vírus atenua", porém deseja a vida normal de volta.

 

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