16/04/2021 às 09h53min - Atualizada em 16/04/2021 às 09h47min

Simone de Beauvoir por ela mesma

"As inseparáveis", romance autobiográfico, está sendo publicado pelo grupo editorial Record

Lívia Oliveira - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Toda Matéria | Aventuras na História
Foto: Simone de Beauvoir | Reprodução: ABC Cultural
Se "ninguém nasce mulher: torna-se mulher", Simone de Beauvoir não havia se tornado apenas uma mulher, ela era a mulher. Chega a ser imensurável o quanto a sua insatisfação e oposição acerca do conservadorismo revolucionou e influenciou movimentos políticos, sobretudo o feminismo.

Se hoje conhecemos o feminismo como ele é, tudo se deve a Simone de Beauvoir. Seu ativismo e apontamentos sobre comportamentos sociais, que passavam despercebidos na época sobre a opressão feminina, abriu os olhos da sociedade para o assunto. 
 
Nascia em Paris, em 9 de janeiro de 1908, a garota apaixonada por livros que se tornaria uma peça chave para a igualdade de gênero, adepta a filosofia existencialista. E o que vem a ser certeiro na verdade, é a maneira como, de certa forma, criticou ideais religiosos a ponto de ter seu principal livro, "O segundo sexo", considerado agressivo pelo Vaticano.

Tudo o que era conservador, ainda mais os estereótipos femininos, como a "obrigatoriedade" do casamento e a necessidade da maternidade, era contrário às visões de Simone; ela que, excepcionalmente, guiou gerações de mulheres a fazerem o mesmo: se opor a tudo o que era socialmente imposto. 
 
Agora, mais um dos seus livros será publicado aqui no Brasil, através do Grupo Editorial Record. "As inseparáveis" é a obra inédita que traz uma autobiografia ficcional cuja importância para sua visão feminista é extremamente relevante e, através do livro, pode-se compreender como foi moldada: trata-se da relação de Simone de Beauvoir (no livro, sua personagem é Sylvie Lepage) com Élisabeth Lacoin, a Zaza (no livro, Andrée Gallard). O romance conta a história da amizade das duas, que haviam se conhecido durante a Primeira Guerra Mundial aos 9 anos de idade.
 
Perceber que a história é real e faz parte da vida de Simone pode sanar inúmeras dúvidas sobre a sua trajetória. No livro em questão, Zaza (ou Andrée) é uma garota que, ainda que imersa numa família burguesa extremamente religiosa, era ousada, espontânea e divertida. Faleceu precocemente, pouco antes dos 22 anos, porém sua influência e importância esteve marcada em Simone sempre. Ligeiramente apareceu em outras obras da autora, porém, em "As inseparáveis" teve seu destaque ao ser exposta como a figura pela qual Simone encantou-se desde os primórdios da vida. 
 
Assim como Simone, Zaza era pressionada pela rigidez da família e da sociedade a respeito das expectativas femininas e não conseguia adaptar-se naquele mesmo molde feito para todas as mulheres. Mas Beauvoir acreditava fielmente que Zaza era única e não apenas mais uma mulher que deveria ser obrigada a se casar, ter filhos e seguir aquela linha estereotipada de "doce" e "maternal". E, realmente, trata-se disto: a relação, a conexão entre ambas personalidades que agregou e muito na construção dos pensamentos filosóficos da francesa em questão.
 
O papel da personagem de Simone, Sylvie, é fazer-nos compreender a Andrée e assim o romance desenrola. Impossível não se questionar, aliás, que a vida sufocante de Zaza tenha trazido a Simone um tom crítico e revoltado sobre preceitos sociais. Então, aí mesmo, nesses anos com ela, tenha de fato se tornado a Simone de Beauvoir. 
 
Uma mulher autêntica que estava um passo à frente da sua época, Simone embarcou num relacionamento aberto com Sartre num período em que a monogamia era vista como padrão. Ambos bebiam da mesma fonte do existencialismo, sendo, assim, parceiros intelectuais também. De acordo com ela, a regressão do movimento feminista tempos após o lançamento de "O segundo sexo" era culpa da democracia burguesa e não só francesa, mas também de outros países. Ou seja, a supremacia do conservadorismo era uma ameaça à continuidade do feminismo e à emancipação das mulheres.
 
Guardar essas palavras nos tempos de hoje é fundamental, para que assim não nos percamos no meio do caminho sobre o porquê do feminismo existir e o que se deve quebrar para que possa haver estabilidade no movimento e igualdade de gênero. 
 
"No dia em que for possível à mulher o amor não em sua fraqueza, mas em sua força, não para escapar de si mesma, mas para se encontrar, não para se abater, mas para se afirmar. Naquele dia o amor se voltará para ela, assim como para o homem, a fonte de vida e não de perigo mortal. Enquanto isso, o amor representa em sua forma mais tocante a maldição que confina a mulher em seu universo feminino, mulher mutilada, insuficiente em si mesma."
A obra "As inseparáveis" está à venda nas principais lojas brasileiras, sobretudo de varejo, então fica aqui um convite para a leitura desta grandíssima intelectual do século XX.
 

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