17/04/2021 às 19h25min - Atualizada em 17/04/2021 às 19h06min

Série “Mulheres na Literatura" – Entrevista com Dauana Vale

"Trabalho no âmbito da inclusão, da chamada à leitura, do acesso ao livro"

Talyta Brito - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Agradecemos à escritora e psicóloga Dauana Vale pela participação na série "Mulheres na Literatura"
Foto: Dauana Vale | Reprodução: Arquivo pessoal
Há mágicos que fazem pessoas desaparecer, mas há pessoas que fazem magia com as palavras. A esses seres a humanidade intitulou de escritores. É bem verdade que, por um tempo, devido ao machismo, algumas mulheres pertencentes a esse grupo ficaram no anonimato, como o caso das irmãs Brontë.

As autoras que atualmente são consideradas as maiores da língua inglesa iniciaram a carreira usando pseudônimos – nomes falsos – para evitar o preconceito. Felizmente esse quadro se reverteu, mas ainda hoje muitos são os desafios encontrados por aquelas que decidem se aventurar pelo universo encantado das letras.

Conversamos com Dauana Vale, escritora, psicóloga, mestre em Psicologia e pesquisadora. Possui contos nas coletâneas "Farol" (Moinhos, 2017); "Quase nome" (Labrador, 2018) e "Limiar" (Chiado, 2019). Foi premiada pelo Mais Paic (2018) com o juvenil "Quinamuiú".

É coautora da coletânea de contos "O castiçal, a escrivaninha, a cadeira e o rascunho", premiada pelo Ministério da Cultura (2018). Participa do LAEPCUS – Laboratório de estudos sobre psicanálise, cultura e subjetividade, no Programa de Pós-graduação/UNIFOR. Dedica-se ao estudo da narrativa para crianças e jovens, de onde surgiu seu atual trabalho de pesquisa e de incentivo à leitura compartilhada, o Entrelinhas, para compreender mais sobre sua experiência nesse campo. 
 
Talyta Brito Como você desenvolveu o gosto pela escrita?
 
Dauana Vale Antes de mais nada, preciso dizer que meus pais são ávidos leitores e que, na minha infância, papai era livreiro e mamãe, professora. Ambos também possuíam o hábito da caderneta, assim como meu avô Raimundo, que era um exímio contador de histórias. Cresci banhada pela palavra narrada e escrita. Costumo dizer que a escrita literária não foi bem uma escolha, lembro de ficcionar desde muito cedo, foram inúmeros diários que, olhando de agora, eram mais contos que relatos do cotidiano. E, após anos de análise, posso dizer que inventar histórias foi pra mim uma fuga, me ajudou a sustentar o real quando pensei que não conseguiria. Quando compreendi o lugar do meu desejo em escrever literatura, de destinar meu texto a outras pessoas leitoras, busquei cursos, oficinas de escrita, ingressei num coletivo de escritoras e escritores. Foi um mergulho intenso. 
 
TB Quem são suas referências dentro do universo literário?
 
DV Tenho umas musas literárias: Carola Saavedra, Ana Martins Marques, Ana Cristina Cesar, Silvina Ocampo. E há um autor em especial, Ítalo Calvino, que foi um divisor de águas na minha formação leitora. E sou extremamente influenciada pelo novo, me interesso muito pelo que diz o tempo presente, a jovem poeta, o autor ainda não publicado, a prosa de estreia, posso citar aqui: Patrícia Pinheiro, Renata Belmonte, Mika Andrade, Aline Bei. 
 
TB Grandes nomes da literatura, como Stephen King, defendem que o segredo da escrita é a prática diária. Você concorda com essa linha de pensamento? 
 
DV Na minha opinião, não há uma única maneira de ser escritora. Cada uma encontra no seu cotidiano e limitações subjetivas o modo de exercer o ofício. No meu caso, para além da escrita dos meus textos, presto serviço como escritora para empresas, participo de editais, concursos, coletivos, então, o exercício da escrita de ficção tornou-se diário e creio que isso me ajudou a encontrar o que chamamos de estilo literário. Ao atravessar terrenos, encontrei minha zona de conforto. 
 
TB Quais conselhos você daria para escritores iniciantes?
 
DV Eu diria o que ouvi de grandes escritores e profissionais da cadeia do livro: não tenha pressa com a literatura. Não anseie pela publicação, mas pelo tratamento do original. E superindico as oficinas literárias com a Socorro Acioli, Gustavo Pacheco, Marcelino Freire, Vanessa Ferrari, Peter O’Sagae. Estudar entre os pares é um grande aprendizado. Para mim, foi um divisor de águas. 
 
TB É possível viver de literatura no Brasil?
 
DV É. Mas há de ser algo muito bem planejado, organizado e certeiro. Agora, de fato, são raríssimos os casos de escritores que vivem exclusivamente da escrita. A grande maioria adquire renda de trabalhos outros.
 
TB Muitos creem que a escrita é um dom no qual poucos seres humanos foram agraciados. Você acredita que a escrita é um talento que já nasce com o indivíduo ou uma técnica que pode ser aprendida por todos? 
 
DV Não acredito em dom, creio em história de vida e escolhas. Escrever ficção não provém de uma luz divina que recai sobre determinados seres, é uma condição subjetiva, está relacionada à estrutura psíquica, à arte, à criatividade. Em muitos casos, quando o sujeito não trabalha essa demanda, ser um artista pode ser fonte de muito sofrimento. E qualquer pessoa pode escrever, mas escrever literatura e alcançar leitores provém de um duro trabalho que nem todos sustentam. Não se trata apenas de talento ou técnica, mas de um olhar amplo e desprendido de sua própria escrita.
 
TB Na escrita você transita entre a produção de roteiros para documentários, contos e livros. Quais dessas linguagens você considera mais desafiadora? 
 
DV As narrativas longas são as mais desafiadoras para mim. O fôlego pra sustentar os diálogos de um juvenil, por exemplo, é algo que ainda estou aprendendo.
 
TB A obra “O tempo Inhamuns – um relato etnográfico”, discorre sobre a relação de sertanejos residentes em Tauá, sertão do Ceará, com o tempo cronológico. Como se deu a escolha do tema? Quanto tempo durou a produção? 
 
DV “O tempo Inhamuns” é o resultado da minha pesquisa de mestrado. Publiquei o livro e o documentário com o mesmo título. A escolha pelo tema se deu com a colaboração do meu orientador, o professor Clerton Martins. Ele que me apontou a possibilidade de descentralizar o olhar cosmopolita e desenvolver algo no sertão, que eu voltasse o olhar para o meu lugar de origem. Ao longo das nossas conversas chegamos ao que eu realmente iria investigar: como os sujeitos da zona rural da região dos Inhamuns lidam com as temporalidades cotidianas. Foi interessante estar na minha terra com olhos de pesquisadora e de roteirista. Sensação de entrar em casa pela primeira vez. A produção do documentário durou cerca de seis meses. 
 
TB Diferente da literatura ficcional, a obra etnográfica exige a ida a campo. Como foi essa experiência? Há algum episódio marcante que você possa nos contar? 
 
DV Eu não tinha a real noção do era a pesquisa etnográfica até entrar em campo. Achei que poderia sair ilesa, que era só umas entrevistas... Houve episódios que me marcaram profundamente, como chegar num casa para ficar por dois dias e não ser bem vinda pela família do colaborador da pesquisa; dormir numa casa afastada da vila, onde não havia energia elétrica foi dificílimo pra mim: morro de medo do escuro e de fantasmas (o riso é livre!); descobrir que eu estava em uma comunidade foco do inseto transmissor da Doença de Chagas. E mais ainda, revisitar a terra e histórias de vida que perpassaram a minha infância, que foi marcada pela luta pelos direitos de trabalhadores e trabalhadoras rurais. Ainda bem que o relato da etnografia é na primeira pessoa e me permitiu escrever o que senti.
 
TB Você é uma pessoa que vem da academia, ambiente que tem uma linguagem rebuscada. Houve um cuidado quanto a esse aspecto na escrita do seu livro? No intuito de facilitar a compreensão pelos diferentes públicos?
 
DV Escrevo para que as pessoas leiam. Sintam-se tocadas. Pessoas diversas. Quando houve a oportunidade de publicar “O tempo Inhamuns” pensei nos colaboradores da pesquisa, nos familiares, que a escrita fosse uma espécie de agradecimento. Imagine que dedicar dois anos da minha vida a uma pesquisa e o resultado ser um relato rebuscado para poucos acessarem! Isso não faria sentido para mim. Trabalho no âmbito da inclusão, da chamada à leitura, do acesso ao livro. 
 
TB Há algum tema que você queira escrever? Você tem algum projeto em andamento? 
 
DV No momento tenho textos infantis e juvenis buscando casas. Colaboro com produções para os clubes de leitura Quindim e Pacote de textos. E me dedico à escrita de contos que devem compor um novo original, sem data - nem pressa - para publicação. 
 
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