23/04/2021 às 11h21min - Atualizada em 23/04/2021 às 10h49min

Crônica: vivenciando o luto no isolamento social

A Covid-19 tem causado perdas por todo o mundo, e como se não bastasse, o isolamento torna a experiência ainda mais desafiadora

Hellen Almeida - Editado por Andrieli Torres
Foto: Ilustração do luto por COVID-19/ Reprodução: Portal MS
Devo admitir, mesmo no auge dos meus 10 anos (não sou uma criança, mas sim uma moça! Odeio quando me chamam de criança), há coisas que ainda não compreendo muito bem e entre elas está o luto. Mas penso que não posso me culpar, essa é a minha primeira experiência com esse sentimento e percebo que mesmo meus pais e irmã - que já são adultos - têm dificuldades de lidar com uma perda.

Acabei percebendo que não me apresentei (minha mãe diz que moças são educadas, e que não se apresentar para as pessoas é falta de educação) então é melhor eu me apresentar: prazer, me chamo Lucinda Fernandes – mas pode me chamar de Lucy - tenho 10 anos e estou no 5º ano do fundamental.

Minha irmã mais velha, Clara, já escreveu para você algumas vezes, e ela sempre diz que escrever ajuda ela a compreender as coisas mais facilmente, então resolvi fazer o mesmo (sei que minha irmã já está na faculdade, mas vou tentar escrever tão bem quanto ela).

A perda de um familiar.

Meu avô materno - chamavam ele de “Seu Fred”, mas para mim sempre foi vô - faleceu essa semana na madrugada fria dessa segunda-feira, ele já estava internado a uns dias, pegou Covid no trabalho (ele era lavrador de terras, sempre gostei de ir trabalhar com ele, faça chuva ou sol, sempre me tratava como um moça e dizia que moças ajudam seus avôs).

Acordei com o toque do celular e o choro de mamãe (ela se chama Anna Fernandes, tem 40 anos e é arquiteta), nunca vira mamãe chorar dessa forma, tinha tanto desespero na sua voz que tive medo de ir até ela, mas fui mesmo assim. Ao entrar, vi que ela estava com os braços abraçando as pernas no chão do quarto, soluçando muito, ao levantar o rosto, vi apenas lágrimas e tristeza nos seus olhos (como fiquei quando não me aceitaram no time de futebol, mas muito pior), meu papai (Caio Fernandes, tem 45 anos e é médico), estava abraçando minha mãe como se ela fosse mais frágil do que nosso vaso de porcelana (que é muito frágil, já quebrei ele algumas vezes jogando bola em casa).

E minha irmã não saiu do quarto, dei uma espiada e vi que ela também estava chorando, com seus bichinhos de pelúcia cobrindo seu rosto em uma tentativa falha de não parecer estar em lágrimas. Quando tentei entrar em seu quarto para dar um abraço (ela sempre me abraça quando estou triste e funciona, então pensei em fazer o mesmo), ela levantou em um pulo e trancou a porta do quarto, pedindo em meio aos soluços que ficasse sozinha.
 
Fui para o meu quarto e abracei uma boneca de pano que meu avô fizera para mim da última vez que fomos visitar ele na roça (antes desse vírus chegar), estava mais confusa do que agora, mas meu pai veio até o meu quarto e disse “Lucy, seu avô agora está descansando junto da sua avó, tenho certeza que eles estão muito felizes, mas agora temos que cuidar da sua mãe e de sua irmã, elas estão muito tristes… você já é uma moça, não? Então pode ajudar o papai a cuidar delas?”, disse que sim e  imediatamente dei-lhe um abraço, sei que ele gostava de pescar com o vovô.

 As diferentes formas de vivenciar o luto

Terça-feira foi um dia estranho, não sei explicar direito, todos ainda estavam com os olhos inchados e o nariz vermelho da madrugada anterior e eu sentia algo pesado no ar, como quando estou animada para brincar lá fora e começa a chover, mas bem pior...

Percebi que cada um lida com esse tal de luto de formas diferentes: meu pai tirou o dia de folga para cuidar da gente, mas sempre tinha que resolver algo no trabalho pelo celular, (falam que médico nunca para, né?). Mas mesmo assim estava sempre atento e pronto para ajudar, principalmente a mamãe, que passou o dia todo na cama como se estivesse doente, já não chorava daquela maneira assustadora, mas como quando nosso gatinho se machucou, baixinho: mas constante, ficou em chamada de vídeo com suas irmãs (minhas tias Antônia e Anastácia), dava para ver que elas também choravam...

Fui ao quarto de Clara novamente, dessa vez a porta estava aberta, diferente de nossa mãe ela quase parecia normal, estava em frente ao seu computador escrevendo essa tal de “pauta” que ela tanto fala e nunca tem fim, mas percebi que às vezes parava para chorar um pouco. Ao me ver dessa vez, me puxou para um abraço e pediu desculpas por ontem, eu retribui o abraço e disse: “posso ser mais nova, mas sou sua irmã e irmãs devem cuidar uma das outras, é o que o vô sempre me dizia” dessa vez ela riu e me abraçou mais forte, mas logo voltou a chorar quando disse que me amava. Fiquei tão confusa: como pode alguém rir e chorar em simultâneo?!

Perguntei isso ao papai quando trouxe meu lanche enquanto brincava com meus carrinhos no quarto, ele disse: “O luto é realmente algo confuso filhinha, uma hora você chora, pois, não verá aquela pessoa novamente, em outro momento você ri por se lembrar dos bons momentos que teve com ela, e por isso mesmo volta a chorar, é estranho, eu sei, mas é assim”, não entendi muito bem, mas agradeci e voltei minha atenção para o lanche, ainda tentando entender como funciona esse tal de luto que tanto falam.

Os impedimentos da (COVID-19) para lidar com a perda

Já na quarta-feira a mamãe parecia um pouco melhor, ao menos conseguiu sair da cama por um tempo, limpar umas coisas e aceitar um abraço meu, mas aí ela encontrou um brinquedo que o vovô fez para ela quando criança e voltou para a cama e a chorar como um gatinho.

Ouvi ela dizer enquanto assoava o nariz: “Oh! Céus, essa pandemia irá me impedir até de ver meu pai pela última vez?! Graças a esse bendito vírus, ele não terá o velório que merece... Que injustiça, meu Deus!” Adivinhem como fiquei? Aham, confusa! Já estava cansada de tanta confusão na minha cabeça e fui até Clara – que já parecia melhor do que ontem, chorava pouco - para que ela me explicasse de uma vez tudo isso de luto e velório.

Ela me explicou que devido ao Covid não podíamos viajar até a roça para dizer adeus ao vovô, pois íamos acabar nos aglomerando com nossos primos e que seria um risco, então tínhamos que nos despedir por vídeo-chamada. Também me explicou que não poder estar com as tias, torna as coisas mais difíceis para a mamãe: “tudo o que queremos nesse momento é abraçar aqueles que amamos, mas infelizmente não podemos” ela me disse.
Na quinta-feira acordei determinada a fazer a mamãe se sentir melhor: fiz um café da manhã do jeitinho que ela gosta (pão fatiado com geleia de morango, queijo e chá gelado) e levei para ela na cama, dei um abraço bem apertado e assistimos filmes que ela gosta (é o que ela sempre faz quando fico triste), e pela primeira vez na semana, ouvi ela rir. Clara, curiosa logo se juntou a nós na cama e ficamos lá brincando o dia todo, meu plano funcionou! Mamãe chorou menos e riu mais.

Sobre o luto, Lucinda conclui

Estou longe de entender esse tal de luto, claro que estou triste por perder o vovô, mas quando percebo que vou chorar, resolvo ir brincar com os brinquedos de madeira que ele fazia para mim, sinto que ele está por perto quando faço isso e então fico feliz. Esse tal de luto é estranho, talvez eu nunca o entenda, mas quero me apegar as boas lembranças com meu avô e pensar que ele está feliz com a vovó lá no céu, como papai disse.

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