25/04/2021 às 00h53min - Atualizada em 25/04/2021 às 00h52min

A desinformação sobre o Ramadan no Instagram

"intolerância religiosa é a própria contradição"- Anamari

Brenda Freire - Editado por Andrieli Torres
Fonte/Reprodução: Olhar Digital/ Comibam Internacional
Islamismo. Derivado de Islã, significa submissão, obediência a Deus (Allah em árabe). Religião monoteísta fundada pelo profeta Maomé, tem como base o livro sagrado para os mulçumanos: o Corão. Esta obra foi revelada pelo profeta, no nono mês do calendário islâmico, denominado de Ramadã, o qual, no ano gregoico de 2021, ganhou maior visibilidade, após ter sido homenageado em forma de stickers (figurinhas) no story do Instagram com a representação de uma mesquita, uma lua crescente com estrela e um prato de chá com tâmaras.

Em entrevista com o GQ Brasil, Ali Zoghbi, vice-presidente da Federação das Associações Muçulmanas do Brasil (FAMBRAS), explica que o Ramadan é a prática obrigatória de um dos cinco pilares do islamismo: o jejum. Nesse período, é preciso não apenas se abster de alimentos do nascer ao pôr do sol, mas também de práticas mal intencionadas. Para eles, essa época deve ser repleta de boas atitudes, com ética, harmonia, orações e caridade.

Algumas pessoas como mulheres grávidas, doentes, crianças e viajantes não podem cumprir as determinações, mas há exceção através da substituição por meio de doações para grupos em vulnerabilidade social ou pela prática do jejum em outro momento. Mas, onde estão retratadas essas características na nova ferramenta de engajamento do Instagram? Será que, de fato os usuários compreenderam a funcionalidade delas no sentido religioso, ou simplesmente estão utilizando-as para autopromoção? Bem, é preciso pontuar alguns aspectos notórios na nossa sociedade digital, que evidenciam como a reprodução e compartilhamento de algumas mídias da internet podem interferir no desconhecimento de tal uso.

A exemplo disso, temos essas figurinhas que são referências a um mês sagrado para os mulçumanos, que foram criadas com o objetivo de prestigiar esse marco, mas estão sendo utilizadas com outra proposta pelos internautas: engajar e divulgar empresas, influencers etc.

A questão, é que talvez, as pessoas que publicam em seus stories com algum dos stickers, ou não sabe do que se trata, ou são as mesmas que associam o islamismo ao terrorismo. Hyatt Omar, influenciadora digital de origem palestina, utilizou o próprio aplicativo para explicar essa problemática, contando que não há problema no uso da ferramenta, mas na banalização dela: "[...] Tu entra no destaque e tem umas coisas muito aleatórias e que não tem nada relacionado ao Ramadan. [...] Tem gente colocando coisa de sexy shop [...].

O mais irônico é que ou essas pessoas não conhecem o islamismo, ou realmente falam mal da religião e criticam até não poder mais. Mas na hora de se aproveitar e ganhar engajamento em cima disso, usam até não poder mais", afirma. O Brasil, é um dos países que mais praticam intolerância religiosa no mundo e, de acordo com o censo demográfico do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2010, abrange cerca de 35 mil adeptos ao Islã. Apesar disso, mulçumanos são alvo de críticas, preconceito e violência. São apedrejados, desrespeitados e julgados por simplesmente representarem sua crença.

A situação que coloca o Islamismo como terrorismo e, consequentemente, os mulçumanos como terroristas, envolve uma construção social hierárquica de valores norteados pelo fundamentalismo religioso: que determina a execução de tudo que está descrito no livro sagrado da religião seguida pelo indivíduo. De acordo com o site Politize, essa atribuição foi inserida nos Estados Unidos, no início do século 20, desde que protestantes aplicaram a ideia de que a fé cristã está baseada na crença de todos os ensinamentos da Bíblia.

Tempos depois, aconteceu o ataque do 11 de setembro, em 2001, pelos fundamentalistas sunitas Al Qaeda, que gerou essa 'bola de neve' direcionada ao mito de que todo terrorista é mulçumano e vice-versa. No entanto, o fundamentalismo não está incluso no islamismo, revelando que uma coisa, nada tem a ver com a outra, pois a prática de atos violentos não são atribuições da religião Islã. Assim afirma o assessor de comunicação da Sociedade Beneficente Muçulmana do Rio de Janeiro, Fernando Celino. Segundo ele, a palavra “islã” vem do árabe “salam”, é o mesmo que “paz”. Já a saudação islâmica “salamaleico” significa “que a paz esteja com você”.

E como diz a poetiza Anamari, quanto ao respeito às religiões em seu 'Manifesto': "[...] Intolerância religiosa é a própria contradição." Salamaleico!

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