30/04/2021 às 09h57min - Atualizada em 30/04/2021 às 09h28min

Quarentena felina

"Para mim, tudo ficou melhor desde que ela passou a ficar em casa, posso pedir o que eu quiser a qualquer hora"

Ana Paula Alves - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto/Reprodução: Google

Já faz algum tempo que minha humana tem ficado mais em casa.

Antes, ela saia bem cedo, me deixava sozinho aqui quase o dia todo. Eu contava as horas esperando ela chegar e, quando ouvia o som da chave destrancando a porta, saia correndo de onde quer que eu estivesse para recebê-la e pedir carinho. Ela então falava comigo, com aquela voz ridícula que ela faz muitas vezes, e passava os dedos desde minha cabeça até minhas costas. Eu sempre ronronava em resposta.

Mas agora ela quase não sai mais. Quando sai, não demora a voltar. Eu não tenho mais que passar o dia sozinho, o que me deixa muito feliz! Apesar da humana ser irritante às vezes, eu gosto de ter a presença reconfortante dela. Assim criei uma nova rotina.

Como minha humana acorda mais tarde, também tomo a liberdade de dormir algumas horas a mais. Porém, estou sempre alerta para o momento em que ela se levanta da cama. Eu a acompanho desde o primeiro passo que ela dá. Ela anda pela casa inteira abrindo as janelas, deixando o sol entrar, e então vai fazer aquela gororoba que chama de comida. Eu deito perto dela, esperando que ela termine de comer.

Quando termina, eu a sigo para o banheiro. Os humanos são meio nojentos, precisam de um cômodo inteiro para se limpar, não são como nós, que nos lambemos com frequência para estarmos sempre limpinhos.

Enfim, quando sai do banheiro, eu a acompanho de volta para o quarto, onde ela liga aquela caixa preta barulhenta e luminosa a qual vai dedicar boa parte do dia. Eu fico sempre por perto, peço carinho de hora em hora e fico de olho nela. Às vezes, ando na frente da caixa preta, só para ela parar um pouco de olhar aquela coisa e prestar atenção em mim. E, óbvio, também tiro alguns cochilos, ou na cama, ou em seu colo.

Quando não está mexendo naquela caixa, a humana coloca toda a atenção dela sobre mim. Ela tem brincado comigo todos os dias, por bastante tempo. Só paramos quando eu me canso e peço por uma pausa. Quando não brincamos, ela me faz uma sessão de carinhos, massageia minha cabeça, meu peito, minhas costas e, quando eu permito, vai até a minha barriga.

E isso se repete quase todos os dias. Alguns dias, ao invés de ligar a caixa preta do quarto, a humana liga a maior que está na sala. Ela passa horas deitada no sofá olhando aquilo. Eu tomo a liberdade de deitar em cima dela e pedir carinho enquanto ela faz isso. 

Os humanos são estranhos com essa fixação com caixas pretas luminosas, mas posso aceitar essa estranheza se eu receber atenção e comida. Para mim, tudo ficou melhor desde que ela passou a ficar em casa, posso pedir o que eu quiser a qualquer hora, seja uma coçadinha no queixo ou um pote de ração cheio. Não preciso mais ficar sozinho aqui dentro.

A única coisa que não gosto é que, nas poucas vezes em que ela sai, quando retorna, não toca em mim de imediato como antes. Não importa o quanto eu mie e me esfregue em suas pernas. Ela diz que não pode passar as mãos em mim, e só o faz depois que as lava e passa aquele produto com cheiro forte demais, isso me deixa meio frustrado. Mas ao menos ela ainda fala comigo com aquela voz ridícula que eu adoro.
 


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