02/06/2019 às 17h56min - Atualizada em 02/06/2019 às 17h56min

[Crônica] Salve o amanhã

Cecile Mendonça - Editado por Millena Brito
O ano é 2060. Sou casado há 33 anos e tenho dois filhos lindos. Um deles tem 26. Já está casado e tem um filho de 2 anos. O outro tem 20 anos, ou melhor, teria. A verdade é que eu o guardo apenas em meu coração. Ele se foi aos 18 anos, enquanto lutava nas ruas por liberdade e igualdade.
Nossa realidade é difícil. Vivemos em um país onde questionar é crime. Liberdade de expressão? Eu nem sei se podemos falar essa palavra em voz alta por aqui. O pior de tudo é que eu, ainda jovem, em meio a tantas contradições, eu sempre preferi acreditar que nada é insanável. Possuía a mais verdadeira esperança de que os meus filhos e netos só saberiam o que é ditadura e corrupção por meio das aulas e dos livros de História. Engano meu.

Me lembro bem de quando foi eleita a primeira presidente mulher no Brasil. Lembro dos tempos de operação Lava Jato. Lembro do impeachment, sem base legal, que ocorreu com essa mesma presidente. Mas, um dos fatos que mais me chamou atenção foi em 2018. Eu tinha apenas 17 anos quando vi o ex-presidente Lula ser preso. Muitos viram tal acontecimento como um fato histórico. Já eu, achei histórico o Lula ter sido preso e o Temer, Aécio e Renan Calheiros não. Nunca acreditei que a soltura do Lula resolveria o problema. Presumia que tal fato só pode ser resolvido com a generalização da justiça para todos os brasileiros ricos e poderosos. Mas, enfim, talvez isso não tenha sido o pior. Para mim, nada superou as eleições de 2018. Eu vi com os meus próprios olhos toda uma população sendo tomada por uma avalanche de notícias falsas, mais conhecidas como fake news, na época.

E foi juntando isso com o conservadorismo e preconceito já instalados na sociedade, que se gerou uma verdadeira catástrofe. O país nunca mais foi o mesmo. Negros morrem à toa. Afinal, “racismo é algo raro no Brasil”, como dizia o presidente eleito. Adolescentes tinham cada vez mais doenças sexualmente transmissíveis. Afinal, falar sobre sexo só iria despertar a curiosidade para que eles o experimentassem mais cedo, não é mesmo? Transsexuais foram mortos diante dos meus olhos. Inclusive, ganhamos a fama de ser o país que mais mata transsexuais. Incrivelmente conseguimos essa proeza sendo um estado laico. Que irônico. No papel me dizia que tinha liberdade de ir e vir, mas na realidade não era bem assim. De fato, eu podia ir e vir – só não me era garantido voltar com vida.

Assim, cresci. Namorei. Noivei. Casei. Minha pobre mãe, coitada… aos 70 ainda estava trabalhando. Trabalhou, trabalhou e trabalhou mais um pouco. Faltou pouco, mas ela não conseguiu se aposentar antes de falecer. Triste, segui em frente. Tive filhos. Eles também cresceram. Não tiveram Sociologia, Filosofia ou História da Arte. Aprenderam História ao menos – pena que só era passado uma visão delirante da História, em que ditaduras militares eram bem vistas e o nazismo nunca existiu.

Agora, em novembro de 2045, completa mais uma década de ditadura. Estou em total desespero. As torturas só aumentam e eu me sinto cada vez mais ameaçado e injustiçado desde que perdi meu filho mais novo em um protesto organizado por alguns jovens que vão de encontro a esse regime político autoritário. Aquele menino de 17 anos crédulo em uma sociedade igualitária morreu ali, no instante em que eu vi meu filho sangrando nos braços de minha esposa, que chorava desconsoladamente.

Agora, com os salários amolgados e uma distância adimensional entre as classes baixa e alta, decepcionado e incrédulo, sigo vivendo, ou melhor, sobrevivendo, numa falsa ilusão de milagre econômico.
Gostaria de terminar essa carta a vocês, brasileiros de 2019, implorando para que vocês reflitam sobre quem colocaram no poder em seu ano passado. Por favor, lutem. A cada decisão mirabolante desse governo, vão às ruas. Ainda que vocês acreditem que não vai adiantar, não se calem.
Se vai fazer diferença este pedido de socorro? Não sei. Mas, talvez terei meu filho de volta se você começar a questionar hoje. Esperança é a palavra. Sentimento de culpa é o que sinto. Eu poderia ter lutado mais, me importado mais, exigido mais... Mas ainda há esperança. A esperança é você.

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