28/05/2021 às 11h47min - Atualizada em 28/05/2021 às 11h38min

Quando a literatura começou a se resumir em caixas de compras?

O unboxing de hoje é sobre como o consumo de livros tem ganhado mais importância do que a própria leitura

Larissa Bispo - Editado por Talyta Brito
Todo leitor sonha em ter uma estante cheia de livros e construir a própria biblioteca particular. Quantos personagens, sejam em filmes, séries e até mesmo livros, não inspiraram esse ideal literário-fantástico? Neles, no entanto, não há caixas de compras chegando e sendo abertas, tampouco pilhas delas; só o ato de olhar para a estante, escolher um livro e lê-lo. Afinal, ler não deveria ser sobre ler?Parece uma pergunta óbvia, mas a verdade é que vem se disseminando cada vez mais uma cultura de consumismo literário desenfreado, onde o ato de comprar livros se transforma em um evento maior do a leitura em si. Essa celebração ao consumismo até poderia ser, de fato, celebrado diante da difícil relação do Brasil com a leitura, mas nos faz refletir sobre como essa prática de encher estantes está se tornando em algo mais importante que ler. 
 
O ponto de discussão que esse assunto traz não entra no mérito do ato de comprar, mas das suas motivações somadas ao peso de qual lado da balança tem sido mais significativo para essa escolha. Esse ciclo de comprar, ver o livro chegar e deixar na estante não demanda muitas dificuldades, mas nas entrelinhas desse costume está o que o entusiasmo ou a felicidade momentânea oculta: o depois. Depois esse que se perde no tempo.Luana Souza, em seu canal no YouTube A garota que Bebeu a Lua, conta em um vídeo sobre o seu processo de consumismo literário até o momento em que parou para refletir o que a sua estante lotada de livros – com muitos deles distribuídos por sua casa – significava para ela. “Muitos desses livros foram comprados no verdadeiramente impulso porque eu pensava que em algum dia eu iria querer ler esses livros, ou porque estava na promoção. (...) Eu gastei muito dinheiro com livro que não me agregava em nada”, ela diz. 
 
Somos constantemente influenciados por essa ideia, muita das vezes até incitados a comprar apenas porque todos estão comprando; não há uma motivação concreta e relevante, só o desejo de surfar na onda do famoso hype – ou seja, aquilo que está dando o que falar. Aquele encanto de esperar ansiosamente um livro que se comprou porque decididamente quer lê-lo cedeu o lugar a simples vitrine de exibição. “O meme de ‘eu não leio, só coleciono livros’ foi muito real”, como ressaltou Luana. De novo, não é sobre comprar, tampouco colecionar. É sobre a linha tênue entre esse consumismo em uma escala maior do que o querer ler – que deveria ser mais importante. É como colecionar sapatos e nunca usar nenhum deles. E ler é incrível e mágico demais para se perder nesse consumismo.
 
Apesar de ser uma discussão muito subjetiva, é possível fazer uma reflexão sobre qual é o valor que vem agregando para esse eu-leitor. Aquela estante lotada de livros que nem mesmo você sabe por que comprou ou olhar para essa mesma estante e sentir reconhecimento, memórias e significado? “Livro só é livro mesmo quando você está lendo ele. Se você não está lendo ele, se você está deixando ele guardado, ele é só um bibelô, só um objeto de decoração”, finaliza Luana, em um vídeo no IGTV.

 
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