21/06/2021 às 08h08min - Atualizada em 21/06/2021 às 08h26min

Cultura de herdar roupas: uma prática que traz inúmeros benefícios

Com a moda cada vez mais consciente herdar roupas é uma das formas de contribuir com o meio ambiente

Eduarda Lontra - Editado por Larissa Barros
Reprodução/Pexels
Quem nunca viu um filme ou uma série em que algum personagem herda algo mega especial de algum ente querido? Acontece que, nas tramas, a herança costuma ser algo de grande valor financeiro. Porém, essa cultura de herdar vai muito além de jóias e terrenos, em algumas famílias existe o hábito de guardar vestimentas para repassá-las aos futuros membros. Afinal, as roupas têm o poder de contar histórias e trazer lembranças.

Herdar peças dos pais, dos irmãos e avós é uma forma de aumentar o tempo de vida de inúmeras vestes, além de fazer bem ao meio ambiente. A trabalhadora autônoma, Celia Braga, optou por guardar algumas peças de roupa do enxoval após ter sua primogênita, mesmo não pensando em ter uma segunda filha. De acordo com ela, o que levou a essa decisão foi o hábito de guardar peças em bom estado, tanto para doá-las quanto para usar em outro momento.
 
“Sempre tive isso de guardar as coisas, então guardei algumas roupinhas de bebê da minha filha, algumas por valor sentimental, outras porque sabia que uma hora poderiam servir para alguém. Crianças crescem muito rápido e tiveram peças que mal deu tempo de usar, então decidi guardá-las. Acabou que depois de 14 anos eu tive uma segunda filha, e não é que algumas daquelas roupinhas foram usadas? Foi ótimo porque economizei e aproveitei mais as peça”, comentou Celia.
 
A cultura desse repasse de roupas existe há anos, mas tem quem ache que usar peças que já foram de algum familiar ou amigo seja algo ruim. Para a administradora, Thalia Borges, isso não era um problema. 
“Nunca tive vergonha de usar roupas herdadas, aliás, quando alguém me falava que a roupa era bonita eu já logo dizia que tinha ganhado de alguém. Desde pequena eu herdei roupas das minhas primas, tias ou de alguém conhecido. Quando não era de alguém conhecido, era de alguma pessoa que deu para um familiar meu e não tinha servido, e eles me passavam”, explicou Thalia.
 
O mesmo costume fez parte da vida da advogada Mariana Eloise. Ela afirma que, as pessoas devem começar a normalizar esse costume, principalmente, quando se sabe que muitas pessoas não têm o que vestir. E na família da Mariana a herança sempre esteve presente. Com duas irmãs mais velhas, ela diz que possui blusas de 1998.

 “Eu sempre herdei roupas das minhas primas, vizinhas e das minhas irmãs mais velhas. Até hoje eu tenho muitas peças que foram das minhas irmãs, algumas tem aproximadamente 20 anos, e todas se encontram em ótimo estado”, frisou a advogada.
 
Para muitas pessoas as roupas são mais que um tecido, uma marca ou uma tendência, ela é afeto. Celia conta que quando engravidou ganhou uma manta de presente de uma amiga, mas o que ela não esperava é que a peça se tornaria uma memória afetiva de sua família.
“Ganhei uma manta de uma amiga quando estava grávida e usei muito, como ela estava boa eu guardei, e acabou que depois a emprestei para as minhas duas irmãs na época que tiveram seus filhos. Cheguei a emprestá-la para uma amiga, e 14 anos depois também a usei com a minha filha mais nova. Ao todo, essa manta serviu para 5 crianças, e eu continuo guardando até hoje, pois sei que ela servirá para mais pessoas, além dela ter se tornado uma relíquia da nossa família”, destacou Celia.
 
As boas lembranças com peças familiares também marcaram a vida da engenheira civil, Ingrid Cidade. Diferente de algumas pessoas, ela afirma que nunca teve vergonha de fazer parte desse costume. “Quando eu era mais nova ganhava muitas roupas da minha tia e da minha mãe de quando elas eram mais novas, então nunca tive vergonha de usar essas roupas, eu adorava ganhar as blusinhas que foram da época delas”, comentou Ingrid. 

Com esse forte poder de marcar momentos e diferentes épocas que as roupas possuem, conseguimos ligar polainas e leggings rapidamente aos anos 80, por exemplo. O mesmo ocorre com muitas vestimentas.
 
Apesar disso, o tempo no qual roupas antigas eram vistas como datadas passou, atualmente, elas se tornaram vintages e são super cobiçadas para ser combinadas com peças atuais. Além disso, a consciência das pessoas a respeito dos impactos da indústria têxtil ao planeta está cada vez mais sendo debatida. Consequentemente, os brechós, bazares, o reaproveitamento de retalhos, a transformação de peças já existentes em outras novas (upcycling) estão cada vez mais se tornando uma prática da população.

Tudo indica que, a cultura de herdar roupas pode se fortalecer ainda mais nas próximas gerações e como essa prática possui inúmeros benefícios, reunimos alguns motivos para herdar ou repassar suas peças de roupas.

O meio ambiente sofre com os impactos da indústria têxtil
Segundo dados divulgados pela Organização das Nações Unidas (ONU) Meio Ambiente, a indústria têxtil emprega mais de 75 milhões de pessoas no mundo, e é avaliada em cerca de US$ 2,4 trilhões. Apesar de gerar muitos empregos e ter grandes ganhos, o setor produz muita poluição ao planeta.
 
Estima-se que a indústria têxtil é uma das cinco indústrias que mais poluem o meio ambiente e seus impactos podem ser vistos em diferentes aspectos. O relatório da entidade mostra que o setor é o segundo que mais consome água, além de produzir 20% das águas residuais, aquelas que possuem impurezas que advêm do descarte de diferentes origens. A indústria têxtil também é responsável por emitir entre 8% a 10% de gases-estufa, e liberar, aproximadamente, 500 mil toneladas de microfibras sintéticas aos oceanos por ano.  
 
Ainda segundo os dados da ONU Meio Ambiente, o dinheiro que se perde com o descarte de roupas - que vão parar em lixões e aterros sanitários - aproxima-se de US$ 500 bilhões ao ano. Apesar disso, o fator mais assustador é que essas peças poderiam ser apenas recicladas. Além disso, ao ano, a indústria têxtil gasta cerca de 93 trilhões de litros de água, para se ter uma ideia da dimensão do gasto a fabricação de uma calça jeans consome 10 mil litros de água, um par de sapatos precisa de 8 mil litros e uma blusa básica quase 3 mil litros, segundo dados do Fashion Revolution.   
 
Os dados são maiores se avaliarmos a produção de algodão, os materiais usados para a fabricação de cada tecido, entre outras características. Segundo pesquisa da Harvard Business School (HBS ), uma roupa descartada após ter sido usada apenas cinco vezes durante um mês produz 400% de emissões de carbono, em comparação a uma peça usada 50 vezes em um ano. Por isso, aumentar o tempo de uso das vestimentas é tão importante para o planeta.
 
O troca-troca de roupas é uma forma de repaginar o guarda-roupa
Hoje em dia, existem feiras, encontros presenciais e virtuais, sites, entre outros meios onde as pessoas tem o intuito de trocar suas roupas em peças de outras pessoas, ou seja, elas não pagam – ou pagam só o frete – pela vestimenta e além de repassar roupas que não querem mais conseguem adquirir novas.

Caso esse tipo de projeto não exista em sua cidade, é simples, você pode fazer um encontro desses entre seus amigos e familiares. Afinal, todo mundo é ou já foi doido para ter uma peça de roupa de algum amigo e essa pode ser uma ótima oportunidade de fazer um troca-troca. 
 
Peças que não são mais úteis para você, podem ajudar muitas pessoas
Doar roupas é uma prática que beneficia a todos, no momento atual então, é uma mega ajuda. Busque por instituições, ONGs, campanhas de caridade, brechós beneficentes ou até mesmo famílias necessitadas da sua cidade e doe roupas que não te servem mais.

Porém, antes de doá-las verifique se as peças não estão danificadas, sujas, manchadas, com furos ou rasgos. Elas devem estar em boas condições para que seus futuros donos façam bom proveito e as usem muito.
 
Valor afetivo não tem preço
Como foi dito no começo da matéria, as roupas possuem o poder de contar histórias e remeter lembranças, por isso, herdar peças de familiares e amigos é ter a certeza de que aquela vestimenta te trará uma boa memória. Imagine pegar uma peça e ao vesti-la logo se recordar que a sua mãe usava esse vestido nos anos 70 (e que ela já te contou várias histórias de quando usava o modelito), ou colocar aquela blusa e lembrar-se de um amigo querido? Esses sentimentos não têm preço, além de alegrar o dia de qualquer um.
 

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