20/06/2021 às 00h50min - Atualizada em 20/06/2021 às 00h40min

Jovens brasileiros estão cada vez mais tristes

Pesquisa da FVG mostra que esse público vem ficando cada vez mais triste e insatisfeito desde 2014.

Ana Paula Alves - Editado por Andrieli Torres
Jovens – Percepções e Políticas Públicas: https://cps.fgv.br/JovensPercebe
Foto: Reprodução/Internet

O estudo da Fundação Getúlio Vargas (FGV) mostrou algo que já era esperado: os jovens brasileiros estão cada vez mais infelizes. Em sua pesquisa “Jovens - Percepções e Políticas Públicas”, há dados sobre a avaliação que esses jovens, de 15 a 29 anos, fazem sobre si e sobre o mundo ao seu redor. A pesquisa revelou que desde 2014, a autoavaliação de felicidade, feita em escala de 1 a 10, vem diminuindo, e foi de 7,2 para 6,4.

Muitos fatores são os culpados. Embora o jovem não goste de ouvir isso, é provável que toda a inovação tecnológica absurdamente acelerada em que vivem e amam tenha certa culpa. As facilidades da internet os deixaram sem motivação para sair e procurar pelas coisas. “Por que ir no shopping quando tenho a amazon?” “Por que ir em um restaurante quando posso pedir para entregarem?”.

A falta de desafios que os forcem a ir atrás, a ter uma verdadeira jornada do herói em busca de uma blusinha que amou, ou de um restaurante que ouviu falar muito bem, tira a motivação do agir, deixa um vazio. 

Também pode-se dar crédito à tecnologia quando falamos em jovens que vivem mais virtualmente do que presencialmente. Existe, a alguns anos, uma diminuição de interações sociais presenciais, e por mais que as relações virtuais também sejam rformas de socialização, elas não substituem totalmente a presença do outro. E o ser humano não pode viver sem essa presença.

E com a pandemia, esses aspectos apenas pioraram. Não sair ou não ter relações presenciais deixa de ser uma escolha, passa a ser uma obrigação. Mesmo que se tenha vontades e objetivos para sair e interagir, eles não podem ser concretizados. E essa falta de escolha já é uma frustração extra.

Outro fator importante: a dificuldade em “ser alguém na vida”. A necessidade de trabalhar e estudar, sempre reforçada pela família e pela sociedade, entra em contraste com a falta de oportunidades ou de preparo para as oportunidades existentes. Isso também leva a uma falta de propósito de vida e uma sensação de inutilidade. 

O jovem se compara à geração anterior e se sente “atrasado”. Na sua idade, seus pais tinham casas, famílias e empregos, mas ele nem conseguiu entrar na faculdade ou no mercado de trabalho ainda. Sua rotina é vazia, sem grandes projetos, sem formas de gastar sua energia e criatividade. Isso gera uma grande ansiedade, o jovem muitas vezes não sabe o que espera pela frente, tem medo de nunca conseguir, de fato “ser alguém na vida”.

Toda essa preocupação e estresse também são refletidos na pesquisa da FGV. Antes da pandemia, cerca de 50% dos jovens afirmaram ter tido esses sentimentos no dia anterior à pergunta. Depois, esse número subiu cerca de 10%. Realmente, o que não falta no período de pandemia são motivos para preocupação e estresse. O risco de vida, a crise econômica que diminui ainda mais suas oportunidades, as incertezas sobre a segurança financeira da família, as notícias ruins absorvidas diariamente, além de um futuro nebuloso e de difícil previsão. 

E um dado da pesquisa que pode parecer estranho quando se pensa nessas questões é que, antes da pandemia, 86,6% dos jovens afirmaram também ter tido um momento de muitos sorrisos e risadas no dia anterior. Mesmo na pandemia, o número continua alto, 76%. Porém, é importante perceber que ter momentos alegres, não quer dizer que exista uma felicidade plena. 

Durante o dia, as pessoas têm as mais diversas variações de humor e sentimentos, que refletem cada momento vivido. Logo, emoções “passageiras”, como o riso ou a alegria, não vão definir suas perspectivas de vida, essas englobam um conjunto de relações muito mais complexo e que exige análise profunda.

Mas mesmo em meio ao caos, é possível ver a luz no fim do túnel. Isso, porque os jovens, embora tristes e insatisfeitos, têm altas expectativas para suas versões futuras. Desde de 2014, se manteve um imaginário de que, em cinco anos, sua autoavaliação de felicidade seria por volta de nove, nem a pandemia mudou esse número.

Isso demonstra uma grande dose de otimismo, que não se deixa abalar por crise alguma, seja uma crise política, econômica ou na saúde. O jovem sempre espera que tempos melhores virão. E talvez seja isso que permite que, mesmo passando por tantos desafios e com uma felicidade cada vez menor, ele continue e se mova em direção a esse futuro. 

Esse otimismo não é uma exclusividade apenas das pessoas mais novas, não é algo que dependa da idade, mas com certeza é essencial para que permaneçam vivas.


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