17/07/2021 às 00h32min - Atualizada em 16/07/2021 às 10h15min

Crônica: “A linha tênue entre enlouquecer ou se manter sã ta na arte”

Evellyn Torres - Editado por Talyta Brito
Foto: Pixabay / Reprodução

Brasil, São Paulo 

Dia 197 de 365

540 mil mortos pelo coronavírus

 

Antes eu abria as notícias, agora eu acordo e escuto música. Às cinco horas da manhã já recebia “Novo recorde de mortes diárias”, "desvio de dinheiro em compra de vacinas”, “Aglomeração e festas clandestinas em bairro de elite”. Quem aguenta lidar com tudo isso logo cedo e ficar bem? Ninguém que se importe, pelo menos. Por isso eu escuto música primeiro. Passo um café enquanto isso, ela preenche o ambiente e se mistura com o cheiro. Faz harmonia com o pinga pinga da cafeteira, me dá forças pra começar o dia e ir trabalhar. 

 

São 5h30, leio enquanto o ônibus não chega. É um livro de poesia, tudo menos a realidade que estou vivendo, ela já é assustadora demais sozinha. Conto os dias, mas ainda sinto que estou preso em 2020, a diferença é que, com o passar dos meses, fui perdendo cada vez mais pessoas pra essa tal de “gripezinha”. 

 

6h10, vagão de trem cheio, pior que o ônibus, mais um dia normal. O trajeto é longo, com isso consigo assistir um episódio da série que baixei no dia anterior. Alguém espirra e a galera se espreme pra longe. Sempre procuro manter a mente ocupada, seja lendo, ouvindo ou assistindo, li no Twitter uma vez “A linha tênue entre enlouquecer ou se manter sã ta na arte”, e não é que é verdade?

Ela me salva todo dia. Quando acordo, quando espero o ônibus chegar, quando volto pra casa e vejo algum filme ou live. Eu ainda lembro, quando tudo isso chegou aqui, lá em fevereiro, todo mundo achou que ia ser uns quinze dias e tudo ia voltar ao normal. Bem, mais de um ano depois e cá estamos nós,com uma pilha de mortos que poderia ter sido evitada… 

 

“Estação Luz, desembarque pelo lado esquerdo do trem. Ao desembarcar cuidado com o vão entre o trem e a plataforma”

 

É uma caminhada de 37 minutos até o prédio em que trabalho. Queria ficar em casa, mas muitos não têm esse privilégio, então me cuido do jeito que posso, com máscara e álcool em gel. No caminho, conto os passos e o que comprar pra substituir a carne, o preço subiu.

 

80, 81, 82, 83… 

 

Minha mãe tomou a primeira dose da vacina mês passado, segundo o calendário divulgado pelo governo logo vou poder tomar a minha. A que tiver eu aceito, o que importa é vacinar todo mundo.  

 

Faz tempo que não abraço meus amigos, mas conversei com eles ontem por uma tela, agora tudo se resume a isso, uma tela. Todos sentem falta do cinema, das rodas de conversa no bar, dos shows e das aulas na faculdade. Me mantenho cansado, todo tipo de interação mudou, ainda tenho as redes sociais e o acesso que me impede de desmoronar.

 

Na rua, uma cidade cinza, o inverno chegou e com ele o frio, o número de moradores de rua aumentou eu percebi, mas também li sobre no jornal, o último censo foi em 2019, com mais de 24 mil pessoas na rua, imagina como ta agora? As pessoas sempre desviam o olhar, se você não olhar, ele não existe, a culpa não existe, nem a pena ou empatia. 

 

É um direito de todos o acesso à cultura e à educação, a Constituição diz. Uma utopia, longe da realidade, eles não querem isso. Consigo levantar todos os dias e encarar o dia porque tenho esse acesso. Meu psicológico não está em frangalhos por pouco. Mas e o de quem desde o início da pandemia não teve acesso? Ou de quem nunca teve?  

 

Sinal vermelho, 8h18, vou chegar atrasado hoje. Mais uma vez me perdi na contagem. 



 

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