30/07/2021 às 11h56min - Atualizada em 30/07/2021 às 11h42min

Crônica: "Ser atleta é minha parte favorita de mim"

Fernando Azevêdo - Edição por Brenda Freire
Imagem: Reprodução/Unsplash




Aprendi muito cedo que ser atleta me transformava. Desde que comecei meus treinos de judô, com 7 anos, a disciplina se tornou parte de mim. Mesmo que nem em tudo eu seja a pessoa mais centrada, quando estou no tatame me sinto conectada ao esporte e nada mais importa. Meu coração bate forte, meu suor escorre pela testa, mas não me sinto cansada. Me sentindo realizada com todas aquelas sensações após o treino, reverencio o tatame e saio.

 

O kimono é minha roupa favorita e o tatame é realmente uma segunda casa. Meus colegas de treino são mais que uma equipe para mim. Meu sensei é quase que um pai, quando se orgulha de mim nas competições e quando puxa minha orelha nos treinos. O oponente é outro judoca que treinou bastante para estar lutando comigo, não é um inimigo. Aprendi a respeitar muito as pessoas ao longo desses 15 anos em que sou judoca, inclusive a mim mesma.

 

"Foco, força e " é o maior clichê, mas eu diria que ser atleta tem muito disso. Foco é o componente básico. Sem ele, não tem como dar seu melhor, você cairá mais fácil, poderá se machucar. A força é resultado de inúmeras horas dedicadas ao treino. Ela não é só física, mas também mental, quando você considera os ensinamentos como parte fundamental. A , eu acredito que você reforça no esporte. Não precisa ser fé em um deus, como é o meu caso, mas você aprende a confiar nas pessoas que admira. 

 

Também aprendi que ganhar é mais do que um resultado, e que perder uma luta faz parte. Ter uma vitória é tudo de bom, claro, mas vai além de ganhar uma medalha e estampar um sorriso para a foto. Significa você honrar o processo de longas horas de treino. Ser recompensada pelo seu máximo. Ter o melhor desempenho naquela circunstância, pois você se doou para isso. Além disso, é muito bom quando você alegra as pessoas que torcem por ti.

 

Por outro lado, perder não é o fim do mundo. A outra atleta também dedicou muito ao esporte e se doou. Ela mereceu. A gente fica muito triste - claro! -, mas depois reflete que está tudo bem. E, no judô, a gente se cumprimenta depois do fim - aperto de mãos ou abraço. Eu sempre achei isso lindo. 

 

Mas, infelizmente, ser atleta não é fácil em algumas situações. E não falo que o esporte nos deixa tristes, porque ele não deixa! É que não é fácil quando você está em um contexto que não incentiva o esporte. Há colegas meus que se desdobram entre empregos complicados, treinos e lutas, por exemplo. São verdadeiros guerreiros, mas essa não é só mais uma história bonita de superação. Acho que não deveria ser assim, sabe?

 

É ainda mais triste pensar que muita gente que seria incrível não tem oportunidades para sequer começar no esporte, ou para continuar nele. Ser atleta é sonhar, e é muito difícil ver um sonho seu e de mais gente não sendo apoiado.

 

Não caberia em um livro todos os aprendizados que a vida de atleta me trouxe. Foram muitos processos e ciclos para chegar até aqui. Felizes ou nem tanto, mas todos me ensinaram. Diante disso, aprendi que não devo baixar a cabeça para as dificuldades. Nenhum machucado ou lesão nunca me fez desistir do judô. Me cuidei e voltei ainda mais instigada depois. Acredito que reconstruir-se é parte da essência do atleta. E evoluir mesmo, sabe? Ser atleta é minha parte favorita de mim


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