08/10/2021 às 12h29min - Atualizada em 08/10/2021 às 11h48min

Garota exemplar e a construção da culpa na mídia

A Escola Base é um dos casos em que a mídia conduziu de maneira desastrosa

Lívia Labanca - Editado por Andrieli Torres
Foto: Divulgação

“Você matou a sua esposa, Nick?”

Essa é a questão emblemática feita por uma apresentadora de televisão ao protagonista de "Garota exemplar", e é a dúvida que guia toda a narrativa do livro e do filme, escrito pela jornalista Gillian Flynn.

Porém, essa é uma pergunta retórica, já que, na realidade não importa a resposta real para ela, e sim qual a melhor história que a mídia pode contar. No aniversário do quinto casamento de Nick, sua esposa Amy Dunne, desaparece dentro da própria casa, logo, ele se torna o principal suspeito e o caso ganha fama nacional.


Em uma trama cheia de suspense, a autora nos leva para dentro de um caso criminal que está sendo altamente repercutido, e nos faz questionar sobre quais são os limites dos veículos midiáticos, até onde eles são capazes de ir pela notícia perfeita. E isso gera uma reflexão sobre como são construídos os “culpados” nos jornais, principalmente em relação a ausência de responsabilidade ao forjar respostas antes mesmo do julgamento acontecer, e das provas concretas serem analisadas. Especialmente porque faz com que a gente pense se o que vale mais de fato é a verdade ou a história que é melhor para ser vendida.

Para além da ficção, existem muitos casos reais em que a mídia acabou acusando fortemente e acabando com a vida de pessoas que eram inocentes, simplesmente porque a história parecia boa demais para não espalhar. Aqui no Brasil, temos o caso famoso da Escola Base, no qual em 1994, funcionários de uma escola infantil foram acusados de estarem cometendo pedofilia com vários alunos de quatro anos. A história logo ganhou grande repercussão e foi conduzida de maneira desastrosa, de forma que, mesmo sem provas concretas, a imagem dos envolvidos já estava manchada e não havia mais como voltar atrás.

Quando eles foram inocentados, já haviam sofrido danos irreversíveis, tanto psicologicamente quanto patrimonialmente, já que houveram invasões e destruições em suas propriedades. Fora o linchamento que sofriam pelo público que acompanhava as notícias. E mesmo tantos anos após o ocorrido, praticamente nenhum deles conseguiu recuperar a vida que tinham anteriormente.

Ainda nesse sentido, fora do país têm-se o caso do assassinato de Meredith Kercher que ocorreu na Itália durante seu intercâmbio, no qual a garota com quem ela morava, chamada Amanda Knox, foi acusada de ter cometido o crime, além de outros supostos envolvidos.

A grande questão é que desde os primeiros instantes, a mídia já havia condenado a Amanda, por conta do seu comportamento em meio a situação, e com muitas notícias altamente tendenciosas rapidamente a história já era de conhecimento internacional. O ponto principal é que alguns jornalistas sequer iam atrás das provas, e sim buscavam descobrir e expor coisas da vida pessoal da acusada que nada tinham a ver com o ocorrido, e que apenas serviam para gerar polêmica e a caluniar.


Fato é que, após anos, Amanda Knox foi inocentada, mas os jornais já a tinham condenado. Essas histórias nos fazem pensar novamente em até que ponto alguns veículos midiáticos se importam de fato com a verdade, e não com o que gera mais polêmica, em ambos os casos não haviam provas suficientes, o que pedia por uma veiculação de notícias neutras. Porém, às vezes a ética acaba sendo abandonada e é aí que mais crimes além do envolvido ocorrem.


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