15/10/2021 às 08h44min - Atualizada em 15/10/2021 às 08h33min

“Niagara Daredevils”: indo até o fundo das Cataratas

Histórias verídicas de pessoas que arriscaram as próprias vidas no Niágara

Rafael Dias - Editado por Andrieli Torres
Foto/Reprodução: Universal International
Dentre os milhões de turistas que já passaram pelas Cataratas do Niágara, poucos tiveram uma presença tão marcante quanto um certo pássaro amalucado de cabelos vermelhos, bico amarelo, corpo azulado e barriga branca – o Pica-Pau, criado em 1940 por Walter Lantz.

Mais especificamente em 1956, um desenho animado retratou a ilustre visita do personagem à paisagem de quedas d’água situada entre Nova York e Ontário, na divisa entre os Estados Unidos e o Canadá.

No curta-metragem, basta ao guarda responsável pela segurança do local ter a infeliz ideia de contar aos turistas sobre o “forte impulso” que muitos tiveram, no passado, de descer as Cataratas em um barril, para que as engrenagens mentais do Pica-Pau comecem a trabalhar. Literalmente.

Em seguida, o que se vê são sucessivas tentativas da ave em retomar por suas próprias mãos e penas a “louca prática”, tentando driblar a todo custo a vigilância do guarda. Este, não poucas vezes, termina desastradamente nas águas, só se dando conta de que está a bordo de um barril - e rumo à queda livre - quando já é tarde demais, para o deleite de expectadores de capa amarela, que soltam gritos a plenos pulmões pela cena que presenciam a todo momento durante o episódio.


A inspiração do curta metragem – uma “brincadeira séria”


O ano era 1901. O mês era outubro. O dia era o vigésimo quarto do mês. Uma professora estadunidense aposentada, Annie Edson Taylor, estava decidida a fazer algo diferente em seu aniversário de 63 anos. Após passar a vida de um modo nômade, de cidade em cidade, suas economias não lhe pareciam suficientes para os anos seguintes.

Viúva e sem maiores perspectivas, uma ideia rondava sua mente. Havia lido um artigo em uma revista sobre aventureiros que se arriscavam navegando nas perigosas corredeiras do Niágara. Porém, não era bem isso o que planejava. Buscava uma oportunidade de conseguir dinheiro e conquistar a fama. Por isso, decidiu inovar: mergulhar na cachoeira.

Em 1829, um outro aventureiro americano, Sam Patch, já havia pulado sem proteção nas Cataratas e sobrevivido. Contudo, o feito envolvera menos riscos: Sam pulara de uma torre, próxima à base, e com altura menor.


O projeto de Annie, no entanto, era mais perigoso. Por isso, contar com alguma proteção parecia fundamental. Após pensar, uma ideia ocorreu a Taylor: utilizar um barril especial, por ela projetado, posteriormente construído por uma empresa local, com 1,5 m de altura, 1,0m de largura, à base de carvalho branco, com pouco mais de 70 Kg, cuja madeira era protegida por anéis largos de metal. Dentro dele, cintas de couro para manter seu corpo o mais firme possível. No fundo, um peso de metal para nivelamento da pouco convencional embarcação. No topo, junto à tampa, um colchão deixado acima da cabeça.

Antes da tentativa, um teste foi feito com um gato dentro do barril: o animal sobreviveu à queda e, com isso, as autoridades foram convencidas de que seria possível à ex-professora conseguir também. Annie embarcou na improvisada cápsula de carvalho e foi assistida por seus ajudantes, que bombearam ar para dentro do recipiente através de um furo, fechando-o a seguir. Um barco a levou em direção a Horseshoe Falls, localizada no lado canadense, porção com águas mais violentas. Nos arredores, curiosos. Estavam sem capas amarelas, mas ainda assim aguardavam algo acontecer. No ar, um clima de ceticismo e apreensão.

O barril foi solto e passou a chacoalhar em meio às ondas, ganhando pouco a pouco velocidade. A crista da cachoeira foi ficando cada vez mais próxima. Em poucos instantes, veio uma claustrofóbica queda de mais de 50 metros em direção à base das Cataratas.

Cerca de 20 minutos depois, a professora, já quase sem ar, foi resgatada. Na cabeça, Annie ganhara um corte. Pelo feito, foi chamada de “a deusa da água”. Pela fama, teve um ligeiro tempo de projeção. Pelo projeto, recebeu menos dinheiro do que esperava. Pelo seu empresário, Frank Russel, teve o barril, símbolo de sua empreitada, roubado. Pela vida, viu-se presa a uma barraca de souvenires, pousando em fotos de recordação, vendidas aos turistas.


Desfechos nem sempre felizes em uma “brincadeira séria”


Inspirado por Annie Edson, em 1911, o britânico Robert “Bobby” Leach, então com 53 anos, repetiu o feito da professora, utilizando um barril de aço. Fisicamente falando, o resultado foi bem mais severo: duas pernas e um maxilar quebrados. A recuperação, porém, não foi tão ligeira quanto seria em um desenho animado: seis meses de hospitalização. Mesmo assim, Bobby conseguiu fama relativa, chegando a realizar turnês de publicidade dentro e fora dos Estados Unidos. Em uma delas, em 1926, enquanto estava na Nova Zelândia, sofreu um acidente banal, escorregando em uma casca de frutas. Os ferimentos, mal tratados, evoluíram para uma gangrena na perna, que foi amputada. Dois meses depois, devido a complicações, perdeu a vida justamente quando já havia se aposentado da prática de feitos mais perigosos.

Após as primeiras descidas, outros se sentiram encorajados e tentaram a sorte. Parecia uma oportunidade para atrair o público e a imprensa. Quem sabe ganhar algum dinheiro e fama. Aparentemente, bastava seguir o que outros já haviam feito, customizando o material utilizado, tentando corrigir erros, se antecipando a eventuais imprevistos.

Assim, em 11 de julho de 1920, foi a vez de Charles Stephens, um barbeiro inglês de 58 anos, pai de 11 filhos, muito pobre, tentar. Desta vez, porém, o impacto com a água foi mais crítico, produzindo a primeira vítima fatal. De Charles, apenas um braço foi encontrado para ser enterrado; o restante do corpo, não.

Quase dez anos depois, em 05 de julho de 1930, melhor sorte não encontraria George Stathaki, de 46 anos, imigrante grego. Utilizando um barril maior e mais pesado, com mais de 1,80 m de largura e de altura, na companhia de uma tartaruga de estimação, realizou o mergulho, sobrevivendo à queda. Mesmo assim, um imprevisto tirou sua vida. O barril ficou preso nas rochas por várias horas. Incapaz de abrir a escotilha, seu ar acabou antes de ser resgatado e George morreu sufocado. No desespero, inutilmente arranhou com as próprias unhas o interior do cilindro. A tartaruga, contudo, foi encontrada ainda viva.

Apesar de duas tragédias seguidas, foi preciso uma nova morte, ocorrida em 1951, envolvendo Willian Red Hill, para a prática ser finalmente proibida pelo Parque Nacional do Niágara e sanções, como multas e prisões, fossem aplicadas a quem se sentisse tentado a desafiar o Niágara. Isso não chegou, todavia, a desencorajar novos saltos; estes continuaram ocorrendo esporadicamente, sendo o último deles realizado em 2017. Na ocasião, Kirk Jones, por ironia a última pessoa a sobreviver à queda, em 2003, após pular sem proteção alguma, foi também a última vítima fatal da arriscada aventura. Em sua segunda - e última proeza - fez uso de uma bola inflável  gigante como proteção, mas perdeu a vida aos 54 anos.

Como Kirk, nem todos utilizaram a ideia original de Taylor. Em 1995, Robert Overacker, 39 anos na época, por exemplo, utilizou um jet ski e um paraquedas. Sua intenção também era diferente: chamar a atenção para os problemas dos sem-teto. Apesar da nobre causa, não resistiu ao impacto direto com a água. Já a dupla de sobreviventes Peter Debernardi e Geoffrey Petkovich utilizou um barril no Niágara para fazer campanha contra as drogas, no ano de 1988.


Niagara Daredevils – os “Audaciosos do Niágara”




Annie Edson Taylor
foi a pioneira entre aqueles que arriscaram as próprias vidas no Niágara em um barril. Todos ficaram conhecidos como os Niagara Daredevils, algo como os “Audaciosos do Niágara”, em livre tradução.

Ao todo, foram 16 tentativas, com onze sobreviventes. Dos que perderam a vida, alguns sequer tiveram a chance de terem um enterro.

O próprio museu do Niágara abriga um memorial dedicado aos “audaciosos”. Nele, repousam inclusive alguns dos barris utilizados nas perigosas travessias, como o de George.

“Mas, e o Pica-Pau?”, poderiam perguntar os mais críticos. Estaria o personagem fazendo pouco caso das tragédias ocorridas na vida real? Alguns podem acreditar que sim. Outros podem ficar em dúvida.

O título original de Vamos às Cataratas, “Niagara Fools”, levanta dúvidas. “Fools”, em inglês, remete a termos pejorativos em português, como otários, idiotas ou tolos.

De qualquer forma, não se pode negar que a maior graça do desenho é justamente o fato de ninguém perder a vida ou sequer se ferir em cada descida nas frias águas das Cataratas. E isto não deixa de ser uma maneira de pregar, mesmo indiretamente, que os “Niagara Daredevils”, principalmente os não sobreviventes, mereciam ter a mesma resistência de um desenho animado, uma maneira de garantir a eles destinos melhores - e mais felizes - em suas próprias histórias.



 

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