29/10/2021 às 12h03min - Atualizada em 29/10/2021 às 10h50min

Os filhos são o espelho projetado pelos pais

Alguns filhos enxergam os pais como ídolos e se prendem a uma posição de agradá-los e ser como eles, se eximindo da própria identidade

Heloisa Helena de Paula Nogueira - Editado por Andrieli Torres
Foto; Reprodução/Internet
“O que você quer ser quando crescer?”
- Quero ser jogador de futebol!
- Quero ser médica!
- Eu, professor!
- Eu, bailarina!

Cada um carrega consigo, em essência, um sonho exclamado que o move e o identifica como único, pelo menos, era assim que deveria ser.
Então, muda-se a pergunta: “o que é sonhar?”

“Sonhar, para mim, é pensar em coisas e conseguir realizá-las”, respondeu de forma categórica e enfática, Maria Eduarda Teixeira, 12 anos.
Já o Pedro Abreu, um jovem de 24 anos, considera que “sonhar, no sentido de ideais e objetivos, é questão de planejamento, é planejar o futuro e, independente de ser fácil ou difícil, pensar esse objetivo e fazer de tudo para que ele seja cumprido”.

O desejo do sonho realizado é uma constante na vida de cada um. Entretanto, segundo Émile Durkheim, o homem é o produto do meio em que vive. Então, corre-se o risco de um indivíduo tentar realizar o sonho de outra pessoa que é projetado sobre ele. Pode-se traçar um paralelo entre a afirmativa de Durkheim e música “Me adora”, lançada em 2009, quem foi adolescente naquele período, certamente, deve se lembrar de um dos seus versos, que diz o seguinte: “não importa se eu não sou o que você quer, não é minha culpa a sua projeção”. Talvez, o jovem da época tenha ouvido a música de forma despretensiosa e não tenha se dado conta de como seus pais o influenciava em diversas esferas da vida. O intuito não é analisar a obra de Durkheim e, nem mesmo, a letra da música, mas mostrar as consequências da interferência dos pais e da projeção do “eu perfeito” destes sobre os filhos.

Antes de falar sobre a relação de pais e filhos e de como a criação interfere na formação do ser, é interessante saber o que de fato é a projeção.
“A projeção é um termo oriundo da psicanálise, precisamente, da teoria freudiana, acerca dos mecanismos de defesa. Em resumo, é uma estratégia psicológica do indivíduo para alívio de sua consciência acerca daquilo que é indesejado e, consequentemente, gerando alívio para existir com maior tranquilidade. Portanto, a projeção é o ato de atribuir ao(s) outro(s) pensamentos ou emoções que sejam indesejáveis ou inaceitáveis”, explicou o psicoterapeuta Vivaldi Salomon.

Quando se trata da relação entre pais e filhos, Priscila Boy, que é pedagoga, escritora, palestrante e diretora da Priscila Boy Consultoria, aponta que os pais podem projetar nos filhos aquilo que eles gostariam de ter sido e traz como exemplo disso, o pai que sonhava ser jogador de futebol, não conseguiu, colocou o filho em uma escolinha de futebol e o obrigou a perseguir o objetivo de ser jogador, mesmo ele não querendo. Outro exemplo citado por Boy é de mães estadunidenses que inserem suas filhas em concursos de beleza, pelo fato de que ela, a mãe, gostaria de ter sido miss no passado, não conseguiu e transferiu a missão para a filha.

Salomon aponta que a relação entre pais e filhos é recheada de assimetrias e é justamente a partir daí que se desenvolvem os processos de maturidade. As balanças entre pais e filhos sempre existirão e, nesses momentos, as vaidades e experiências vividas e desejos próprios confundem-se com a experiência do outro.

As vibrações da vida são uma hipérbole no interior de uma criança. A projeção do “eu futuro” transcende limites: o mundo da imaginação a permite ser quem ela quiser; o real a faz questionar “quem sou eu?”. Bem, o mundo de descoberta das crianças não se resume apenas ao exagero ou à contradição, mas abraça todas as figuras de linguagem.

 

O apoio dos pais

Entender as metáforas da existência não é fácil para um adulto, quanto mais para uma criança que vive seus primeiros processos psicológicos. De acordo com Vivaldi, esse processo primário se faz sob a tutela dos pais, e com essa “espinha dorsal” consolidada é que se entra na aventura absolutamente íntima do que é viver.

Pedro Abreu afirmou que, quando criança, sonhava ser jogador de futebol e que recebeu muito apoio, principalmente do pai, que o levava aos treinos e o incentivava na busca pela realização deste sonho.

Maria Eduarda Teixeira disse que não se lembra de ter se sentido forçada a fazer algo para corresponder com a expectativa de alguém e que é incentivada pelos pais na busca de seus ideais: “eles sempre dizem, se este é o seu sonho, corra atrás dele”.
Priscila Boy pondera que uma educação muito rígida, de pais que só apontam defeitos, forma filhos inseguros e com baixa autoestima e que as melhorias devem ser apontadas, sim, não de forma a reduzir a criança, mas sempre mostrando que ela é capaz de fazer melhor.

As mudanças

Dizer que mudar faz parte da vida, tornou-se um clichê. Entretanto, não se pode negar que a afirmativa é real e que o sujeito que se deixa acometer pela “síndrome de Gabriela”, simplesmente existe, mas não vive.
Considerando que os pais são a sustentação no processo de encaixe do filho no meio social, é válido ressaltar que as mudanças vividas precisam ser entendidas e dialogadas.

Apesar da pouca idade, Maria Eduarda disse que, hoje, já consegue enxergar algumas coisas com olhos diferentes de como enxergava na primeira infância.
Ser jogador de futebol era um ideal latente no coração do Pedro. No entanto, no fim da adolescência, ele percebeu que não mais queria isso para a vida dele. Decidiu que iria cursar matemática na universidade.

Logo, pensa-se sobre qual foi a reação dos pais diante da mudança de projeto. Pedro disse que ficou receoso em deixar o futebol, já que seus pais o apoiaram desde o início, mas que decidiu cursar matemática e foi muito bem acolhido, não se sentiu pressionado a cumprir com uma expectativa do pai quanto ao futebol. Ele fez questão de deixar claro que isso só foi possível por que a relação deles é pautada pelo diálogo.


Valores dos pais x identidade dos filhos

Priscila Boy considera que, de certa forma, os filhos são extensão dos pais, tanto no quesito biológico, quanto nos princípios e valores.
Boy e Salomon defendem que a interferência dos pais é saudável no que visa orientar, instruir, inspirar, transmitir valores, levar aos filhos ferramentas para que desenvolvam seus próprios atrevimentos e movimentos vitais e, claro, estabelecer limites, “a criança clama por limites”.
Como mãe de dois jovens, a Priscila relatou que para ela é tranqüilo entender que os filhos são pessoas diferentes, que têm gostos diferentes, mas que, se for necessário, faz intervenções nas escolhas deles quando elas perpassam pelo âmbito moral, jurídico, espiritual ou que lhes causem mal à saúde.

Ela afirma ainda, que os pais sempre serão autoridade sobre os filhos, mesmo na vida adulta, porém, não se deve confundir autoridade com autoritarismo.

Alguns filhos enxergam os pais como ídolos e se prendem a uma posição de agradá-los e ser como eles, se eximindo da própria identidade. O que pode ser um tanto perigoso.

“O filho pode se reproduzir características violentas do pai, por exemplo”, enfatizou Priscila.
Em referência ao escritor Guimarães Rosa, Vivaldi declarou: “suprimir às tomadas de consciência e, por conseguinte, a verdade, também dificulta o processo de encontro com a verdade [quem eu sou realmente], assim, às revoluções íntimas que levam à libertação. E se o que vida quer da gente é coragem, isso significa tomar atitudes sob o medo, se não, não é coragem”.

O equilíbrio na relação

Para Vivaldi, os pais não precisam determinar os caminhos dos filhos, estes só precisam saber de uma coisa, que têm para onde voltar: os pais devem encorajar e não enjaular e que torna-se difícil também para os pais compreender que os filhos são diferentes deles, o que demanda ajuda, pois está aliado ao medo de perder esse filho.

Em relação aos filhos, Priscila aconselha a buscar entender-se, amar-se, respeitar-se, reconhecer a si mesmo, para não violar a própria identidade e reforça: “o autoconhecimento e a coragem são muito importantes para construir a própria identidade.

“Eu confesso que tenho um pouco de dificuldade de equilibrar isso [ser eu mesmo e agradar meus pais], às vezes, no fundo, tenho a sensação de estar fazendo alguma coisa que eles não gostam. Mas, ao mesmo tempo, paro e analiso situação por situação: há situação em que a questão de eles terem um gosto diferente significa algo importante, no sentido de estar fazendo algo que não vai dar um bom resultado, mas também deve-se atentar para aqueles momentos que se resumem à questão de gosto: por exemplo, estilo de roupa- pode haver um que eu gosto e meu pai não gosta, mas não quer dizer que eu esteja errado em usar. Levo em consideração os valores [ética e moral], de ser certo ou errado, nisso eu escuto muito eles, em contrapartida, tem a questão da diferença de gosto, de estilo pessoal, de ser o Pedro: se vestindo, falando, se apresentando, aí, eles têm que entender que eu tenho os meus gostos também, mas isso é natural”, afirmou Pedro.

Para finalizar, Vivaldi ponderou que o princípio do cuidar deve ser mútuo, a relação é uma via de mão- dupla e, assim, surge o termo “responsabilidade emocional” e, na interação com o outro, nós afetamos e somos afetados.

Diante de todos os embates causados pela imperfeição do conviver, surgem mais duas perguntas para enfeitar o movimento da vida: “qual a minha responsabilidade sobre minha própria vida?” E “até que ponto posso afetar e me deixar ser afetado?”


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