11/11/2021 às 21h36min - Atualizada em 11/11/2021 às 21h27min

No esquecimento, muitos “eu te amo”

Ao nos depararmos com as perdas, lembramos da finitude da vida. Mas até quando essa lembrança se faz presente?

Letícia Aguiar - Editado por Andrieli Torres
Reprodução/Blog da Zendesk
Estou sentada em frente ao meu computador, olhando o tremeluzir da luz acima da minha cabeça. No computador, uma aula que me parece bem distante, já que minha mente divaga pelos mais variados pensamentos. De repente, as vozes ao meu redor se exaltam, elas estão em choque e eu não sei bem porquê. Quando finalmente as encontro, as vozes, caladas, assistem o telejornal anunciar um fato triste e inesperado: a morte da radiante rainha da “sofrência”.

Meus olhos custam a acreditar na tarja que aparece na TV, confirmando o que meus ouvidos escutam, ela realmente se foi! Logo, meus pensamentos, que antes estavam perdidos, começam a relembrar de tantas perdas ao longo da vida, e principalmente, neste ano que está passando tão rápido. Depois de uma divagação não tão perdida assim, paro e penso nas vozes ao meu lado, as quais eu tanto amo.

Penso não só nelas, mas em todas as vozes que são parte da minha vida. Contudo, não estou sozinha e meus olhos passam a experenciar o que eu chamo de “epifania coletiva”, pois, após as perdas, todas as vozes ao meu redor começam a dizer que precisamos aproveitar a vida e valorizar as pessoas.

Assim elas fazem, enaltecem seus familiares e dizem “eu te amo” além do normal. Fazem isso porque a morte chegou tão perto que assustou, lembrando-as da finitude da vida. Entretanto, esse sentimento perdura por uma ou duas semanas, no transcorrer dos dias, meus olhos só veem pessoas imersas na correria do cotidiano.

Mas não foram elas que bradaram para aproveitarmos a vida? Será que eu me enganei e meus olhos e ouvidos me traíram? Já não sei mais. O que sei, é que eu sou tão traidora quanto as vozes ao meu redor. Ontem, saí de casa e nem disse “eu te amo” para a minha mãe, tudo que eu fiz foi lhe dar um “tchau” e “até logo”. Pois, minha memória, essa exímia traidora, esqueceu-me de lembrar que, há duas semanas, eu sairia dizendo “eu te amo”, porque a epifania coletiva ainda estava me encarando.

Os esquecimentos não acontecem apenas no mundo ao meu redor, ele está na tela do meu celular, dentro das redes socias. Foi nelas, que eu vi pessoas declararem o mais belo amor aos seus entes queridos, afinal, a “passagem” da vida estava a sua espreita. Todavia, quando passou o tempo, elas não quiseram mais se declarar, estavam esquecidas de como tudo acontece com uma rapidez de tirar o fôlego.

Voltando a mim mesma, longe dos meus devaneios diários, percebo a hipocrisia que me consome, eu quis dizer mais “eu te amo” e “você é importante para mim”, somente quando a finitude da vida veio ao meu encontro. Em seguida, deixei essas declarações de lado, nem mesmo cheguei a falar com meu pai, a quem eu nunca disse “eu te amo”.

Agora, as vozes estão silenciosas. Passamos da epifania ao esquecimento coletivo. Estamos todos agindo teatralmente e fingindo que o tempo não está tomando todos os nossos dias. Quem sabe, no próximo encontro com o fim, nós tentemos persistir naquelas declarações, por vezes difíceis de dizer, mas preciosas aos ouvidos de quem as recebe e libertadoras para as bocas que as dizem.

 
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