12/11/2021 às 11h51min - Atualizada em 12/11/2021 às 11h27min

Volta às aulas presenciais na educação infantil: é necessário um exercício de empatia e acolhimento

Após quase dois anos de ensino remoto, a volta ao presencial exige de professores, alunos e pais novas habilidades e maior desenvolvimento das competências socioemocionais

Heloisa Helena de Paula Nogueira - Editado por Larissa Bispo
“Jamais pensei que viveria uma pandemia. No início, não pensei que chegaria a esse ponto, nunca imaginei que seria tão devastador”, declarou Andréa Nobre, professora de educação infantil na rede municipal de Belo Horizonte.

Não é novidade para ninguém que não foi somente a professora Andréa que sentiu esse impacto. A pandemia abalou as estruturas do mundo, seja no campo econômico, político, educacional e até mesmo sentimental. Talvez o último tenha sido o mais afetado, afinal, pessoas têm sentimentos e são eles que movem o mundo. Assim, abre-se espaço para refletir sobre como os sentimentos causados pela pandemia afetam professores, famílias e alunos da educação infantil (priorizam-se estes, já que vivem um momento de descoberta e de socialização).

De acordo com o IBGE, pouco mais de 107 mil crianças estavam matriculadas na educação infantil em Belo Horizonte no ano de 2020, e 9.027 professores lecionavam para elas. Para além de estatística, tratam-se de pessoas que foram privadas da convivência umas com as outras; de repente, o “olho no olho” tornou-se “olho na tela”.

Andréa afirmou que os desafios foram e ainda são grandes, pois “sem contato direto com o aluno, o pedagógico ficou muito prejudicado, tive que estudar conteúdos e adaptar para a realidade da turma online”.

A importância da família

Com a pandemia decretada, os alunos foram transportados da sala de aula para a sala de casa e, consequentemente, a convivência familiar tornou-se a única disponível no formato presencial. E, agora, mais do que nunca, pais e professores deveriam trabalhar em conjunto, em prol da educação dos pequenos.

Essa mudança brusca de atmosfera e de responsabilidades trouxe alguns descompassos: “Por se tratar de educação infantil, tive mais contato com os pais do que com as crianças. No início, esses se mostraram participativos, realizavam as atividades propostas com os filhos, mas, no decorrer do tempo, ficaram desmotivados e menos participativos”, relatou a professora Andréa.

Valquíria Teixeira, estudante de pedagogia e mãe da Laura, que é aluna da educação infantil na rede municipal de Belo Horizonte, afirmou que sempre valoriza o esforço do professor e reconhece que todos [os professores] se mantiveram empenhados em dar o máximo de alcance ao ensino, até para os que não tinham acesso remoto.

Mesmo sendo graduanda em pedagogia, Valquíria também enfrentou alguns percalços para auxiliar na educação da filha em tempos pandêmicos: “O maior desafio foi buscar conhecimento e tempo a fim de dar estímulos para que a Laura não perdesse a fase de desenvolvimento”.

A fala da Valquíria levantou mais um aspecto importante: o tempo tornou-se uma das maiores armadilhas dos pais e responsáveis, os quais se dividiam entre a educação dos filhos, o trabalho e as tarefas domésticas, sem pausa e sem mudança de ambiente. Ainda de acordo com Valquíria, a adaptação da aluna Laura ao ensino remoto foi tranquila, e isso só foi possível já que, durante a pandemia, elas não pararam com os estudos, praticaram muita leitura, brincadeiras e, mesmo com as dificuldades, tentou, ao máximo, estimular o desenvolvimento da pequena.

Retorno ao presencial

Depois de tanto tempo longe do ambiente escolar, chegou a hora de voltar. O sentir na pele que chegou o momento é uma sinestesia: é o prazer em escutar a risada gostosa da criança, é ouvir as histórias coloridas dos professores, é lidar com o medo de dar uma resposta seca a todos os “por quê(s)”, no fim, é uma mistura completa de sentidos e sentimentos.

Cada um reage ao retorno de uma forma, alguns se adaptam mais facilmente, outros chegam mais receosos, por isso, a importância do acolhimento e empatia.
A professora Andréa disse que, quando ficou ciente do retorno, seus sentimentos não foram os melhores, que o medo e a falta de estrutura deixaram-na bem desconfortável. Ela relatou ainda que foi bem acolhida pela escola, mas as famílias não tiveram esse olhar mais cuidadoso e a Prefeitura Municipal de Belo Horizonte (PBH), ainda menos. “Todos os dias, a PBH solta um ofício mudando tudo, sem sequer pensar nos professores, funcionários e demais. Essa volta foi uma resposta à sociedade e, a meu ver, sem respeito nenhum pelos profissionais”.

Valquíria afirmou que, apesar de muitos protocolos, a adaptação da Laura foi rápida e muito positiva e que ela está amando a escola e os amigos. Como professora, a experiência da Andréa é outra: “Estou com uma carga muito grande de atividades, pois tive que criar estratégias mais criativas para colocar em prática, percebo que as crianças também estão perdidas”.

A docente toma para si a responsabilidade de entender e ter empatia com o aluno: “Tento ter um olhar mais humano, me colocar no lugar do outro e entender os sentimentos para além da verbalização. Considerando que, muitas vezes, não há por parte das crianças uma capacidade clara e estruturada de verbalização”.

Andréa Nobre leciona em uma escola da região nordeste de Belo Horizonte, enquanto Laura estuda na região leste. Abrem-se parênteses para enfatizar que as desigualdades podem se manifestar dentro de uma mesma cidade e em regiões extremamente próximas, assim como para mostrar que cada um enxerga a realidade dentro da sua própria singularidade.
 
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