21/11/2021 às 11h28min - Atualizada em 21/11/2021 às 11h05min

A fome é uma crônica

Como a crônica, a fome ensina, reflete e comunica. Mas sem o glamour dos que chegam a saber o que é uma crônica, os nossos trocadilhos dão lugar a só alguns trocados

Irion Martins - Editado por Ynara Mattos
Foto: Nide Lins/Reprodução.
O relógio marcava onze da noite. Depois de um dia cansativo, eu só queria me recompensar. No caminho para casa, de dentro do carro, o vento caloroso das frias avenidas de Aracaju sussurravam não sei o quê em meu ouvido. Algo me embrulhava o estômago e eu também não sabia direito se era fome ou capitalismo. Fosse o que fosse, nenhum desses dois grandes males avisou antes de fazer qualquer estardalhaço na História. Então, pouco me importam as horas e o cansaço, eu pensei, querendo me perdoar de mim mesmo.

Estacionei em frente ao primeiro trailer que vi. Com vista para o rio Poxim, aquela lanchonete a céu aberto era contornada por uma escuridão que eu encarava e pensava poder ser tudo e nada. Era mesmo uma noite de mistérios. E essa coisa que eu não sabia o que era, mas sabia como resolver, já me consumia. Pedi o cardápio e li, logo de cara, o que mais estaria por vir. Era a primeira vez que eu estava prestes a comer um passaporte, o nome que dão por aqui ao cachorro-quente-que-não-é-cachorro-quente-porque-é-mais-caprichado. Eu nem quis ler as outras opções. Meus amigos foram específicos no comercial a ponto de cravarem o pedido em minha memória com a mesma força que o garçom cravou a comanda no suporte preso ao balcão. Passaporte misto de carne e frango era o que mataria a minha fome, se outra coisa não a tivesse matado antes.

Tudo parecia tranquilo até três pessoas, sentadas à beira da calçada, levantarem para pedir comida de mesa em mesa. Eram homens, jovens, e, ao mesmo tempo, com uma aparência muito mais velha do que a idade que deveriam ter. Agora, escrevendo, recordo das aulas de Biologia do Ensino Médio, quando a professora Geane repetia em quase todas as aulas que “a digestão começa pela boca”. Contudo, dessa vez foi diferente. Apressada, aquela noite pandêmica que estava para virar madrugada quis que eu abrigasse uma realidade tão cruel e inteira pelos próprios olhos. Eu tinha pedido o passaporte para viagem e ele me tirou o chão antes mesmo de chegar à mesa.

O meu olhar variava a direção entre a escuridão do rio e a torcida arriscada por aqueles que se atiravam à própria sorte. Cada homem ia para uma mesa, e cada mesa era, para aqueles três homens, àquela noite e em tantas outras nas quais não estive, a inquietação que a escuridão do rio era para mim. Eles se distanciavam cada vez mais e eu já fazia esforço com o olhar para saber, se dos poucos que restavam, ao menos um cliente teria dinheiro suficiente para lhes oferecer alimento. Mas, sem forçar a visão e sem nenhum superpoder, a fome por detrás daquelas máscaras de pano era nítida e eu não conseguia digerir. As chances acabaram e só um dos homens conseguiu vencer naquele dia. Ou ao menos naquele segundo, porque pouco depois voltaria à estaca zero, quando a fome lhe faria esquecer qualquer sabor antigo no espaço-tempo que é a eternidade de quem dorme junto à Lua.

“Para você e para os seus amigos”, eu escutei o cliente dizer. Então fiquei em paz quando vi que ele estava comprando lanches para os três rapazes. E antes que desaparecessem de cena, desapareceram primeiro e feito antes para todos ali. Eu continuei vendo e notei que dois dos homens estavam à beira da calçada. Olhei mais ao longe e, quase homogêneo ao vazio do Poxim, vi o homem que recebeu os pães recheados sumir como um cometa. Com tudo. Ao mesmo tempo, com nada.

Ninguém poderia fazer coisa alguma, porque agora os três homens já haviam saído da frente da tevê e do meio da passagem dos garçons. Eram invisíveis de novo. Mas penso que, se fizessem, teriam feito o pior. Apedrejariam o homem-cometa. Será? Ou a raiva era toda e só minha e não assumi? O meu passaporte chegou e eu engoli em seco qualquer rancor. Dali, de cima daquela cadeira de plástico onde, desconfortável, ainda era tudo mais fácil, eu perdi a fome por entender o que é a fome de verdade.

A fome de verdade implora. Se atira à morte diariamente, para tentar, paradoxalmente, sair dela mais vivo. Porque a fome de verdade não se mata nunca quando consegue o que quer, ela sai correndo e dá uma volta em si mesma. Depois descobre que não queria o que quis. Queria mais. E escuta ser ingratidão querer mais, ou querer outra coisa que não o que recebeu. Não era ingratidão, era só vontade... A fome de verdade quer mesmo tudo e não divide com ninguém. Ela não sabe o que é ter empatia. Está sempre na margem. Na margem do rio, na Marginal, na margem de erro de uma nação. Na margem da pista que passa por debaixo da ponte Aracaju-Barra que, agora que minha visão se acostumou ao escuro, eu enxerguei. A fome de verdade é vigilante e enxerga tudo. Mas eu me distraí. E, quando olhei de novo, a calçada estava menos vazia que o vazio da fome dos homens que a ocupavam antes.

Sem fome, eu comi o passaporte inteiro. Devagar, porque a fome de verdade é que não saboreia. Comi lembrando de tudo. Dos ossos sendo vendidos nos açougues; dos preços das coisas que estão altos até para quem tem o luxo de poder pagar; de Rosângela, a mulher que foi presa por furtar miojo e seiscentos mililitros de Coca-Cola para os filhos porque ousou sonhar em ser gente. Sofri e, ansioso, lembrei que posso usar o fato de ser aquariano para contra-argumentar a ideia de que estou exagerando, quando comentar esse sofrimento com alguém. Mas em seguida, lembrei que a fome, a fome de verdade, mata. Sem eufemismos ou signos.

Entre a narração dos que observam e a argumentação dos que vivem na pele, a fome é esse gênero que ninguém sabe direito o que é. Que ninguém sabe se vai ser tema jornalístico ou se vai ser romantizada no meio literário como um exemplo de superação dos que a venceram! A fome é, então uma crônica. Porém, com menos privilégios ainda. Ela não tem sequer delimitação de artigo, indefinido que seja. A fome de verdade é crônica, só crônica e ponto. É uma doença que leva tempo e começa antes de começar. Em 2021, perder o emprego já é um sintoma.

Como a crônica, a fome ensina, reflete e comunica. Mas sem o glamour dos que chegam a saber o que é uma crônica, os nossos trocadilhos dão lugar a só alguns trocados. Sem o básico, a fome crônica não tem nem ao seu próprio adjetivo. Aí só sobra ela: a fome. Essa fome insaciável que o Brasil tem, que passaporte nenhum há de matar. Essa fome de si mesmo.

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