22/11/2021 às 10h15min - Atualizada em 22/11/2021 às 10h13min

Obrigado por fumar: uma análise entre a data contra o uso de tabaco e a liberdade de escolha

“Suponhamos que você defenda o sorvete de chocolate; eu, o de baunilha. Você dirá que o seu é a melhor coisa do mundo. Eu direi que a melhor coisa do mundo é poder escolher entre chocolate e baunilha. - Com isso você não me convenceu de que baunilha é melhor-; mas eu não quero te convencer, quero só provar que estou certo e você errado”.

Letícia Franck - Editado por Larissa Bispo
Reprodução: Divulgação
O tabagismo é uma doença caracterizada pela dependência da nicotina e responsável por cerca de 200 mil mortes por ano no Brasil. A Organização Mundial da Saúde (OMS) considera o vício em cigarro como uma doença epidêmica e a principal causa de morte evitável em todo o mundo. Ainda, segundo estimativas, um terço da população mundial acima de 18 anos - dada como base -, 1 bilhão e 200 milhões de pessoas sejam fumantes.

O dia 16 de novembro celebra a luta contra um dos inimigos mais evitáveis: o dito cujo lá do início do texto. “Dia sem Fumar”, eles disseram. O caso é que fazer terrorismo com a data seria chover no molhado: quem quer fumar, fuma; quem tenta parar... é, complicado. Mas não é sobre militância anti-tabaco o assunto de hoje. Talvez seja confuso - em um primeiro momento - escrever sobre “Obrigado por fumar”, em alusão ao dia de combate ao fumo; só que nada nessa vida faz muito sentido. Então, vamos lá e apertem os cintos.

Lobista é a pessoa que manipula negociações para benefício próprio e de seus aliados, ou ainda para prejudicar os adversários. Não, não é a pessoa que cria lobos. Apesar de ser o mais expressivo na contemporaneidade, um lobby não é somente político; ele também se expande nas demais esferas da sociedade. Você deve estar se perguntando o que isso tudo tem a ver com cigarro, 16 de novembro ou o assunto de hoje. O elo é exatamente este: um lobista que defende o cigarro enquanto o restante tenta alertar sobre os malefícios de seu uso. Parece interessante para você? Então, continue lendo.

Defender os direitos dos fumantes nos Estados Unidos é tarefa para Nick Naylor, personagem principal do filme “Thank you for smoking” (Obrigado por fumar, 2005), interpretado por Aaron Eckhart. Na democracia consumista não somos obrigados a comprar nada e, ainda assim, nós vamos lá torrar nosso dinheiro com um sorriso no rosto e satisfação na alma. Afinal, você não trabalha para isso? Ah, claro, os boletos também. Mas vamos falar de coisa boa?

Dominar a publicidade e a propaganda das grandes marcas em um mundo predominantemente midiático e influenciável pode ser considerado usufruto de liberdade? Bom, Nick acredita que sim, e chega a ser tragicômico. Defender o cigarro e dizer que, no fundo, não é ruim, não é tarefa fácil. O texto afiado e melodramático nunca fica chorão demais (desculpa, Charlie Brown); pelo contrário: é com bom-humor que o lobista defende o que faz mal. É como a velha desculpa, certamente conhecida por todos: “O problema não é você; sou eu”.

O senador democrata Ortolan Finistirre (William H. Macy) quer a imagem de uma caveira figurando maços de cigarros, para mostrar que cigarro mata e que esse é o fim de todo fumante (afinal de contas, quem não fuma, não morre, né? Imortal mesmo, Sandy&Júnior). Então entra a liberdade: fuma quem quer, é preciso que as pessoas decidam o que almejam fazer de suas vidas e estampar uma morte olhando para elas toda vez que pegam um cigarro é instituir algo sem lubrificar nada.

Que o cigarro faz mal, todo mundo sabe - ele é protagonista de mais de cinquenta doenças. O que acontece, no entanto, é que cuidar da vida dos outros também é ruim para a saúde e ninguém está preocupado com isso. Nessa leva o ator principal vai procurar um produtor de Hollywood para ver se consegue reemplacar o cigarro na telona, como nos filmes charmosos de antigamente. Afinal, Brad Pitt e Catherine Zeta-Jones fumando um cigarro depois de fazerem amor no espaço sideral... Não há, realmente, propaganda subliminar mais poderosa.

Existe um livro homônimo muito usado nas faculdades de Publicidade e Propaganda. Eu acredito que ler os argumentos usados e as técnicas de marketing utilizadas na produção e obra são extremamente interessantes. Embora cômicas - e cínicas, até -, são argumentos reais e fáceis de serem identificados por fumantes ou não. Nick realmente conhece o produto que está vendendo e faz uso de muitas técnicas de argumentação para sair ganhando discussões e deixar uma dúvida em seus opositores. Um homem que dá vida a algo que mata é indiscutivelmente glorioso, para dizer o mínimo.

Aos cinéfilos de plantão, essa dica é primorosa. Se você não gosta tanto assim da Sétima Arte, procure ler a obra - igualmente incrível. “Obrigado por fumar” mostra o errado, mas nos levanta essa bandeira: ser honesto ao vender o seu serviço e deixar o consumidor decidir sobre a escolha dele, como este texto. Não estou dizendo que você deva fumar ou que precisa parar imediatamente; estou dizendo que uma data estipulada não pode mudar sua vida. Quem muda ela é você.

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