23/06/2019 às 20h01min - Atualizada em 23/06/2019 às 20h01min

Amar nunca é demais?

Socorro Moura - Editado por Millena Brito
Imagem: Instagram (https://www.instagram.com/p/BkNUpilHXsf/?igshid=1inaqhnzyknbz)

Nas habituais navegações nas redes sociais, certa vez, vi uma postagem contestando o preceito de “amar demais”. A pessoa em questão, alegava que amar nunca é demais. Claramente, houve uma inversão do significado da expressão, um problema de português, usado para contrapor o que tal sentença de fato comporta: a dependência emocional, para além de fatores psicológicos, mas também reforçados por uma construção social que historicamente tem um peso maior sobre as mulheres.

Na tal postagem, alegava-se que devemos sim amar sem medidas e que a entrega total antecede qualquer bom relacionamento. Onde encontro por aqui aquele emotion revirando os olhos?(rsrs) Por muitos anos, a depressão foi desacreditada; e ainda há resquícios de que é. Sempre tem alguém, que na proteção da intimidade, solta que a doença é simplesmente falta de Deus. Falta de informação? Talvez. Temos a impressão que as campanhas mensais com temáticas representadas por cores tem um alcance global. Muitas vezes não é. É só a nossa bolha se movimentando. Ver não é internalizar e conscientizar requer passos maiores e mais demorados. Chegaremos lá.

Presente em vários estados, há o grupo MADA que trabalha o amor sob a perspectiva disfuncional. Intitulam - se como irmandade e apenas tratam com acolhimento e os depoimentos, dados de forma espontânea e sem roteiros, estão como parte do processo de autoconhecimento e de enfrentamento da própria dor. O enfoque é a mulher se reconhecer como quem ama demais e, através do compartilhamento de vivências, promover uma autoavaliação, mas principalmente entender que não está só.

Para vislumbrar um pouquinho o mecanismo de quem ama demais, conversei com Penélope Sousa, uma MADA, que conta um pouquinho de como constatou que estava com um problema e o seu processo de desintoxicação: “Hoje tenho 38 anos, mas percebi que tinha algo estranho desde os meus 20. Sempre fui muito reclusa, controlada e ingênua. As descobertas dos pares amorosos se deu através da internet. E quando não dava certo, meu estado de desiquilíbrio era algo assustador, mesmo depois dos 30. Quando mais nova, ao procurar nas buscas de internet sobre o que poderia me fazer tão sofredora, acabei descobrindo o MADA e sua filosofia, e desde então eles me acompanham”.

Ela relata a dificuldade de se enxergar como mulher que ama demais, algo que acredito, todos já devem ter conhecido alguém parecido: “Não fui a reuniões porque meu estado não possui o grupo, mas através da literatura disponível no site, comecei a me questionar se de repente aquilo não fazia parte do meu mundo. Quando mais madura, procurei terapeuta por motivos diversos, mas no final, sempre descambava sobre minha forma de amar e em como isso traçava meu destino e como aquilo me paralisava.

Promovi verdadeiras mudanças em minha vida pela promessa de viver um grande amor. Aceitei homens distantes, frios, problemáticos sabe lá Deus porque, mas basicamente era pela forma como tinha me construído como mulher. Mas hoje, depois de encarar a terapia e me reconhecer frágil nesse aspecto, consegui sair de um marasmo de anos, de uma vida sem sonhos e sempre pensando mais neles. Teve uma constatação que veio da minha irmã e me marcou, e que rondava a minha cabeça e não tinha coragem de admitir: hoje só não sou uma profissional bem sucedida por conta da minha forma de amar. Já sabia disso, e com muito esforço e ajuda resolvi mudar, e graças a Deus, recomecei minha vida aos 30 e poucos anos...Estou fazendo a faculdade de odonto, o curso dos meus sonhos!”.

Penelópe é um nome fictício, mas como ela falou, compartilhar mesmo sem se identificar não deixa de ser uma forma de ajuda. É sim! Tanto que também está surgindo outras formas de auxílio: recentemente houve uma iniciativa por parte do Ministério Público de São Paulo, a cartilha do #NamoroLegal, relacionado as características de namoros abusivos, e qual atitude tomar diante de tal situação, afinal se reconhecer como dentro de algo não saudável exige mais do que uma atitude de amor próprio, mas de uma construção que também parta de políticas públicas que comecem a fomentar a desconstrução de um tabu que é o tema de dependência emocional e suas consequências.Não é muito difícil encontrar quem desqualifique uma mulher em situação de abuso como “sem vergonha” ou que “gosta de sofrer”. Isso ainda permeia o imaginário coletivo e bloqueia qualquer atitude mais empática quando estamos diante de situações do tipo.

Ainda assim, é gratificante perceber as pequenas mudanças, como uma simples cartilha do poder público (ela é muito bacana!) ou até mesmo da indústria cinematográfica: quem não lembra da personagem Elsa, do famoso Frozen, que foi marcada pela independência da personagem, mas também pela forma como ela foi capaz de desmitificar, através de simples questionamentos, o amor do qual a irmã idealizava sem medidas e que quase a prejudicou. Nós mudamos, a Disney teve que começar também, porque afinal...

Eu sei a vida não para, a vida não para não

Será que é tempo que lhe falta pra perceber
Será que temos esse tempo pra perder
E quem quer saber
A vida é tão rara
Tão rara
Tão rara
A vida é tão rara. A vida não para.
 

 

 


Link
Notícias Relacionadas »
Comentários »