09/02/2022 às 17h51min - Atualizada em 09/02/2022 às 17h29min

Eu, corrompida: relatos de uma ex interna em um hospital psiquiátrico

Adrieli Fátima Bonini - Editado por Larissa Bispo
Reprodução: Arquivo Pessoal
Ainda consigo escutar o silêncio das noites quentes de insônia naquela ala psiquiátrica no final de janeiro. Às vezes, me vejo deitada na cama desconfortável, no travesseiro assemelhando-se a uma fina folha de papel, o ronco insuportável da minha colega de quarto, uma idosa de 60 anos, os desenhos toscos na parede tentando imitar um “recinto alegre”; mal sabe quem os pintou, que eu tinha vontade de arrancar pedaço por pedaço.

Tinha vezes no qual passava a noite ouvindo gritos dos pesadelos de outros internados nos outros aposentos e pensava se eu gritava daquela maneira, quando tinha os meus típicos sonhos assombrosos ou as paralisias do sono. Lá dentro, tinha de tudo, desde pacientes que tentaram suicídio como eu, e são um risco para si mesmos, até dependentes químicos, depressivos, ansiosos, bipolares, ou aqueles alocados lá por ordem judicial.

Segundo um artigo de um estudo acadêmico retirado do site Scielo, os dados mais recentes sobre as internações no Brasil são de 418 no ano de 2018 e 2019, só em 2018, apresentou um total de 190 internações.

Meu primeiro dia

Enquanto rabisco pelo meu caderninho de margaridas, encontro-me com eletrodos grudados nos membros inferiores e superiores, além do peito. Precisei fazer um eletrocardiograma devido à minha arritmia cardíaca, diagnosticada por um cardiologista no inverno de 2021.

Me vi chorando veemente até precisar ser carregada numa maca, com uma agulha que me alimentava com algum tipo de ansiolítico; isso aconteceu depois de eu ter que relatar ao psiquiatra de plantão sobre quando fui abusada aos 15 anos. E sobre como senti meu corpo violado. Machucado. Aquela culpa do caralho, no qual eu senti e senti, e guardei por sete anos... até não conseguir mais.

“ESTÁ TUDO CINZENTO E DOLORIDO! ”

Sexta-feira

Eram permitidas somente duas ligações por dia a cada internado. Eu estava sem o meu celular. Sem contato com o mundo de fora. Me sentindo extremamente deprimida e solitária... e os remédios que me dopavam não paravam de chegar. As refeições eram feitas em uma mesa grande na sala de recreação. Não era aceitável de nenhuma maneira almoçar no seu próprio quarto. As roupas de cada internado ficavam em armários trancados no corredor da ala. “Eu quero ir embora. Esse lugar assemelha-se a uma prisão (...) estou muito pior do que quando entrei. Eu estou dopada”.

Sábado

Era extremamente difícil saber o número do dia em que estávamos. Eu só conseguia saber que era final de janeiro. Lembro-me que sentia muita falta de enxergar meu reflexo no espelho. Não havia nada de espelho. Absolutamente nada de vidro. Nesse dia, fiz teste da Covid-19, deu negativo. Porém, logo ficamos sabendo que havia um surto do vírus na ala. Isso aumentou meu desespero em ir para casa, logo.

A vista externa daquele lugar era horrível, me deixava mais deprimida. Não era um jardim florido, nem um gramado verde. A janela enorme da sacada exibia dutos de ar condicionado e telhados de zinco.

Domingo

No domingo, passei o dia na cama, chorando e tendo crise de ansiedade. Sentia uma claustrofobia vinda do lugar mais profundo que existia. Ela me abraçava e me sufocava até eu gemer e imaginar minha família e o conforto da minha casa.

Eu tive depressão infantil e ansiedade quando era criança. Conforme fui crescendo, minha dor foi aumentando, e eu fui diagnosticada como bipolar tipo 2. Eu não sou preguiçosa... eu tento me reerguer, mas vem aquela onda dolorosa e me leva para as profundezas novamente, e assim por diante. Não importa quantas vezes eu tente, essa onda sempre vai me levar para aquela profundeza de novo... e nessas ocasiões, sempre poderei ser encontrada na minha cama, inerte.
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