01/03/2022 às 11h45min - Atualizada em 01/03/2022 às 11h17min

A derrubada do mercado popular de Botafogo na zona sul do Rio de Janeiro

Lucas Melo - labdicasjornalismo.com
Trator derruba quisques em Botafogo Foto: O Globo / Verônica Raner

   Em 2021, a prefeitura do Rio de Janeiro derrubou mais de 90 quiosques localizados em Botafogo, zona sul do Rio. A operação ocorreu no dia 11 de julho e aconteceu com a ajuda da equipe da COOPE (Coordenadoria Técnica de Operações Especiais), com o apoio da CGOE (Coordenadoria Geral de Operações Especiais) e também da CCU (Coordenadoria de Controle Urbano). A prefeitura afirma que os quiosques, que ocupavam aquele espaço a bastante tempo, estavam no terreno de uma construtora e estavam totalmente desregularizados.

   O mercado popular de Botafogo surgiu em 1998, em uma ação da prefeitura de tirar os ambulantes que trabalhavam espalhados pelas vias públicas das ruas da zona sul. Os trabalhadores ao longo dos anos ganharam reconhecimentos, como a lei de 2018, que decretava que o mercado popular e um bem imaterial da cidade do Rio de Janeiro, mas mesmo assim, não conseguiram conquistar suas licenças como quiosques. Em 2016, em um trabalho conjunto, a prefeitura e os trabalhadores fizeram a revitalização da área. O dinheiro para o projeto veio dos trabalhadores.

   Segundo trabalhadores da região, desde 2008 eles recebem avisos de despejo, mas sempre conseguiram articular com a prefeitura e desse jeito conseguiram ficar até 2018, quando veio a notícia oficial. Os representantes do mercado tentaram fazer de tudo para não saírem, mas a ordem veio da justiça. Segundo eles, os quiosques estavam no terreno de uma construtora, e já fazia anos, elas vinham tentando retomar seu espaço de volta, mas só em 2018 que finalmente saiu a decisão da justiça.

   A maioria dos trabalhadores da região decidiu fazer um acordo com a prefeitura e com a empresa, para que fossem realocados em uma outra área, e assim mais de 60 quiosques da região foram derrubados. Um pequeno grupo ainda se manteve e decidiu ir à justiça, mas acabaram perdendo, e em 11 de julho de 2021, aconteceu a derrubada de seus quiosques. O ato aconteceu no meio da pandemia da Covid-19, e deixou um grande número de trabalhadores autônomos sem suas fontes de renda. Muitos ali começaram a viver só do auxílio emergencial dado pelo governo, que segundo eles, não era o suficiente para o básico.

   Ainda sobre os trabalhadores locais, alguns tiveram a sorte de conseguir alugar um local, que foi o caso da Priscilla Fernandes, esposa do dono da Sopa Dois Irmãos, um dos quiosques da região que decidiu ir para a justiça. Segundo ela, “a prefeitura mandou avisos de despejo desde 2018 e no auge da pandemia, em 2021, aconteceu a derrubada”. Priscilla ainda diz, “o quiosque ficou dois dias fechado, não tínhamos reservas financeiras nem nada. Conseguimos alugar um carrinho em frente ao que era o antigo quiosque e estamos lá até hoje.”

   Os trabalhadores locais decidiram se unir e levaram suas reclamações e suplícios para a prefeitura do Rio, e então começaram a batalhar para reaver seus locais de trabalho. Em comunicado oficial, a prefeitura diz ter avisado sobre a remoção desde 2018 para os titulares dos quiosques, e tendo a justiça decidido por uma multa de R$ 100 mil por descumprimento do prazo proposto. Alguns dos donos dos quiosques que decidiram sair antes foram realocados em 6 bairros diferentes da zona sul, sendo eles: Laranjeiras, Catete, Botafogo, Cosme Velho, Flamengo e Glória.

  Segundo o representante da associação do mercado popular de Botafogo, Tiago Samora afirma ‘’a prefeitura nos auxiliou na procura de um novo lugar para alguns dos quiosques, mas a maioria ainda sofre as consequências do despejo, pois agora não temos mais estruturas como os quiosques, e sim, voltamos para como era em 1998’’. Segundo o CCU, os quiosques estavam totalmente desregulados, não tendo a permissão para usar equipamentos elétricos ou de gás.

   A operação aconteceu na tarde do dia 11, e contou com 3 órgãos diferentes, além da RioLuz, Naturgy e Cedae, que foram responsáveis por desligar os pontos de energia, gás e água. A Comlurb, polícia militar e guarda municipal também participaram. O dia foi marcado por protestos pacíficos contra a ação. Quase 1 ano depois, no local onde havia inúmeros movimento e fonte de renda para milhares de trabalhadores, há uma grande parede branca, atrapalhando a passagem dos pedestres e acabando aos poucos a diversidade cultural que tinha na área.

   No dia 15 de fevereiro de 2022, os trabalhadores do local se juntaram ao Muca em um protesto feito para reaverem seus trabalhos. A manifestação começou na Candelária e foi seguindo para a prefeitura. Os manifestantes gritavam ainda, apelos para que o governador expanda o auxílio carnaval, acabe com a SEOP, crie depósitos e para que suspenda o TUAP 2022.

   Graças aos esforços de todos, a prefeitura do Rio decidiu criar um espaço para todos os desalojados pela ação, bem em frente aos antigos. Serão postos mais de 50 quiosques em novas estruturas confiáveis e duráveis em frente ao metrô de Botafogo. Ainda, a prefeitura deu a permissão para os autônomos voltarem a trabalhar regularmente nos novos espaços assim que terminar a construção.

   Infelizmente casos assim acontecem diariamente no Rio de Janeiro. Com as altas taxas de desemprego, e sendo uma cidade turística, cada vez mais trabalhadores, sem opções, estão indo para a autonomia. A geração de empregos de quiosques e camelôs como os quais foram derrubados é absurda e por mais que sem garantias, é a única forma de sustento de milhares de pessoas em anos tão difíceis como esses.

   Definitivamente o dia 11 de julho de 2021 ficou marcado como o dia em que milhares de trabalhadores perderam suas fontes de renda. Ficou marcado como o dia em que muitas pessoas choraram pelos seus empregos. 


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