07/04/2022 às 23h16min - Atualizada em 07/04/2022 às 22h31min

O boicote mundial à cultura russa

O conflito entre Rússica e Ucrânia levantou diversos questionamentos ao redor do mundo, um deles foi sobre a separação entre representação política de seu povo e cultura

Emily Prata - Editado por Larissa Bispo
CBN e UOL
Reprodução: Olho Digital

Mais de um mês após o conflito entre Rússia e Ucrânia e com poucas mudanças de cenário, vários questionamentos foram levantados em diferentes tópicos de discussão não só na política, mas na economia, nas coberturas midiáticas e também no setor cultural. Desde o início dos ataques Russos a Ucrânia, a mídia vem boicotando a Rússia, não só cortando as suas transmissões de seus canais no país, mas os artistas russos - vivos ou mortos - também vêm sendo atacados e cortados dos eventos culturais ao redor do mundo. 

 

A Rússia, antes muito celebrada por sua música clássica, agora tem obras de seus maiores compositores retiradas de cartazes das orquestras sinfônicas. A orquestra filarmônica de Cardiff, por exemplo, removeu obras de compositores russos de seu catálogo. Enquanto isso, Carnegie Hall e a Ópera Metropolitana de Nova York informaram que não vão mais apresentar artistas russos, como a soprano Anna Netrebko. O coordenador da Orquestra Sinfônica Brasileira, Nikolay Sapoundjiev, afirma que cancelar os grandes nomes da música é um exagero:
 

“Aquele que cancela Tchaikovsky e Prokofiev tem que pensar um pouquinho mais o que exatamente está cancelando. E se ele acha que desta forma está cancelando as ações do Putin, infelizmente está enganado, porque realmente não tem nada a ver cancelar uma obra que foi composta em 1890.”

 

Unindo-se a essa onda de cancelamentos, uma universidade de Milão (Itália) suspendeu um curso gratuito sobre o autor Dostoiévski, autor de Crime e Castigo e morto há mais de 140 anos. O cancelamento do curso gerou revolta nas redes sociais, que classificou a ação como censura, após o professor Paolo Nori, que iria ministrar o curso, se manifestar nas redes sociais. O curso acabou sendo reaberto, mas, ainda assim, a ação já havia marcado o público. Já na Gênova, um festival dedicado ao mesmo autor foi cancelado por conta do apoio do Consulado Russo ao evento. 
 

“A russofobia, a repulsa, o certo grau de ódio que o mundo vem manifestando com relação aos russos vem crescendo desde 2014. Claro que a política não ajuda, mas uma coisa é o governo, outra coisa é o povo. Nós não podemos achar que vale tudo em uma guerra, igualando o inimigo, se igualando aquilo com que a gente não concorda”, disse o jornalista o jornalista e mestre em cultura russa pela USP, Fabrício Vitorino. 

 

No meio do entretenimento, as agências de streaming e produção audiovisual suspenderam a distribuição de suas novas produções no país, além de pausar as produções originais russas e a aquisição de novos estúdios no país. Medidas como essa foram apenas o início das manifestações de repúdio às produções culturais russas. O Festival de Cannes anunciou que, se o conflito continuar, nenhum filme do país poderá ser apresentado. Já os Festivais de Estocolmo e o Festival de Glasgow retiraram todos os filmes com financiamento russo. Apresentações de companhias de balé russas também foram afetadas; a Royal Ópera de Londres anunciou o cancelamento de uma temporada do ballet Bolshoi.

Assim como shows do Russian State Ballet of Siberia também foram cancelados na Inglaterra, e uma temporada de Lago dos Cisnes, pelo Royal Moscow Ballet, foi encerrada prematuramente em Dublin, na Irlanda.
Além disso diversas emissoras de TV e veículos de comunicação retirarem suas bases e correspondentes oficiais do território russo, não apenas por uma questão de boicote, mas também de segurança, já que o presidente do país não aceita que o conflito seja denominado de guerra e qualquer manifestação que afete negativamente a imagem da Rússia publicada no país seria retaliada. 

 

O presidente russo, Vladimir Putin, e outras figuras políticas russas direcionaram suas opiniões quanto ao assunto, repudiando essas ações quanto à exclusão cultural que a Rússia vem sofrendo. “Hoje estão tentando anular um país que tem mil anos - e estou falando da progressiva discriminação contra tudo o que está relacionado com a Rússia”, afirmou Putin em um discurso televisionado. Esse cenário levanta uma discussão muito importante sobre os extremismos presentes no mundo. Muitos especialistas, como os já citados nessa matéria, explicam que a Rússia da guerra não é a mesma de produção culturais históricas.

Assim como atletas e artistas não são responsáveis por decisões políticas tomadas pelos líderes de suas nações, é necessário saber separar o âmbito cultural do político.
Esse tipo de comportamento apenas desperta um comportamento preconceituoso e xenofóbico perante uma cultura que há muito é desvalorizada e ridicularizada pelo mundo ocidental, agora encoberto pelo véu de apoio a Ucrânia em meio a esse ataque militar, detalhes da cultura russa vem sendo rechassados pelo mundo, desde a músíca até a culinária. Além de que faz pouquíssimo sentido atacar e boicotar nomes renomados da música clássica, por exemplo, que já não estão mais vivos para opinar ou participar dessas decisões políticas. 


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