22/04/2022 às 18h32min - Atualizada em 19/04/2022 às 15h10min

A aliança entre Lula e Alckmin

Aliança do ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, para compor uma chapa presidencial ao lado do ex-presidente Lula gerou grande repercussão na internet, atraindo críticas tanto da esquerda quanto de conservadores.

Ana Lívia Menezes - Editado por Eduardo V. Schmitt
Foto: Zanone Fraissat/Folhapress
Na sexta-feira, 8 de abril, o nome do ex-governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, foi oficialmente anunciado pelo Partido Socialista Brasileiro como pré-candidato a vice-presidente da República na chapa do ex-presidente Lula.
Em evento com a presença de Gleisi Hofmann (presidente nacional do PT), Lula e Alckmin, em São Paulo, o presidente do PSB, Carlos Siqueira, apresentou carta de indicação ao presidente do PT.
O ex-governador de São Paulo disse que aceitou a nomeação com "honra e entusiasmo".
“Vamos somar esforços para a reconstrução do nosso país. Nós vemos hoje um governo que atenta contra a democracia e as instituições. 
Chega de sofrimento para o povo brasileiro. É com esperança, entusiasmo e amor que vamos colocar nosso nome à disposição”, disse Alckmin.

 


O diretório nacional do PT aceitou a indicação de Geraldo Alckmin (PSB) para compor a chapa ao lado do Lula, na última quarta-feira, 13. Apesar das mobilizações contrárias dentro do PT, Alckmin teve a indicação aprovada por 68 votos a favor, 16 votos contra (13 contrários a Alckmin como vice, mas a favor de aliança com o PSB; e três contrários a Alckmin e à aliança com o PSB).
 
Tomando como certa a escolha de Alckmin, Lula saiu em defesa do ex-governador de São Paulo e teceu elogios ao seu vice, relembrando a trajetória política do ex-tucano e exaltou a sua experiência, além de esclarecer as divergências históricas e ressaltar que Geraldo Alckmin, agora é um "companheiro".

 
"[Ele] foi vice do [Mário] Covas por seis anos, foi governador e tem experiência política. Nós vamos precisar da minha experiência e da experiência do Alckmin para reconstruir o país, conversando com toda a sociedade brasileira", disse."Daqui para frente, você não me trata como ex-presidente e eu não te trato como ex-governador. Você me chama de companheiro Lula e eu chamo você de companheiro Alckmin", afirmou Lula.



TRAJETÓRIA DE ALCKMIN

Formado em medicina, iniciou sua carreira política em Pindamonhangaba, onde foi eleito vereador aos 19 anos, e prefeito aos 24.
Em 2000, foi candidato a prefeito de São Paulo, sendo derrotado no primeiro turno. Com a morte de Covas em março de 2001, assumiu o governo do estado e foi reeleito em 2002.

Em março de 2006, renunciou ao governo de São Paulo para concorrer à presidência nas eleições do mesmo ano.  Alckmin, quando estava no PSDB, foi adversário de Lula no segundo turno em 2006, quando o petista foi reeleito presidente, em um momento onde trocaram uma série de acusações e discussões acaloradas durante a campanha eleitoral. Ganhou 39,17% dos votos no segundo turno, derrotado por Lula.

As negociações entre Lula e Alckmin sobre a composição da chapa eleitoral se estenderam por meses e envolveram a saída do ex-governador de São Paulo do PSDB.  Depois de meses de negociações, o ex-governador de São Paulo e um dos fundadores do Partido Social Democrata Brasileiro (PSDB), partido ao qual estava há 33 anos, ingressou no PSB para se tornar vice de Lula na corrida presidencial.

A construção da chapa trouxe Alckmin de volta ao cenário político, que estava apagado no partido e nos debates políticos após sua derrota em 2018, quando terminou em 4º lugar na corrida presidencial, com menos de 5% dos votos. Alckmin foi colocado pra escanteio por seu companheiro de partido, João Dória, que durante a eleição de 2018 mostrou forte proximidade com Bolsonaro, exibindo inclusive o slogan ''Bolsodoria'', mesmo com Alckmin concorrendo à presidência. Dessa forma, a chapa com Lula foi um resgate da sua vida política que desde 2018 estava apagada.

Essa união que para muitos foi surpresa ou irônica, pelo fato de Alckmin e Lula terem sido de partidos opostos e Alckmin possuir um eleitorado, majoritariamente composto por conservadores e antipetistas. O eleitor de Alckmin de hoje é a pessoa que provavelmente votou em Bolsonaro nas eleições de 2018. Dessa forma, a chapa tentará converter alguns desses eleitores de centro-direita para Lula-Alckmin

EXPECTATIVAS PARA ALCKMIN COMO VICE

Em conversa no Podcast do G1, O Assunto, o jornalista Zambeli, analista-chefe da plataforma Jota em São Paulo, fez uma análise da aposta de Alckmin como vice.
"Geraldo Alckmin desempenhará missões pontuais, em áreas onde transita bem, como o agronegócio. Alckmin não vai disputar o protagonismo com o Lula, até porque mesmo que Alckmin não estivesse na chapa, as pesquisas mostram que Lula ainda seria favorito. Ele sabe que não faz sentido disputar espaço com quem está encabeçando a chapa e tem os votos", resume.





Zambeli lembra ainda que, Alckmin foi um vice 100% leal a Mario Covas no governo paulista: 

“Lula já disse a pessoas próximas que confia nele nesse sentido. Pois, espera-se que o vice-presidente seja uma pessoa confiável que não vá contra o chefe de estado ou conspire contra ele".

Para Zambeli, a presença do ex-tucano no governo poderia criar pontes com setores que, normalmente, faria oposição, atuando nas fragilidades de Lula,  estabelecendo diálogo com o Mercado Financeiro, relacionamento com os setores da agricultura e com as Igrejas, ou seja, a chapa tem a função de convencer setores que antes rejeitavam Lula de que ele não é nenhum ''extremista de esquerda'' e que seria capaz de compor com políticos divergentes, e tentar aproximar os eleitores de centro-direita.

Nesse sentido, a chapa de Lula-Alckmin será uma frente ampla e menos ideológica, segundo eles deixar de lado ‘’desavenças antigas e juntar todas as forças’’ contra Bolsonaro pela democracia e reconstrução do país.
 
CRÍTICAS A CONCILIAÇÃO DE LULA E ALCKMIN
 
Nos bastidores do PT, há críticas a conciliação entre Lula e Alckmin, a escolha de Alckmin representa a maior guinada à direita do PT. Esta conciliação deixa claro que Lula deixa de ser visto como um político de ''esquerda radical'' para ser visto como moderado e que estaria disposto a fazer negociação com setores da elite econômica e da mídia
 
Lula admitiu que em seu governo aumentou a despolitização, para críticos o partido do PT vem renunciado seu caráter ideológico na tentativa de vitória por uma grande reconciliação com grupos liberais e reacionários.

Dessa forma, a aliança abalou os alicerces do petismo, por fazer uma coligação com um candidato que até então era seu ‘’rival’’, e é inegável o clima de atrito que existe entre PSDB e PT.
As críticas não ficaram apenas no campo da esquerda, o partido do PSDB não viu com bons olhos, e inclusive, João Doria, criticou nas redes sociais.

REPERCUSSÃO NA INTERNET

Uma possível chapa com Lula e Alckmin tem sido um dos assuntos mais comentados no cenário político nas últimas semanas, pelo fato de terem sido adversários políticos durante boa parte de suas carreiras partidárias. Internautas compartilharam nas redes sociais, memes e comentários sobre a chapa Lula- Alckimin.
Bolsonaro e PSDB zombaram da postagem de Lula e Alckmin:

O ex-partido de Alckmin, PSDB, relembrou tweet de 2017 que Lula faz críticas a Alckmin: ''Eu quando disputei a eleição com Serra era uma coisa civilizada. Depois com o Alckmin não foi’,’ e completa ‘’ ele parece que mamou até os 14 anos’’.

Entretanto, a jornalista Fabiana Moraes do Intecept alerta para o ‘’melodrama que a imprensa criou da política’’ isto é, notícias que explora rivalidade entre os candidatos, ao reduzir os políticos em  vilões ou heróis, inimigos e amigos, e  não levando em conta que alianças e acordos são praticas comuns da vida política. Segundo ela, uma ‘’cobertura baseada em fla-flus quanto na espetacularização’’ não traz benefícios para o debate público e para a democracia.

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