09/08/2019 às 16h06min - Atualizada em 09/08/2019 às 16h06min

Mulher: literatura e mundo.

Vitória Messias - Editado por Leonardo Benedito
Da esquerda pra direita: J.K Rowlling, Virginia Woolf, Alice Walker e Anita Loo.
O grupo feminino Guerrilla Girls não estava errado quando disse que as mulheres precisam estar nuas para entrarem no Metropoliam Museum, já que menos de 4% dos artistas das seções de arte moderna são mulheres, mas 76% dos nus são femininos. 

Falar sobre mulheres e sua integração dentro da sociedade não é um assunto esporádico, nem mesmo um assunto contemporâneo, já que a maioria das pautas e roteiros de todos os gêneros abordam esse tema. A exclusão feminina foi, e ainda é, um movimento político e implícito, e ainda hoje sentimos e vemos suas consequências em todas as áreas cotidianas, principalmente no mercado editorial. Não existe exclusão masculina social, profissional, sentimental ou seja lá qual for a área.  Essa foi uma das questões levantadas por diversas escritoras.

Um exemplo claro das alegações, foi uma coluna publicada por André Forastieri,  publicada no dia 18 de agosto de 2014 no portal R7 com o título “Eu não leio livro de mulher”, onde ele diz que não lê literatura contemporânea, gênero em que segundo ele, as mulheres arrasam.

Joanna Walsh, escritora e ilustradora do jornal britânico The Guardian, em uma das suas colunas chega a argumentar que o problema não é se as escritoras são ou não são publicadas, mas sim o modo como seus textos são publicados.

Muitas escritoras foram omitidas e tiveram que aceitar o fato na esperança de serem renomadas e bem sucedidas, como por exemplo Joanne Rowling, que assina sua obra com o pseudônimo masculino J.K Rowlling. O pseudônimo tinha como objetivo mascarar seu gênero e igualar sua obra àquelas que eram assinadas por homens.  E não apenas bastava omitir o próprio nome, como também as próprias ideias.

Esse estereótipo, essa omissão de pensamentos, não é exclusiva de mulheres, ele se estende por todo mundo marginalizado que temos em nosso redor. O mercado editorial, assim como a maioria dos outros mercados que envolvem arte, possui um conceito que consiste em dizer que a literatura escrita por mulheres é exclusivamente lida por mulheres, não interessando aos homens. No Brasil, é ainda mais difícil discutir o assunto sabendo que nosso país é conservador e raramente está aberto à temática.

Sabendo disso, a análise aqui fica muito mais mercadológica do que literária, sabendo que a análise de dados do mercado editorial – principalmente o brasileiro – demonstram que as escritoras mulheres são inferiorizadas em relação aos homens. Não é um problema local, e sim global. Existe um desconforto abundante em relação a ausência de grupos importantes e cotidianos em nossos romances: pobres e negros, e com eles,  a baixíssima participação feminina no romance, no papel de produtor, escritor ou personagem, diferente da participação masculina, que é visivelmente mais ativa e trabalhada em todo o meio literário, e nas artes em geral.

Como escritoras e produtoras, o uso do pseudônimo masculino ainda é muito utilizado na atualidade. A própria existência dessa necessidade comprova a exclusão feminina ao longo do tempo.  

Virginia Woolf, escritora britânica, uma das maiores proeminentes figuras do modernismo, disse: “O que é uma mulher? Eu lhes asseguro, eu não sei. Não acredito que vocês saibam. Não acredito que alguém possa saber até que ela tenha se expressado em todas as artes e profissões abertas à habilidade humana”. A frase cai como uma luva no contexto citado, quando pouquíssimas mulheres tem a chance de se expressar com verdade e liberdade não somente dentro da literatura, mas em todos os âmbitos de uma vida cotidiana. Seja essa expressão uma obra renomada e reconhecida mundialmente, assinada com o nome correspondente ao gênero, até sair para trabalhar as seis horas da manhã e ter seu próprio sustento ou sustentar a família.  Apesar do movimento feminista crescer cada vez mais, ainda existem mulheres sendo diminuídas pela pressão, pelo descuidado e pelo desrespeito.

Antes mesmo que todos e quaisquer fatos sejam comprovados, isso já era implícito a todos.  Violência não consiste só em agressão física, nesse caso consiste muito em retirar o direito de usufruir do próprio trabalho, das próprias ideias e valores.  A mulher já é involuntariamente colocada sob um holofote de estereótipos, principalmente ligados ao mercado de trabalho, desvalorizando a cultura e arte que elas conhecem.

Alice Walker, escritora e poetisa estadunidense já nos alertava  muito antes sobre o assunto: “Não pode ser seu amigo quem exige seu silêncio”.  A importância histórica e literária de uma mulher é de perto uma das mais importantes, desde o romance até as pesquisas científicas que mudaram, mudam e ainda podem mudar a vida de muitas pessoas. 

Pode até ser compreensível nos taxar como sexo frágil baseado em questões biológicas, mas isso nunca deve – e com certeza, nenhuma mulher deixaria ser – ser colocado em questão quando o conhecimento e a capacidade estão em jogo.
Graças ao conhecimento e capacidade de muitas mulheres, suas declarações de apoio e motivação que esse artigo pode ser publicado hoje, que diversas outras mulheres podem escrever sobre o que quiserem.

Já dizia Anita Loos, escritora de novelas norte-americanas: “Um homem beijar sua mão pode ser uma delícia, mas uma pulseira de safras e diamantes dura para sempre”. Reconhecimento é gratificante, mesmo que ainda seja algo distante de muitas ou praticamente todas as mulheres, no meio literário, econômico, gastronômico, político, em todas as áreas. Não é impossível, só está distante.
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