23/08/2019 às 18h42min - Atualizada em 23/08/2019 às 18h42min

Evento em Maceió vê da escrita, uma busca pela eudaimonia

Alessandra Araújo - Editado por Leonardo Benedito
Imagem: Alessandra Araújo
Certo dia Ferreira Gullar, que foi um poeta além de tantas outras coisas, disse que “a poesia é um difícil ofício de expressar a vida, naquilo que ela tem de belo e dramático”. Foi pensando nessa arte tão expressiva que a professora Izabel Brandão junto com o Grupo Lumen, em Maceió, elaborou um evento que tratou de promover a poesia em prol do autoconhecimento e eudaimonia.  

Para o evento careceu somente um quilo de alimento para a entrada e disponibilidade para ouvir com atenção. Como moderadora, a professora Izabel Brandão tratou de guiar sua narrativa demonstrando os poemas criados por mulheres para mulheres.

Nada parece mais inútil do que um amontoado de palavras ao acaso. Por sorte, destino ou coisa que o valha, existem essas almas intensas e transbordantes que, muitas vezes, dedicam suas vidas a organizar palavra a palavra e conseguir com isso um signo daquilo que ninguém é capaz de ver de perto. Escrever, pois, aparenta ser uma dessas coisas que se faz quando a vida se mostra insuficiente.

Marcantes, os poemas descreviam muitas dores, muitos valores. Amor. Sentimentos grudados em palavras apertadas e lidas com gratificação. Os presentes puderam conferir os trabalhos de nomes como os de Grace Nichols, de Arriete Vilela, e Rupi Kaur.

Os versos retrataram temas que constantemente se fazem notórios na atualidade para a realidade da mulher. A gorda, a negra, àquela a quem foi dito que não lhe era permitido se encaixar. Todas essas questões foram então debatidas sob a ótica dos poemas rimados, que eram ora desabafos, ora protestos.  

Perguntada sobre esse processo de eudaimonia através da poesia, a professora Izabel afirmou que se trata de um conceito filosófico que teria aprendido há muito tempo, e que consistia na simples busca humana pela felicidade. ‘‘Penso que as dores são transformadas a partir da escrita’’ disse. "Precisamos aprender a ser mais compassivos, a buscar uma integração com o todo. Esse trabalho aqui hoje trata disso, dessa necessidade que se apresenta quase que involuntariamente, que é sobretudo espiritual".

Foi com o poema de Arriete Vileva que a palestra se iniciou. Ele diz:

‘A poesia lavra a terra que sou,
revolve-me o solo poético,
confere-o expõe minhas raízes.
Bela e compassiva, presenteia-me uma nesga de lua,
um golpe de água de cacimba,
um sopro de brisa ao fim da tarde.
Contragolpes na fratura exposta da palavra
".

Poetisas não; poetas, substantivo de dois gêneros, que iguala. É como essas mulheres devem ser chamadas, realçou a palestrante. A palavra poetisa possui infeliz histórico de ter sido usada de maneira pejorativa para diminuir as produções literárias das mulheres, que priorizava a visão intelectual masculina. Essas então poetas, com suas viscerais produções comoveram e iluminaram aos que integraram o evento.

Quem participou da palestra pôde sentir, ainda que uma pequena parte, dos sentimentos esboçados em todos aqueles versos. Foi o caso da Gabryella, 24, que além de gostar de poesia, também as escreve. "Acho que escrever imortaliza o que estou sentindo e quando se trata de alguma dor, tira um pouco isso de mim, como se saísse nas letras. Quando é algo bom, feliz, quase sempre quando releio sinto a mesma sensação de quando escrevi", comentou.

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