03/10/2019 às 15h39min - Atualizada em 03/10/2019 às 15h39min

Resenha: O olho da rua - Eliane Brum

Talyta Brito - Editado por Socorro Moura
Amazon
 
“Jornalismo, por isso, só vale a pena pela sensação de se poder ser testemunha ocular da história de seu tempo. E a história ocorre sempre na rua, nunca numa redação de jornal. É claro que estou tomando “rua” num sentido bem amplo. Rua pode ser a rua propriamente dita, mas pode ser também um estádio de futebol, a favela da Rocinha, o palanque de um comício, o gabinete de uma autoridade, as selvas de El Salvador, os campos petrolíferos do Oriente Médio. Só não pode ser a redação de um jornal.” Foram palavras ditas por Clóvis Rossi. É justamente esse tipo de jornalismo que Eliane Brum se propõe fazer no livro “O olho da rua”. Formada pela Universidade Católica de São Paulo (PUC), Brum coleciona mais de 40 prêmios ao longo da carreira. 

A repórter gaúcha percorre desde a floresta Amazônica as periferias da grande São Paulo, para contar a história de gente que passa despercebida. Ao final de cada reportagem, a autora descreve como foi o processo de produção, bem como, suas experiências ao adentrar ambientes que fogem do seu cotidiano. A reportagem que abre o livro é “a floresta das parteiras”. A narrativa descreve a vida de parteiras amazonenses, também conhecidas como “pegadoras de menino”. Com períodos curtos, mas profundos, Eliane elucida como aquelas mulheres apesar de analfabetas fazem poesia com os lábios.

Outro aspecto levantado é a sua incapacidade de compreender a atitude de algumas gestantes em agendar o parto. Para elas, “parto é mistério. E menino, a gente nunca arranca. Só recebe'. No texto “A guerra do começo do mundo”, o leitor é levado a refletir sobre um problema antigo do país: a disputa por terras entre índios e civis. Nessa matéria em específico, o recorte dado é em Roraima. A falta de identidade com o próprio território é outro impasse apresentado. “Quando um roraimense viaja, anuncia aos amigos: vou para o Brasil”. A primeira pergunta aos “estrangeiros” é: 'vieram do Brasil?'. Por Brasil, entende-se tudo o que existe do Amazonas para baixo.”

Em “A casa dos velhos”, Eliane se hospeda no asilo. Ao longo da convivência com os idosos, foi possível observar que a divisão por classe social predomina. “Como lá fora, entre pobres e ricos há uma longa escadaria”. A Casa São Luiz - como é intitulado o asilo - tem alas particulares e gratuitas, horários específicos para alimentação e toque de recolher. A reclusão do convívio social traz sequelas. A mais evidente delas, alimentada por praticamente todos os hóspedes, é a esperança de voltar para a família.

Através da história de Hustene Alves de Almeida, a jornalista debate o desemprego, problemática que afeta parte considerável da população brasileira. Pankinha, como é conhecido pelos amigos, nasceu no Rio Grande do Norte, mas se mudou para São Paulo com o intuito de ter uma vida melhor. Entretanto, as coisas não vão acontecer como ele imaginava. Já a história "O povo do meio" emociona por trata - se de pessoas que vivem isoladas do mundo globalizado. São indivíduos que não conhecem o presidente, não possuem documentos. Esse povo com características tão peculiares está ameaçado de extinção por conta da ação de grileiros.

A despeito da matéria “Expectativa de vida: vinte anos”, que aborda a morte precoce de jovens negros, pode- se afirmar com veemência que Eliane foge do jornalismo factual e mostra um outro lado da história, que muitas das vezes é ocultado – a dor da mãe desses garotos. A narrativa mescla a descrição dos fatos e declarações de algumas mães como Enilda Rodrigues da Silva: “quando meu filho apareceu em casa vivo, mas com um tiro no peito, comecei a pagar o caixão. Agora pago as prestações do caixão do meu segundo filho. Ele está vivo, mas sei que vai morrer.”

“Coração de ouro” conta como a cidadezinha de Apuí, no Amazonas, sofreu uma reviravolta depois da descoberta do ouro. “Desde que o ouro fagulhou no portal do município, na internet, a notícia viralizou o mundo.” A história “O inimigo sou eu” é a única reportagem do livro narrada em primeira pessoa. A mesma descreve as experiências vividas pela repórter no retiro de Vipássana. Eliane conta que “em vez de levar bagagem, tivemos de tudo o que nos ligava ao mundo exterior.”

“Vida até o fim” fecha o livro brilhante. Brum se propôs a acompanhar algumas pessoas enfermas. Dentre elas, podemos destacar Ailce. A merendeira foi diagnosticada com um câncer, mas morreu sem pronunciar a palavra. Em suma, como diz o jornalista Caco Barcellos, “a reportagem é a arte da escuta” e Eliane Brum sabe fazer isso com maestria!


 
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