12/07/2020 às 12h25min - Atualizada em 12/07/2020 às 10h40min

“Frances Ha” e o estilo cotidiano de Noah Baumbach

O diretor Noah Baumbach é conhecido por retratar a vida cotidiana das personagens em seus filmes

Letícia Anacleto - Editado por Letícia Agata
Frances Ha (2012) é um dos filmes da carreira de Noah Baumbach, diretor americano que tem um estilo bem definido para as narrativas de seus filmes. No longa metragem disponível na Netflix, Baumbach mostra a vida cotidiana da personagem Frances, uma aspirante à dançarina que passa por situações muito semelhantes às da vida real. Desde problemas com amizades e a dificuldade de se relacionar amorosamente até a busca por um caixa eletrônico para conseguir pagar a conta de um restaurante, a jovem, interpretada por Greta Gerwig, vive momentos e problemas do dia-a-dia de uma pessoa comum.

Diretor de cinema Noah Baumbach

Diretor de cinema Noah Baumbach


Imagem: Reprodução/ Internet

Apesar de ter evoluído seu modo de direção no decorrer do tempo, Baumbach sempre tende a falar de temas comuns, cotidianos e, de certa forma, autobiográficos. Segundo Pedro Vaz Perez, professor dos cursos de Comunicação Social da PUC Minas e doutorando pelo PPGCine UFF, o diretor demonstra uma constante em falar de um tipo de pessoas específicas em seus filmes. “O cineasta vai sempre falar de pessoas que são mais ou menos iguais a ele, então sempre vamos ver pessoas brancas, de classe média, envolvidas com arte e com relacionamentos heteronormativos”, conta Perez.

Os filmes do cineasta mostram tipos de pessoas muito específicas e isto demonstra uma evidente exclusão de quem foge de sua realidade. Perez conta que esta é uma característica que algumas pessoas podem considerar como uma fragilidade do cinema de Baumbach, mas que, na tentativa de não julgar as escolhas do diretor, é possível observar que “ele tenta enxergar algo de extraordinário no ordinário da vida de pessoas comuns”, explica.


Imagem: Reprodução/ Internet

Outra questão que é sempre encontrada nos trabalhos do diretor é a dificuldade de amadurecimento que, juntamente com a questão do cotidiano, forma o estilo do cineasta. Em “Tempo de Decisão”, filme de estreia de Baumbach, um grupo de jovens recém-formados na faculdade se encontra perdido e tem dificuldade de seguir adiante com sua vida. Outro filme é “Enquanto Somos Jovens”, em que um casal adulto decide conviver com um casal de jovens. Também em “História de um Casamento”, um dos filmes mais conhecidos do cineasta, um casal se vê passando pela fase do divórcio e, assim, eles têm que aprender a lidar com a separação, o trabalho e o filho.

O amadurecimento é mostrado através das relações de suas personagens, dentro do convívio entre família, amigos e relações amorosas. Em “Frances Ha”, por exemplo, a personagem principal tem um conflito com ela mesma, pois ela é uma jovem que se vê perdida no limbo entre adolescência e vida adulta. A estudante de Jornalismo, Dara Russo, conta que ao assistir "Frances Ha", conseguiu se identificar com situações e sentimentos da personagem principal, e destaca: “É um retrato da vida real, que mostrou que está tudo bem se sentir deslocado na juventude e ser uma pessoa ‘normal’, com defeitos e desafios”.

Um dos momentos mais realistas e de fácil identificação com o filme é a relação de Frances com sua melhor amiga Sophie, sua colega de apartamento que acaba se mudando e construindo novas relações fora do círculo de amizade com Frances. “O sentimento agridoce da protagonista, ao sentir que sua melhor amiga avança enquanto ela ‘fica para trás’, provavelmente é comum para quase todos nós”, relata Dara. Além disso, a estudante de Jornalismo conta que cenas cotidianas, como quando a personagem tem dificuldade de colocar um papel na caixa de correspondências, quando cai e machuca seu joelho, ou até mesmo quando dança pelas ruas ao som de “Modern Love”, de David Bowie, dão outro olhar para pequenos momentos da vida que são considerados banais.

Frances e sua amiga Sophie no filme

Frances e sua amiga Sophie no filme

Frances e sua amiga Sophie no filme

Imagem: Reprodução/ Internet

Mesmo com a sensação de fácil identificação que o estilo de Baumbach passa, seus filmes podem ser incompreendidos por alguns. Perez conta que isso acontece porque as pessoas estão estagnadas em uma estrutura narrativa de “início, meio e fim”, que foi construída ao longo dos séculos. As histórias começam com a apresentação das personagens e em seguida acontece a definição de um conflito. O desenvolvimento geralmente tem uma personagem do mal e uma do bem, que está envolvida em um romance. Por fim, o conflito chega a seu ponto ápice (clímax) e tudo se resolve ou é definido.

O professor mostra que essa estrutura clássica narrativa foi alastrada pelo mundo, deixando o espectador acostumado e reconhecendo uma “paisagem pronta”, com todas as peças em seu devido lugar e, assim, se satisfazendo com filmes que apresentem essa estrutura pré-definida. “O espectador vai sair satisfeito com essa história que ele já ouviu mil vezes”, aponta Perez.

O tipo de cinema de Baumbach se apoia em uma simplicidade narrativa que, em alguns momentos fogem das regras da estrutura clássica. Por exemplo, o cineasta não coloca em seus filmes personagens que representem o bem ou o mal, apenas pessoas normais, complexas e contraditórias vivendo a existência humana. Outro ponto é o arranjo narrativo que acaba deixando algumas questões abertas e não tem conflitos muito claros.

Perez conta que “o espectador mais desavisado, acostumado com esse estilo narrativo clássico, vai chegar ao final de um filme do Noah com a sensação de que nada aconteceu, porque não conseguiu identificar o estilo que está acostumado a ver em outros filmes”. Apesar disso, é importante que os espectadores aprendam a apreciar diferentes estilos, mesmo os que fogem do padrão narrativo ao qual estão acostumados. “Mesmo que o espectador assista a um filme diferente e não goste, alguma coisa vai mudar dentro dele: na próxima vez que assistir algo um pouco mais diferente, ele vai ter bagagem para lidar com aquelas informações e, quem sabe, ao longo de anos essa pessoa vai se abrindo mais a diferentes modalidades narrativas”, diz o professor de comunicação em tom esperançoso.



Vídeo: Trailer Oficial do filme Frances Ha
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