08/05/2019 às 16h19min - Atualizada em 08/05/2019 às 16h19min

Qual o problema em ser mulher e ser jornalista?

A realidade do jornalismo feminino no mundo

Larissa Bosque - Editado por: Leonardo Benedito
PixaBay
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Desde os primórdios, o ser mulher sempre foi uma tarefa difícil. Mas, com a evolução da espécie e, consequentemente, a civilização da sociedade, surge a expectativa de um novo mundo para o “sexo frágil”. Nesse pacote de mundo ideal está o direito ao voto, a igualdade salarial e o mínimo necessário a todo ser vivo: o respeito. Em pleno século XXI, o que trago são relatos chocantes de machismo explícito, de assédio sexual e de abuso psicológico. Aqui, iremos ver o mundo do jornalismo pelos olhos de mulheres que tentam todos os dias fazer o seu trabalho, mas encontram em cada esquina um oponente perigoso: o “homem de sexo frágil”; que precisa subjugá-las para se provar auto-suficiente, donos da verdade ou defensores da moral e dos bons costumes.

Em 2016, durante uma entrevista coletiva, o cantor Biel chamou a jornalista Giulia Pereira, repórter do portal IG, de “gostosinha”. Além de afirmar que “a quebraria no meio” em uma relação sexual. Giulia foi demitida um mês após o caso vir à tona. Para a carreira dele o episódio teve pouco impacto, entretanto, resultou na união de um grupo de mulheres para a criação da campanha ‘Jornalistas contra o assédio’, que segue acolhendo denúncias de vítimas dos diversos tipos de agressão, uma pequena vitória.

Na editoria de esportes superpovoada por homens, profissionais do sexo feminino são poucas, acanhadas, mas determinadas a conquistar o seu lugar. No entanto, esse se torna um ambiente hostil quando a jornalista é agarrada e beijada por um homem ao vivo durante uma cobertura esportiva, como aconteceu com a repórter Bruna Dealtry, do Esporte Interativo. Mesmo constrangida, Bruna continuou sua transmissão mostrando aos demais o tamanho do seu profissionalismo. Profissionalismo esse que, subjugado todos os dias com o desmerecimento de profissionais exemplares, pela condição de ser mulher.

Esses casos não são isolados, mas são os que ficam explícitos por conta da repercussão e pela forma como se sucederam. Nos bastidores, são recorrentes por trás das câmeras e encobertos por cargos altos. Muitas já imaginam que a qualquer momento possam ser vítimas de tais práticas, mas no fundo ninguém espera realmente que aconteça… Até acontecer. Quando uma mulher encontra-se nessa situação começa a julgar-se, questionar suas qualidades, seu potencial e, por vezes, acredita ter sido a culpada, mas a culpa nunca é da vitima.

A estudante de jornalismo Gabrielly Reis, 20, sentiu na pele o machismo na sua primeira oportunidade de trabalho na área. Quem deveria ser seu espelho de profissional se tornou seu algoz. Segundo a estudante, seus dias passaram a ser de constante constrangimento ao deparar-se com a situação de assédio. No início tentou relevar, acreditar que se tratavam de piadas de mau gosto, mas as piadas cresceram e tomaram proporções alarmantes. Palavras vulgares, investidas sexuais e, ao perceber que suas investidas não trariam resultados, a demissão.
Hoje, acredito que todos os dias é um dia de vitória para uma mulher no cargo de jornalista. Não é algo de hoje, é algo de décadas. E é triste saber que mesmo com o máximo de postura profissional, sempre seremos um corpo sexualizado antes de tudo”, declarou.

Muitas vezes, mulheres como Gabrielly passam por isso caladas, acuadas e coagidas. São ameaçadas e sabem que a corda pode partir do lado mais fraco. Agora, com discursos machistas perpetuados pela mais alta corte do país, casos como esse se tornam mais frequentes e derrubam as máscaras que encobriu diversos machistas inseridos ambientes como esse. Os coletivos criados para acolher essas profissionais já contam com dezenas de colaboradoras que se abraçam e se acolhem na intenção de eliminar os rastros repugnantes deixados no psicológico de quem sofreu com essas situações. Trazendo uma ajuda profissional, humana, psicológica e jurídica para lidar com os casos.

Gabrielly segue tentando reconstruir sua vida, mantém seus sonhos intactos e pretende continuar atuando no jornalismo com o profissionalismo de sempre. Ela sabe que o machismo vai continuar existindo e garante que enquanto puder, vai lutar pelo seu direito de ser mulher. “Só não podemos desistir. Não desistir por você, não desistir pelas mulheres que lutaram pelo seu direito de poder trabalhar, não desistir pelas mulheres que ainda estão por vir, e que podem sofrer os mesmos abusos que você sofre hoje. O abuso existe e está em todos os lugares, não escolhe idade, conta bancária, e nem mesmo profissão. Só não podemos deixar que ele nos consuma, não devemos nos calar e nem nos submeter a essas situações. Seja você a diferença de não deixar ninguém calar uma mulher”, para ela e para todas as mulheres o tempo de omissão acabou!

O velho machismo, vai ser combatido por mulheres como Gabrielly, porque a diferença é que agora estamos no século XXI, e o mundo é das mulheres!
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