18/12/2020 às 03h55min - Atualizada em 18/12/2020 às 08h00min

Clarice Lispector: 100 anos da escritora referência na literatura mundial

Ela publicou 18 livros, entre romances, crônicas e contos, sendo a escritora brasileira mais traduzida no mundo

Andrieli Torres - Editado por Gustavo Henrique Araújo
Foto/Reprodução: Clarice Lsipector/Editora Rocco
Nossos olhos brilham quando lemos palavras bonitas, as quais nos identificamos imediatamente. É como se cada uma fosse direcionada especialmente para nós, e, de fato, por que não seria? Não podemos duvidar do que uma escritora sente; torna-se também os nossos sentimentos: por ser mulher, o que uma autora expressa, muitas vezes define a realidade da sua leitora.

A literatura é uma calmaria para a alma, mas algumas leituras exigem um pouco mais da nossa atenção, do entendimento particular e de uma conexão com quem escreveu. É assim que, principalmente as mulheres, sentem-se quando se deparam com as obras de Clarice Lispector.

Mesmo sendo uma grande escritora e jornalista, Clarice considerava-se uma "dona de casa que escrevia livros". Ela afirmava que tinha uma vida bastante corriqueira: criava os filhos, cuidava da casa e adorava ver seus amigos. “O resto é mito ”, disse certa vez.

A autora nasceu em Chechelnyk, na Ucrânia, em 9 de dezembro de 1920 – se estivesse viva, estaria completando 100 anos em 2020. Em 1922, quando era apenas um bebê, teve que migrar com sua família para o Brasil por causa da perseguição religiosa contra os judeus e também pela Revolução Russa em 1917.

Mesmo sendo natural da Ucrânia, Clarice não se considerava de lá, por isso falava que "naquela terra eu literalmente nunca pisei: fui carregada de colo". Quando era questionada, não hesitava em falar que era pernambucana, já que era em Recife que a família Lispector residia. Mas logo depois, em 1935, passaram a morar definitivamente no Rio de Janeiro.
 
Era casada com o diplomata Maury Gurgel Valente, com quem teve dois filhos. Entre 1944 a 1959 morou na Itália, Suíça, Inglaterra e Estados Unidos, acompanhando o marido, mas o casamento chegou ao fim e ela retornou para o Brasil, onde permaneceu até 9 de dezembro de 1977, quando morreu aos 56 anos devido a um câncer de ovário, um dia antes do seu aniversário.

O nome original de Clarice era Chaya Pinkhasovna Lispector, mas com a vinda para o Brasil, passou a se chamar Clarice, como uma forma de "aportuguesar" o nome, assim como os demais membros da família Lispector: seu pai, Pinkhas, tornou-se Pedro; a mãe, Marian, passou a ser Marieta; as irmãs, Leah e Tcharna, para Elisa e Tânia, respetivamente.
 
Seu primeiro romance foi publicado quando ela tinha 22 anos. "Perto do coração selvagem" lhe rendeu um prêmio e fez a fama de autora perpetuar como uma difícil leitura, mas que, apesar disso, atualmente é a mais citada na internet. Ela também é a escritora brasileira mais traduzida do mundo, com 113 traduções em 40 países e 32 idiomas, segundo dados da UNESCO de 2012. Ao todo, ela publicou 18 livros, entre eles romances, crônicas, contos e infanto-juvenis.
 
Os textos de Clarice são subjetivos, entre uma linha e outra podemos encontrar desabafos, medos e angústias de uma mulher comum, assim como eraa própria Clarice, que mesmo com a sua rotina de mãe e dona de casa, conseguia escrever de uma maneira difícil e ao mesmo tempo bonita de se ler.
 
O professor Arnaldo Franco Jr. da Universidade Estadual Paulista (Unesp), comenta que a obra dela está marcada pelo hibridismo de gêneros, assim como também pela experimentação linguística. “Pela afirmação de uma ótica feminina contribuiu para ampliar os valores temático-formais do sistema literário brasileiro", disse em entrevista à BBC News Brasil.
 
As crônicas dela inspiraram uma série para o programa "Fantástico" da Globo, em 2013. O “Correio feminino” retratava o dia a dia de mulheres comuns, mas com muitos questionamentos. Maria Fernanda Candido interpretava Helen Palmer, pseudônimo criado por Lispector quando escrevia para jornais dos anos 1950 e 1960. Os textos eram sobre culinária, sedução e beleza.
 

Clarice Lispector deixou um legado rico para a literatura mundial. Ela, que sabe como ninguém ser autêntica e peculiar em sua maneira de se expressar. Todos nós precisamos, em algum momento, sentar e se debruçar nas obras dessa escritora que mostrou que a escrita pode chegar a lugares inimagináveis.


Principais obras de Clarice Lispector:

Perto do coração selvagem (1943)
Laços de família (1960)
A paixão segundo G. H. (1961)
A legião estrangeira (1964)
Uma aprendizagem ou o livro dos prazeres (1969)
Felicidade clandestina (1971)
Água viva (1973)
A hora da estrela (1977)
Um sopro de vida (1978)

 
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