04/02/2021 às 14h07min - Atualizada em 04/02/2021 às 13h45min

Caminhos da independência: a literatura crua e viva dos autopublicados

Escritores independentes e a luta por formas de divulgação eficientes em uma era cada vez mais aberta à autopublicação

Jennifer Valverde - Editado por Andrieli Torres
Michele Rodrigues, maranhense(futura escritora); Albaneide B S Lopes, paraibana (Escritora) e Maina Mattos, mineira(Escritora)
Foto/Reprodução: unsplah.com

Foi-se o tempo em que só quem tinha contrato com grandes editoras e um grande investimento de capital podia publicar sua obra. Para a aspirante à autora, a maranhense Michele Rodrigues, 26, havia um certo preconceito ao se referir a autopublicação. Ela relata que pensava que pelo o autor não estar sendo publicado por uma editora, ele provavelmente não era um bom escritor. Entretanto, sua forma de concepção mudou quando ela começou a enviar seus originais para as editoras, desde pequenas a grandes; valores exorbitantes eram cobrados por eles. 

 “Foi então que vi que na verdade é bem difícil um autor iniciante ser publicado por uma editora no Brasil sem gastar nada. Comecei a pesquisar mais sobre a publicação independente e decidi que seria uma escritora independente.”

A escrita independente tornou-se um passaporte para autores que não se veem gastando uma grande quantia para terem o sonho de serem escritores publicados e, finalmente, alcançado. A preocupação vem quando esses escritores se veem não só responsáveis pela escrita e publicação de seus livros, como pela revisão, diagramação e marketing, antes e após a tão sonhada obra publicada. O que pode ser amenizado pela terceirização de alguns serviços, como a contratação de plataformas de autopublicação como a Uiclap ou o Clube de Autores, além da contratação de revisores e designers de capa, por fora.

Para a autora paraibana Albaneide B S Lopes,
“não é nenhum mar de rosas”, entretanto, ela explica que se tem inúmeras vantagens como a liberdade contratual, onde o autor participa de todo o processo editorial até a publicação final e a divulgação, como em um de seus livros publicados independentes pela plataforma de autopublicação Uiclap, a obra 'Fora dos Padrões'. 

 Albaneide relata que as mídias sociais são de suma importância na divulgação de seus livros, além de grupos de amigos virtuais que tem o mesmo interesse assim como os seus amigos locais. O que reforça a importância do marketing digital para autores e o poder que essa ferramenta pode trazer a uma obra.

A partir disso vemos um aumento considerável de influenciadores literários para escritores independentes e agências de marketing para autores, como no caso da LC - Assessoria e Marketing, uma das maiores agência de divulgação de livros no Brasil e da recente Revista Perpétua que busca divulgar em tom de parceria e de forma gratuita autores independentes nacionais e portugueses.  
 

Autor ou marqueteiro? 

Para se destacar, Michele diz que um grande desafio do autor independente é não ser somente um bom escritor, mas entender de marketing pessoal e publicidade. “Pois,ninguém vai comprar o meu livro se eu não fizer uma boa propaganda”, relata. E ressalta que seu plano de divulgação da sua futura obra, ‘Poemas para Elas’, é focar na plataforma digital Instagram, já que ela dispõe de recursos visuais atrativos para se autopromover, como o reels (pequenos vídeos de grande acesso), o stories (local onde se pode publicar pequenas artes, imagens e vídeos que ficam com o acesso disponível por 24h) e o promoções (ferramenta da plataforma para promover uma publicação para um alcance maior de público). Além de disponibilizar pequenos trechos de sua obra para o grande público. 

Entretanto a auto divulgação ultrapassa as publicações e ações de marketing nas plataformas virtuais. Ela deve ser progressiva e se vender sozinha. Já que para um autor independente a frase "tudo ou nada" é mais que uma força de expressão, é um mantra que demonstra o quão versátil deve ser um escritor solo. A autora mineira Maina Mattos, sabe bem o quanto as ferramentas ajudam, mas não são suficientes para se vender uma obra. A exemplo do seu trabalho; 'Amor Real', ela diz que o maior diferencial foi estabelecer uma conexão com seus leitores, uma amizade, e que isso ajudou muito, além da divulgação “boca a boca” que os próprios leitores faziam. 

 

Maina afirma que para publicar de maneira independente, o autor deve compreender seu público, conhecer seu livro e toda a jornada dele, além de ser mais acessível aos leitores, humanizando o posto de autor.  

“Não é um processo fácil, no meu caso eu tive o Wattpad, que me fez alcançar um público razoável que curtiam meu trabalho e me deram um retorno, possibilitando fazer uma tiragem pequena de livros, mas que valeram a pena o trabalho.”

A autora ainda diz que é importante o aspirante à publicação independente saber a qualidade da obra que colocará no mercado, já que é um produto e para ser reconhecido e divulgado pelo próprio público deve ter boa qualidade, “dedique tempo e conhecimento”, ela aconselha. A romancista ainda diz que o cultivo do público é tão importante que trouxe a ela não só leitoras, mas amigas também. Elas se envolveram e se engajaram tanto que criaram um fã-clube dos livros de Maina de forma voluntária. 

“Tenho leitoras que viraram amigas e elas ajudam muito. Até mesmo no meu Instagram. Quando eu fiz um desafio que se chama ‘Demonstre o seu amor’, muitas leitoras se engajaram para fazer algo sobre as minhas histórias, e eu usei isso para divulgar”, conta.

A publicação independente tem um papel muito importante na democratização da literatura. O que está possibilitando a milhares de autores a chance real de ser lido e de ver suas ideias circulando pelo mundo afora. Para a autora Albaneide, a publicação independente não veio somente para democratizar o mercado editorial, mas para se fazer grandes talentos, ela deixa um recado: “Nenhum autor conseguirá entender o real valor de seus livros a não ser pelos olhos de seus leitores. Por isso, siga, há de valer a pena”, completa.

 

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