04/02/2021 às 15h39min - Atualizada em 04/02/2021 às 14h57min

170 anos do falecimento de Mary Shelley

"A invenção, devo modestamente admiti-lo, não consiste em criar disciplinadamente, mas sim em criar a partir do caos"

Lívia Oliveira - Editado por Gustavo Henrique Araújo
PEARSON, Julia. Biography of Mary Shelley, English Novelist, Author of 'Frankenstein'.
Foto: escritora britânica Mary Shelley/Reprodução: ThoughtCo

Terror traz calafrios só pelo nome, pela rudeza, pelas memórias borradas de histórias há muito contadas. Acreditar em lobisomens, vampiros, fantasmas, zumbis… Tudo isso faz o sangue gelar, eletrizante, pelo terror do desconhecido ou pela violência que lhe cerca. Não importa se é crente ou não, o estômago embrulha quando é noite, a chuva derruba a cidade, os relâmpagos esgarçam o céu, a cortina se contorce, a dobradiça da porta geme, um objeto despenca de uma prateleira qualquer… Sempre há um temor esquisito em atravessar a casa para pegar um simples copo d'água na madrugada. É isso que o terror causa. E foi esse o legado de Mary Shelley.

 

O arrepio que se sente ao ler sua obra é inevitável, escorrega pelo corpo e cobra dois ou três suspiros para assimilar as palavras dispostas no papel. Ter "Frankenstein" em mãos é segurar uma revolução, uma chave para uma porta que a humanidade sequer sabia da existência. Não é só o sombrio, o medo, as divagações sobre ser possível ou não: a obra mais aclamada de Mary Shelley é, sem sombra de dúvidas, uma das maiores dádivas desta espécie. Uma mulher que, antes mesmo de duas décadas vividas, trouxe ao planeta essa chave, guiou o homem à porta, abriu-a e mostrou que a ciência vai além das obras não-fictícias para academicistas.

 

Em Londres, 30 de agosto de 1797, nascia a mulher inspiradora e influente que, eventualmente, romperia barreiras de gerações para ter o seu nome marcado muito, muito após o último suspiro dado: Mary Wollstonecraft Godwin. O terror e o oculto estivera consigo desde seus primeiros anos, nas vastas leituras na biblioteca do pai, o escritor, filósofo e jornalista William Godwin. Sua mãe, porém, não esteve presente para acompanhar seu crescimento, pois faleceu poucos dias depois de seu nascimento. O feminismo radical dos textos de Mary Wollstonecraft, sua mãe, certamente daria bons frutos à Shelley.  Era certo: havia, de algum modo, que a herança intelectual dos pais pudesse aninhar Mary e torná-la tão grandiosa quanto eles. 

 

Interessava-se pelas histórias de fantasmas, pelo horror, pelo sinistro, como também nutria extrema devoção pela ciência. A ciência que muitas vezes tinha sido pauta de debates do seu pai com os mais grandíssimos cientistas e que ela, por curiosidade e gosto, estivera em seu encalço a acompanhar. Decerto, Mary teria de descarregar essa aparelhagem em alguma obra, quaisquer que fosse. 

 

Romântica que era, não tardou a cair de amores por Percy Bysshe Shelley, um dos poetas românticos mais aclamados pela crítica. Amor, juventude e esperança… Tudo correndo pelas suas veias, guiando-a para uma fuga com seu amado, juntamente com sua meia-irmã que há muito não aguentava o sufoco de estar naquela casa. Mary foi um poço de paixão, de apoio, uma crente no amor. Ficou com Percy, ainda que este fosse legalmente casado com outro alguém.

 

Antes mesmo de trazer medo em forma de palavras, ela trouxe medo ao mundo patriarcal por não ser aquela mulher que está lá para tarefas domésticas, conceder filhos e esconder-se atrás da sombra do marido. Não. Mary rasgou esse conceito, provou ser muito mais do que isso. Uma vez educada pelo pai, balançou as estruturas da sociedade que não se comprometia com um ensino de qualidade para as mulheres. E Shelley (sobrenome que receberia do seu marido) certamente conseguiria destaque por impôr-se. 

 

Seu admirado triunfo estava a surgir quando, numa viagem à Genebra, foi uma dos desafiados pelo amigo de Percy — o Lorde Byron, também um ilustre poeta romântico — a escrever uma história sobre fantasmas. Encontrava-se num cenário aterrorizante, pois não parava de chover; a casa era grande e os pensamentos tenebrosos não saíam da sua cabeça, assim como as gotas violentas estapeavam as vidraças. E numa dessas noites, após o acordo da história, num sonho viera a imagem de um jovem rapaz a tentar dar vida a uma criatura feita de cadáveres, através do galvanismo. A história estava pronta, eletrizante, bastava só pôr no papel.

 

E foi assim, entre os relâmpagos de Genebra e o intenso sonho que mais parecia realidade, que surgiu "Frankenstein ou O Prometeu Moderno". Mary viveu o amor, o abandono, o desespero e, sobretudo, a dor. Sentimentos esses presentes na sua obra, como se fosse ela pedaços do seu coração pesado que carregava o falecimento da sua primeira filha. Não obstante, o luto não a segurou dos instintos, da arte e do amor que tinha pela ciência e pela escrita. 

 

Sim, Mary escreveu aquele livro, e ela era uma mulher. E por ser mulher, foi-se negado que seria capaz de ter escrito uma tão notável obra. Por isso, muitos acharam que seu companheiro, já conhecido no ramo, fosse o real autor de "Frankenstein". Esse burburinho, esse falatório, toda a fofoca acerca do livro foi se extinguindo à medida que ela se mostrava como verdadeira autora. Estaria o mundo preparado para a ficção científica? Estaria. O formidável romance que traz o terror gótico e deu luz à ficção científica mostrou ser merecedor de todo o aplauso possível. Mary Shelley havia apresentado ao mundo a porta da ficção científica. Todos já podiam entrar, sentar-se, esbaldar-se nesse gênero tão querido, assim como sua criadora. 

 

Grande mulher que era, sofria. Sofreu a morte do segundo filho, William, e, posteriormente, a do marido. Não se deixou abalar, apesar da tristeza. Continuou seus trabalhos na escrita; também não mais se casou. Criou o terceiro filho, Percy, que se tornaria baronete. Também viajou, conheceu pessoas, aproveitou mais os prazeres da vida. Faleceu aos 53 anos, no primeiro dia de fevereiro de 1851, em Londres, vítima de um provável tumor cerebral.

 

Seu talento inelutável inspirou, trouxe medo e bondade aos leitores. E agora, 170 anos após sua morte, é preciso estar grato pela graça que foi a existência e a contribuição dessa mulher não só na literatura, mas em toda e qualquer forma de fazer arte. Suas ideias encantam até mesmo quem não costuma se interessar nos gêneros por ela escrito; é simplesmente fascinante. Fascinante que, se é possível sentir hesitação nos relâmpagos que permeiam o céu numa noite escura e chuvosa, sabe-se que tem, claramente, um dedinho de Mary Shelley nisso.
 


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